Grito Dos Excluídos. Foto Elineudo Meira

Setes de Setembro

Maria G. Lara
Vanessa Macedo

Sete de setembro é dia de ruas ocupadas, todos os anos, no país todo. Desde 1949 a data é feriado nacional, em comemoração à Independência de Brasil de Portugal. De norte a sul do Brasil as comemorações são marcadas por grandes desfiles militares, com soldados marchando e centenas de viaturas soando suas sirenes de uma vez.

Com uma história mais recente, o Sete de Setembro também é o dia em que culminam as manifestações do Grito dos Excluídos. De romarias a seminários, de feiras a passeatas, o Grito ocupa os espaços públicos em defesa dos que são marginalizados pela sociedade. O movimento surgiu em 1995 com o lema “A Vida em primeiro lugar”. Este ano, o mote das manifestações foi “Este sistema não vale”.

Não é difícil deduzir que as duas coisas atraem públicos distintos desde que passaram a coexistir. De um lado, um espírito grato ao militarismo brasileiro, saudando as forças armadas enquanto as observa passar – aqui, temos famílias com seus filhos, apontando para as viaturas e os incentivando a bater palmas. Do outro, um espírito de luta incessante, mais preocupado com as mazelas que atingem os excluídos desse país do que em reverenciar a manifestação da força bruta do estado – aqui, também, temos famílias, com seus filhos nos ombros batendo palmas pra acompanhar alguma bateria por ali.

Parada de 7 de Setembro. Foto: Vanessa Macêdo

Apesar das diferenças – gritantes, pra dizer o mínimo – não se pode negar a maior das semelhanças: como as massivas ocupações do espaço público que são, ambas são grandes espaços de educação. No último sete de setembro, nós duas nos perdemos a caminho do Grito. O centro de Belo Horizonte guarda armadilhas para quem ainda não domina a geografia da cidade. A caminho do viaduto Santa Tereza, uma entrada errada nos levou para o lado de lá da Avenida Afonso Pena, seccionada pelo desfile militar. Em um primeiro momento, o que parecia ser uma opção equivocada de caminho se transformou na impossibilidade de alcançar o nosso destino final. O desfile militar se estendeu da Praça Sete até a Praça Tiradentes, mas a circulação de carros, viaturas, tanques, botes, caminhões impediram a circulação de pessoas na avenida e em vias adjacentes.

A sensação que nos tomou a princípio foi de distanciamento, uma vez que havíamos apenas errado um caminho e em pouco tempo retomaríamos o nosso rumo. Entretanto, ao percebermos a impossibilidade de atravessar a avenida, as cenas de aplausos a equipamentos de uso de força militar e policial não passaram despercebidas. Entre os minutos que nos distanciavam cada vez mais da manifestação, fomos percebendo os resquícios autoritários que assombram a nossa história. Pessoas tão próximas a nós que são absolutamente capazes de levar suas crianças para aplaudir um veículo Chevrolet Veraneio, característico de período da ditadura militar brasileira, ou ainda, um veículo da Rotam, envolvida em casos recentes de tortura.

Essas distâncias e aproximações entre duas manifestações públicas, são diferenças próximas e ao mesmo tempo polarizadas do nosso atual cenário político. Um cenário que concilia aplausos de pais e suas crianças a veículos que representam terror para crianças negras nas favelas.

Com uma das principais avenidas de Belo Horizonte – que também era a principal via de acesso para a concentração do Grito dos Excluídos – bloqueada para esse desfile, quanto mais andávamos mais víamos fardas e viaturas e mãozinhas de criança segurando cataventos verde-amarelos. Ficamos meio presas, com as forças armadas e a grande família tradicional brasileira entre nós e o nosso destino. A distância entre o ponto em que nos perdemos e onde queríamos estar mal somava 100, 200 metros.

Grito dos Excluídos. Foto: Maria G.Lara

Finalmente conseguimos refazer nosso caminho e chegar à concentração do Grito dos Excluídos. Faixas de toda cor, camisetas com palavras de ordem e baterias estavam dispostas, organizadas em grupos ou não, sob o Viaduto. Tinha criança ali também. Com suas mães, seus pais, seus amigos. Como na Avenida Afonso Pena, sob o Viaduto Santa Tereza as crianças – munidas de cartazes e tinta no rosto – também estavam aprendendo. Se os aplausos aos camburões refletem a parte da nossa população de aprova nossos governantes militaristas e desumanos, os gritos daqui são a expressão da parcela atacada e vandalizada pela ideologia daqueles.

A rua é sempre um espaço de trocas, mas em poucas ocasiões poderíamos observar, de forma tão intensa, duas educações tão distintas ocorrendo ao mesmo tempo, com apenas umas poucas centenas de metros entre elas. A rua, ocupada, mobiliza. Mobilizou aqueles que consideravam importante reforçar o mote contra nossos líderes políticos e o repúdio aos crimes ambientais da história recente. Mobilizou também quem achava prioritário aplaudir a PM, o exército, a tropa de choque. E claro, toda a gente queria passar seus próprios motivos pra se mobilizar pra gerações futuras, na esperança de manter ou mudar as coisas que lhes importam.

O sete de setembro é uma data poderosa, ainda mais poderosa desde 95. O choque de pautas de vimos no centro de Belo Horizonte também é poderoso, cada dia mais poderoso – e ultrapassa as barreiras temporais do nosso feriado da Independência. O militarismo segue sendo defendido por uma certa porção da população, que segue educando suas crianças pra que o mesmo seja feito no futuro, o ano inteiro. E nós seguimos de cá, do Viaduto mas também de todo canto, gritando como e pelos excluídos. O ano inteiro. No próximo sete de setembro e nos dias até lá, talvez seja útil nos lembrarmos disso: a rua ocupada educa.


Imagem de destaque: Elineudo Meira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *