Premio Nobel

Universidade, Ciência e Barbárie – Um pouco de autocrítica

Alexandre Fernandez Vaz

Estamos em época de saber quais são os agraciados com o Prêmio Nobel deste ano, honraria que o Brasil jamais recebeu, fosse nas modalidades de ciência, da paz ou da literatura. César Lattes, Paulo Evaristo Arns, Jorge Amado, foram fortes candidatos, houve esperança, mas por diferentes motivos não receberam o prêmio. Tinham mérito para recebê-lo¹.

Algo semelhante acontece com outra premiação, o Oscar, outorgado pela Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood às melhores películas. Nunca um trabalho brasileiro chegou ao lugar de melhor filme estrangeiro, apesar dos prêmios em importantes festivais europeus, especialmente em Cannes, Berlim e Veneza.

Seria bom ganhar um Nobel ou um Oscar, além das Copas do Mundo e de premiações importantes na Matemática, Geografia e Arquitetura? Pelo valor simbólico que apresentam, sim, seria, talvez chamasse a atenção para áreas pouco valorizadas entre nós. Nosso Presidente da República, por exemplo, se recusa a assinar o documento que outorga o Prêmio Camões, o principal da língua portuguesa, a Chico Buarque; seu comportamento com a ciência não tem sido respeitoso; direitos humanos são para ele, na melhor das hipóteses, “uma bobagem”.

Deixemos o cinema para outro momento, assim como a literatura e paz, quesito em que neste ano o caiapó Raoni Metuktire aparece, segundo se lê, como forte candidato. Sobram-lhe méritos para o prêmio.

A importância de um Nobel para o Brasil foi destacada recentemente pelo jornalista científico Marcelo Leite. Ao final do texto, o articulista coloca-se da seguinte forma: “Se pudesse conceder a medalha a um brasileiro, escolheria entre essas pessoas que, agora, enfrentam a mãe de todas as crises de verbas e consideração produzidas no Planalto. Elas, sim, merecem a fama de heroínas e heróis, não quem dispara fuzis na rua cheia de gente em favelas e periferias”.

Não é fácil fazer pesquisa no Brasil. A crônica escassez de recursos se combina com sua descontinuidade, somando-se aos entraves burocráticos de importação de materiais e reagentes, às longas discussões em comitês diversos, à busca de horas de trabalho universitário para dedicação à ciência, à exigência de participação no atletismo acadêmico regido pelos rankings de periódicos, entre tantas outras dificuldades. É triste admitir, mas é necessário heroísmo para enfrentar a labuta da produção de conhecimento no Brasil.

Há pouco mais de três anos, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel publicou um longo artigo na Revista Piauí descrevendo o estado de coisas que a fizera decidir deixar seu emprego na Universidade Federal do Rio de Janeiro e tomar o rumo dos Estados Unidos da América, onde passaria a atuar na Vanderbilt University, no estado do Tennessee. Com fortes afirmações e com alguma incorreta generalização, o texto é, no entanto, revelador de muitos dos mal-estares que são enfrentados pelos que investem boa parte de suas energias na ciência. Corajosa, Herculano-Houzel, que também se destaca na divulgação científica, coloca o dedo na ferida do corporativismo e do modus operandi universitário, mas sem deixar de valorizar o empenho e a competência de muitos colegas e grupos. Fico pensando o quanto nós, protegidos pelos muros da institucionalidade acadêmica, de fato valorizamos a ciência e, mais que isso, operamos com ela no espírito público que seria necessário.

O desprezo anti-iluminista demonstrado nas desastradas manifestações de nosso mandatário maior encontra eco em parte da sociedade brasileira que, em boa medida, não considera a ciência e a Universidade como bens de todos. Há nesse processo um irônico e triste momento revelador, já que, de fato, o pensamento científico goza de pouco prestígio (às vezes até entre os universitários) e nossa educação básica não tem conseguido reverter esse quadro. Além do mais, a Universidade é uma estrutura muito enclausurada, que se relaciona com a sociedade prioritariamente por meio da forma mercadoria, em associação a ele. Pudera, afinal o neoliberalismo é uma forma capitalística de civilização tão dura, que sociedade e mercado se confundem – ou, dito talvez com mais precisão, a primeira se dilui no segundo. A coisa se mostra em sua crueza exemplar ao adotarmos como identificação mais importante o CPF, Cadastro de Pessoa Física, documento criado com fins de demarcar o consumidor – Pensando bem, por que não, se ser sujeito nesta sociedade é ser consumidor?

Democratizar o conhecimento significa, entre outras ações, valoriza-lo como um bem em si mesmo, não necessariamente vinculado à utilidade que pode ter; democratizar a Universidade não passa só pela ampliação do número de vagas, mas por construir uma instituição em que prevaleça o espírito público, o que exige que levemos a sério a posição segundo a qual o mercado é apenas uma parte da sociedade, e que não é ele que deve fazer a nossa agenda. Não é fácil sair dessa armadilha, está tudo muito entranhado, naturalizado em nossas ações. Mas é bom que topemos o desafio da crítica do que temos feito, ou ela será tópico, como com frequência acontece, apenas dos obscurantistas.

¹ Na verdade, os brasileiros que compuseram o Batalhão Suez, como Boinas (Capacetes) Azuis da Organização das Nações Unidas (ONU), no Oriente Médio entre 1957 e 1967 receberam o Nobel da Paz em 1988, mas se trata de uma designação coletiva destinada às Forças de Paz da ONU. Daquele batalhão fez parte o professor de Educação Física Gipe Alves de Oliveira, com quem convivi como criança e adolescente, e a quem expresso minha gratidão.


Imagem de destaque: Reprodução/Prêmio Nobel

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