Sobre a escolarização sem aprendizagem, o aprofundamento da desigualdade social e os assuntos proibidos

Raquel Speck

Este ano o Banco Mundial publicou o Informe sobre o desenvolvimento mundial 2018, cujo tema central é a crise da aprendizagem verificada em diferentes sistemas educacionais pelo mundo. A premissa essencial do documento é a de que escolarização não é o mesmo que aprendizagem.

Citando as dificuldades de leitura, escrita e matemática dos alunos de países como Quênia, Tanzânia, Uganda, Índia e Uruguai, o documento chega ao Brasil com a revelação chocante de que, embora nossas taxas de aprendizagem tenham melhorado nos últimos quinze anos, ainda assim necessitaremos de mais 75 anos para alcançar, em matemática, a mesma pontuação que os países ricos. Já na leitura serão necessários ainda 260 anos para chegarmos no mesmo nível. Nos países citados acima, assim como em muitos outros, os resultados de aprendizagem são quase sempre muito piores entre a população de baixa renda.

Segundo o documento, muitos alunos frequentam a escola regularmente e mesmo assim não têm as habilidades necessárias para calcular corretamente o troco, ler as instruções do médico, interpretar programas eleitorais e muito menos para desenvolver uma carreira gratificante ou educar seus filhos.

Todos estas informações, embora exponham dados alarmantes, não são totalmente novidade. Sabemos que em nosso país a educação nunca recebeu a prioridade devida, e somos constantemente apresentados à dura e aviltante realidade educacional nacional, quando são divulgados os resultados sempre deprimentes da Prova Brasil, do Enem, do Pisa, entre outros números, taxas e dados que se repetem ano após ano.

Vivenciamos um sistema educacional vergonhosamente excludente, onde justamente aqueles mais pobres, os filhos dos trabalhadores e dos marginalizados socialmente, são os maiores prejudicados pelas falhas de um sistema que não consegue promover a aprendizagem. Vivemos um fenômeno crônico e circular de escolarização sem aprendizagem. Vivemos uma crise de aprendizagem, que denota também uma crise moral de nossa sociedade, onde a preocupação e a prioridade para com a educação tornaram-se muito mais retóricas do que prática, muito mais demagogia de palanque do que ação política concreta.

Promover a aprendizagem para todos tem sido um objetivo amplamente declarado por nossos representantes políticos, contudo, não é difícil perceber que, de fato, isto não vem ocorrendo. Quando se analisam questões como financiamento, gestão pública, formação e valorização docente, infraestrutura das escolas, entre outras ações que poderiam indicar uma verdadeira preocupação com o assunto, observamos que as mesmas estão muito aquém do necessário. A descontinuidade de programas e políticas educacionais alinhadas com o objetivo de elevar a qualidade da nossa educação pública têm dificultado a reversão deste quadro.

A crise de aprendizagem amplia a desigualdade social, pois impede o acesso ao conhecimento e restringe as possibilidades no nível social, relativas à emprego e renda, acesso à informação, saúde, dentre outras. Esta é uma realidade lamentável em nosso país, que deveria inquietar, incomodar, mobilizar. Porém, pelo contrário, falar sobre a desigualdade social, sobre a política e os políticos obtusos de nosso país, sobre o quanto as camadas menos favorecidas vêm sendo penalizadas pela falta de investimento nos serviços públicos, sobre os motivos de uma educação mais que precária, entre outros, estão para entrar na lista dos assuntos proibidos nas escola. Afinal de contas, para que tocar em questões assim, que em nada tem a ver com a educação? Na verdade, Paulo Freire estava correto quando afirmava que seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvam uma forma de educação que proporcione às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de maneira crítica”.

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