Tempo livre é coisa séria – exclusivo

Matheus da Cruz e Zica

Como as crianças brasileiras têm experimentado o tempo em que não estão na escola? Brincam na rua? Mas a rua não se tornou o lugar do perigo para muitos brasileiros? Os shopping centers não são caros demais para a maioria da população? E, mesmo se fossem baratos, estaríamos ensinando que a diversão só se faz a partir de uma troca monetária. Pague para ter emoção com os joguinhos…

O apreço pela segurança do lar (mesmo que para muitos brasileiros esse espaço seja extremamente precário) garante à televisão um importante privilégio sobre as outras possibilidades de experimentação do tempo livre. É bem verdade que nos últimos anos a internet veio disputar a hegemonia dos grandes canais de TV, mas ainda não tem a abrangência que sua concorrente mais velha já conquistou em nosso solo. Mas em casa também se pode ler. Será que nós brasileiros temos cultivado esse hábito, para além da leitura de jornais, revistas, postagens de redes sociais e bíblias, para o caso dos adeptos ao neopentecostalismo que se multiplicam? O cultivo de uma biblioteca doméstica, por exemplo?

Em nosso país o número de pessoas que passou pela experiência da escolarização aumentou sensivelmente nas duas últimas décadas. Terá isso implicado na constituição de um habitus distinto em relação à cultura letrada, para o Brasil como um todo? Talvez ainda seja cedo para afirmarmos qualquer coisa em relação a isso. Os resultados da ampliação da escolarização no Brasil de fins do século XX ainda poderão ser percebidos de maneira mais clara. Há também uma parcela de crianças vivendo nas ruas ou em contexto de trabalho escravo, não podemos deixar de mencionar esse fato. Para essas crianças, a noção de tempo livre se torna ainda mais problemática…

E os nossos adultos? Como experimentam o tempo livre, o tempo em que estão fora do trabalho? Seria lícito contar as duas horas gastas para ir ao destino do labor e as outras duas para a volta? Entendido a partir das reflexões da filósofa judia alemã Hanna Arendt, labor seria o tempo gasto com tudo é que para ser consumido na manutenção da vida cotidiana, que é algo fundamental, mas que pode se tornar um empecilho desde que interfira no necessário autocultivo que cada ser humano tem de ter para consigo mesmo. Autocultivo tem a ver com a ampliação de conhecimentos e experiências sobre si e sobre o mundo. Um ampliar-se infinito. Não se trata de confundir auto com egoísmo, já que todas essas experiências de e sobre o mundo podem ser realizadas em companhia. O auto se refere, neste caso, à necessidade de se manter atenção sobre a qualidade de seu modo de experimentar o mundo, inclusive, sobre como se experimenta o estar junto de cada companhia.

As quatro horas do transito se somariam, assim, às oito gastas no trabalho, para a manutenção da roda viva do capital. Somando-se ao cansaço, já que um enorme estoque de energia vital foi gasto nesse processo… Pouquíssima quantidade de tempo e qualidade, em termos de disposição humana,resta para a prática do autocultivo. Adultos sem prática de autocultivo poderiam influenciar crianças nessa direção? Que direção o Brasil tomará em termos de experiência do tempo livre? Disso também dependerá a ampliação da qualidade de nosso desempenho no tempo ocupado com o labor.

João Pessoa, 19/06/2015

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