Tecnologia Digital e a Educação: do choque à esperança – exclusivo

Aleluia Heringer Lisboa

Como transformar a escola em uma rede e o aprendizado em uma conquista? Como explorar a inteligência coletiva e alavancar a colaboração dos alunos? Como utilizar a tecnologia como aliada e envolver família e comunidades? Por fim, como possibilitar a interação e geração de conteúdo como uma experiência didática? Perguntas instigantes lançadas por Luli RadfahRer, da USP, para uma plateia de diretores, gestores/coordenadores pedagógicos e profissionais que trabalham com tecnologia em várias escolas do Brasil.

“Pedagogia do choque”, é nome que melhor define a exposição forçada e acelerada a que fomos submetidos. A fala do palestrante tinha a velocidade da própria tecnologia digital. Ouvimos sobre o presentismo do século XXI e as rápidas mudanças (exponenciais) nos comportamentos provocados por essa mesma tecnologia. Monstruosa rede de informações e de usuários, tudo na cifra dos milhões e bilhões. De onde vem a notícia que você lê? Nem sempre sabemos sua origem e a mentira é validada, a cada like, comentário ou compartilhamento.

A escola, por sua vez, por falta de critérios, repete o erro. Utilizamos “notícias” que saíram aqui e acolá, como se nome de jornal, revista ou site fosse sinônimo de imparcialidade ou credenciamento. A máquina é nossa consciência terceirizada, pois o uso de padrões de Big Data já interfere em nossos comportamentos. As estruturas de previsão reduzem as pessoas a padrões. Seus likes ou os seus acessos a sites de busca definem o seu padrão e você irá atrair conteúdos e propagandas parecidas com você. Além disso, pessoas de todos os lugares do planeta trabalham diariamente, durante horas, de graça para o Facebook, gerando e postando conteúdos.

Usuários, cada vez mais, estão mergulhados em uma distração contínua. As forças na periferia da atenção são ampliadas e o que está na sua frente é ignorado. Só essa constatação já demandaria de nós uma profunda reflexão, pois o impacto na forma de ensinar, de estudar e de aprender, é enorme. Nesse ponto, indico a leitura do livro Foco de Daniel Goleman e também Geração Superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros, de De Nicholas Carr. O estudante que está sentado em sua cadeira vem de uma cultura que louva, ensina e reforça a distração. São considerados multitarefeiros, o que é uma ilusão, pois a atenção oscila entre as tarefas demandadas. Fazem-se duas, três ou quatro coisas, contudo, malfeitas. A atenção é sempre parcial, enquanto a informação se alimenta de atenção. É preciso selecionar o que se quer lembrar e qual ideia é a mais importante. Contraditoriamente, precisamos de estudantes concentrados, postura cada vez mais difícil. Por enquanto, esse problema está, de forma cada vez mais intensa, sendo resolvido à base de Ritalina ou “Concerta”.

A atenção, que já é parcial, se vê exposta a uma sobrecarga de informação. Aumentou o número de fontes e o volume de informações por fonte. Isso poderia ser bom, entretanto, o filtro está falhando, e isso não é nada bom. Ao invés de termos pequenas porções de informação, há, segundo Luli, uma obesidade de informação. Aquela que não nos alimenta, desbalanceada e sem bons nutrientes. No mundo virtual o erro é mais bem tolerado. A visão é menos precisa e mais genérica. A cegueira se torna sistêmica. Há uma ilusão da compreensão.

Por tudo isso é que, segundo RadfahRer, a revolução, mais do que tecnológica, é cognitiva. A crise é dos sistemas ligados ao pensamento e ao conhecimento, entre eles, o sistema educacional.

No intervalo para o café, confesso que minha vontade era pedir para “descer do planeta Terra”. Descer não era possível. Fomos para o segundo momento.

Se ainda não é (ou já está sendo), tudo será social, móvel e mensurável. Por ser móvel, tudo é acessível, contextual, presente e prático. Cai por terra o envelopamento de conteúdos. Talvez, as mídias digitais, a meu ver, pelo seu modus operandi, consiga aquilo que a LDB tenta desde 1986, que é o ensino por área de conhecimento e não por disciplinas isoladas. Faz sentido.

Quando a conversa se aproxima do professor, a sensação de querer abandonar o planeta é trocada pela esperança. O professor não é mais fonte de informação, ou pelo menos a única. Então é preciso compreender o contexto. Não ter a informação não é a mesma coisa de não ter o critério. Nas sociedades indígenas, por exemplo, é o pajé ou o ancião do grupo que fornece os critérios. O jovem é que segue para a floresta, para a descoberta e aventura. Com suas observações, informações e experiência, retorna. O pajé lhe fornece os critérios, lhe faz as perguntas, manda-o de volta para observar melhor, e assim lhe dá um norte. Essa figura não desapareceu e não pode desaparecer, seja o professor, o pai, a mãe, ou o adulto da relação. Hoje, ao invés da floresta, estamos falando do mundo virtual. O problema é que a ideia que temos de aluno (aquele que não tem luz) está errada. Ele tem luz, mas está perdido. Precisa de critérios.

Com o final da tarde, senti a ausência dos professores. Não que os diretores, coordenadores pedagógicos ou os profissionais da tecnologia não deveriam estar, mas é o professor que deve se apropriar, como sujeito, da tecnologia digital e isso não acontece por decreto. O primeiro movimento, dentro da escola, não começa pela compra de equipamentos, mas sim pelo professor e suas representações. A tecnologia digital está a seu serviço e não o contrário. Não é ela que irá nos dizer o que se deve fazer. Luli sugere algumas coisas, tais como, personalizar ou ajustar o ritmo de abordagem e o formato daquilo que ensinamos. É possível compreender melhor os processos individuais e as dinâmicas de aprendizado. Poderemos alavancar a produção colaborativa, apesar dessa produção não depender, necessariamente, de tecnologia. Também fazer simulações e engajar os estudantes extraclasse.  É preciso se movimentar e, como uma criança curiosa e que explora o seu mundo, precisamos fazer ensaios, tentar e ousar. Se até então a postura da escola era de “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem saber”, isso agora não é mais possível. Se é verdade que a tecnologia abre “janelas de oportunidades”, deve-se, dentre essas janelas, abrir também aquela que nos permita compreender melhor a sociedade, o indivíduo e a educação que temos e queremos.

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