Texto Joaquim Shttefan B7XNN9uNAh8 Unsplash Min

Um Estado de loucos!

Joaquim Ramos

 

Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu!

(Os Mutantes – Balada do louco)

Numa das ruas de Ibirité, onde resido, voltando para casa, uma chorosa senhora se jogou na frente do carro, abanando as mãos, aflita. Assustado, freei bruscamente e ela aproximou-se da janela. Visivelmente transtornada, mostrou uma sacola com farinha de trigo e pediu dinheiro para comprar arroz. Não entendi bem o que dizia, mas alguém de sua casa sofria de enfisema pulmonar e ela não tinha nada em casa para comer. Havia ganhado, numa das casas por onde passou, apenas um pouco de farinha, mas não era suficiente para “tratar” dos filhos pequenos.

A cena favoreceu que um sentimento de tristeza rondasse a minha alma. “Algo de muito esquisito está nos tirando o direito à sobrevivência?”, indaguei a mim mesmo ao retomar a direção do veículo. Minha pouca ajuda, quase nada valia para aquela senhora. Segui meu rumo. No pequeno trajeto até minha casa, eu já não ia sozinho. A pobre senhora me acompanhou em pensamentos. A lembrança de seu rosto banhado em lágrimas grudou em mim e até os filhos pequenos – sequer sabia quantos – seguiam viagem comigo. Todos em meu encalço. Que coisa! A mendicância voltou – “de com força” – em terras brasilis.

Não trazia comigo apenas a desolada senhora e sua prole faminta. Por alguma razão, também desconhecida, me veio, de imediato, a experiência totalitária retratada por Hannah Arendt (1906-1975), em relato sobre a banalidade do mal. Por analogia, o pensamento da filósofa tinha o poder de se encaixar à cena da mulher (brasileira) faminta. Se temporalmente, me pareceu tão longe a Alemanha nazista; a nossa atual realidade me mostrava que alguns protagonistas de nossa política se apresentam, neste momento histórico, com a capacidade de tentar, aqui,  a façanha abjeta e inclemente dos adeptos de Adolf Hitler, como as atrocidades  protagonizadas por Otto Adolf Eichmann (1906-1962), narrada na obra da filósofa americana.

A partir do golpe, de 2016, o país caminha em passos largos para o aprofundamento de uma crise sem precedentes. Sem nenhuma dúvida, hoje, as ruas estão tomadas de indigentes e pedintes. Já não paramos nos sinais de trânsito sem sermos abordados por gente pedindo alguma coisa. O aumento da pobreza pode ser percebido de inúmeras formas. Se caminharmos, durante a noite, pela cidade, é possível observar o grande número de pessoas dormindo ao relento, sob as marquises. Os “novos” políticos – aqueles que falaram que o PT havia destruído o país – em nome de uma pseudoreorganização econômica, política e social, estão cometendo atos inimagináveis. Está em curso o desmantelamento desmedido da nação. É difícil dimensionar o motivo de tanta perversidade e ódio contra as minorias (ou, hoje, maioria do povo brasileiro?), por parte desses “novos” políticos. Enquanto o país desmorona, o nosso presidente reverencia e coloca em primeiro plano os EUA. Situação que seria cômica se não tivesse, por detrás, interesses escusos e entreguistas.

Ao buscar em Hannah Arendt uma centelha de lucidez para compreender os males que nos afligem, a partir da experiência totalitária vivenciada no julgamento de Eichmann, em Jerusalém, por analogia, passamos a “ler” (e não a entender) que o totalitarismo é tão ou mais opressor que a miséria econômica. Ao retratar a banalidade do mal, Arendt nos fala de um homem comum, pai de família, que não explicitava ódio ao povo judeu, nem vontade de transgredir coisa alguma. Esse homem que oferecia flores à esposa era o mesmo homem que enviava milhares de pessoas aos campos de concentração, com a justificativa de que estava apenas cumprindo “ordens superiores”.

Há alguma semelhança entre os assassinatos cometidos por Eichmann, o Brasil de Bolsonaro e a senhora que me pediu dinheiro para comprar arroz? Por meio do voto direto, “escolhemos” um homem explicitamente sórdido e despreparado para dirigir o país. Nessa escolha, está refletida a fome de nossa população e essa fome materializa-se em outras carências tão ou mais elementares que a fome de comida. Falta ao nosso povo – já que o acesso ao poder é por meio da livre escolha – consciência política para compreender que “dependendo de quem pede o voto, tirará, depois, o pão”. Nossa gente ao preterir outros projetos de gestão pública e optar por alguém declaradamente misógino, homofóbico, desrespeitoso, afeito às armas e à linguagem chula, optou também pelo obscurantismo, o retrocesso e a falta de bom senso. Em outras palavras, nós, brasileiros, optamos por um país do atraso e da subserviência.

Durante o julgamento de Eichmann, Arendt indagou: “o que faz um ser humano normal realizar os crimes mais atrozes como se não tivesse fazendo nada demais?”. Aqui, no Brasil, milhões de pessoas tidas como sensatas – algumas até bem conhecidas – foram às ruas, em grande quantidade, com faixas, vozes e a nítida certeza de que, procedendo assim, estariam sepultando a corrupção. Contudo, ao depositarem a esperança em alguém como o atual presidente, essas pessoas sabiam, de antemão, que não sairia nada dali que mudasse positivamente o curso da história brasileira. Em apenas alguns meses, após a posse desse senhor, nenhuma mudança estrutural foi posta em ação. Pelo contrário, a luta do governo é, essencialmente, contra a educação, a cultura, os trabalhadores, a favor da violência, dos agrotóxicos, do desmatamento, enfim….

Após o golpe contra Dilma Rousseff, a corrupção continuou e continua ocorrendo nos bastidores e fora deles. Não falta dinheiro para comprar votos de parlamentares e o dinheiro público continua servindo para que os direitos trabalhistas sejam, literalmente, destruídos. Continuam as manobras para a aprovação de uma reforma da previdência que nega dignidade mínima ao trabalhador e amplia os lucros do mercado e do capital. Sacolas de dinheiro continuaram circulando pelos bastidores, servindo apenas para preencher os editoriais de jornais e revistas. E o pior, com a conivência de uma população que, mesmo consciente desses infindáveis crimes, continua apática, reverenciando um pato amarelo. Na outra ponta, temos um judiciário agarrado às amarras do poder que deixa impune quem realmente merecia ser condenado.

Ao transferir para a nossa realidade a mesma pergunta feita sobre a figura ignóbil de Eichamann, é lícito indagar: onde estão as pessoas que se diziam contrárias à corrupção? Durante o golpe, a corrupção era a coisa mais hedionda do mundo, e agora? Por que os sons das panelas calaram? Cadê os arautos da hombridade e da decência? Por que tiraram a tornozeleira de Andreia Neves? E por que seu irmão, Aécio, continua em plena ação contra os direitos daqueles que efetivamente trabalham Brasil afora? Cansamos de perguntar “onde está Fabrício Queiróz”. Esses “poderosos” homens que hoje dominam a cena política da nação e ocupam os espaços privilegiados dos três poderes estão se achando “deuses”, como contido nos versos colocado na epígrafe deste texto.

O que nos consola dessa pungente dor e da situação indelével em que nos encontramos é que “apenas poderão dizer, no futuro, que foram livres, no Brasil pós-golpe de 2016, aqueles que agora estão se comprometendo e resistindo, pois é uma trágica liberdade de tempos sombrios, mas se nos foi dado viver neste tempo, que vivamos com a dignidade que somente os seres livres podem ostentar”, conforme bem dito por Marcos Sotelo Felippe, em um post recente nas redes sociais.

Felippe está correto! Que nossas bandeiras de luta continuem tremulando nas ruas desse nosso Brasil! Não somos apenas uma nação de imbecis! É lícito depenar o pato amarelo e parar de pagar mico dentro e fora de nossas fronteiras! Chô, desgraceira! Vá de retro…

 


Imagem de destaque: SHTTEFAN/Unsplash

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *