Que a escola fale pela escola – exclusivo

Aleluia Heringer Lisboa

Causa-nos estranheza saber que um dia, por conta do Decreto Federal n.6.947 de 08 de maio de 1908, o Tiro de Guerra e Exercícios Militares se tornaram obrigatórios no Ensino Secundário do Brasil. A interferência da instituição militar no ensino e na própria definição do currículo era marcante e o discurso que prevalecia era fazer “de cada aluno um soldado”. Não menos importante foi a interferência dos médicos, principalmente os higienistas, que apostavam no poder regenerador da educação. Uma escola boa e séria não poderia prescindir da presença do médico. Dito isso do passado, ainda é possível identificar, no presente, a interferência de outras instituições no processo escolar. Essas trazem para o seu interior, os seus códigos, conceitos, modos de resolver os problemas que acabam por imprimir, no ambiente escolar, pressão e tensão.

A judicialização da educação é um exemplo. As “pequenas causas” típicas do ambiente escolar que outrora eram resolvidas com uma paciente costura de diálogos que buscavam estabelecer pontes de reconciliação, hoje são processos encaminhados que não podem esperar e passam para as mãos dos advogados, quando não, pela via policial. Sutil e perigoso é esse movimento de ocupar o lugar do educador que tem nas experiências e rotinas da escola a matéria-prima e a rica oportunidade para ensinar.

Nesses momentos de conflito com um colega ou professor é que podemos falar de valores e das limitações de uma vida em comunidade. No dia a dia escolar não são poucas as vezes que um e-mail ou um atendimento inicia ou termina, anunciando que quem fala é um advogado, juiz ou alguém do ramo. Sempre há alguma ameaça implícita de que “se não for feito isso ou aquilo tomaremos as medidas cabíveis”, ou explicita: “vou entrar com uma ação”! Há que se pensar o quanto esse procedimento esvazia a função da educação!

Outra interferência é a que produz a patologização da educação. Tudo é tratado como doença. Aquilo que se acomodava no coletivo ou que era combinado entre a família e a escola, nem sempre é visto como possível solução para os problemas postos. Quantos de nós não tivemos que nos ver com nossas limitações e buscamos alternativas de sobrevivência. Agora não. Há um jeito específico e especial de encaminhar. A escola faz o que determina os laudos; as recomendações de vários especialistas que os acompanham o aluno. Um novo vocabulário advindo da psicologia, fonoaudiologia, neurologia, etc. invadem a escola e renomeiam os processos pedagógicos e introduzem novas e longas recomendações. A deficiência é reparada antes mesmo de ser sentida. Importante lembrar que o nosso organismo desenvolve alguns sentidos quando outros lhe faltam. Não há lugar melhor para nos darmos conta de nossas fragilidades do que a escola. Obviamente não é fornecendo muletas, próteses, bengalas, atalhos, reais ou mentais, que iremos ajudar as crianças e os jovens.

Admitimos ser fantástico tudo aquilo que conquistamos em termos de elucidações e entendimentos advindos dessas áreas. Quantas boas parceiras são feitas! Entretanto, referimo-nos aos excessos e `a assepsia geral de alguns procedimentos que “passam álcool” na vida, como se fosse possível ter controle total da situação. O que questionamos são as imposições que desconsideram a visão multidisciplinar e a percepção daquele que está dentro da escola com o estudante.

É preciso considerar que, em geral, as gestões escolares – pelo menos nas instituições sérias e respeitáveis – têm como elemento regulador um Projeto Político Pedagógico (PPP), e que este advém das normatizações ou ordenamentos legais para a educação. Logo, é preciso que a sociedade reconheça o poder dessas regulações, assumindo um papel de parceira da escola, compartilhando as responsabilidades ao invés de simplesmente rechaçar as suas determinações e condutas.

Se a escola seguir nesse ritmo de assujeitamento e interferência daqueles que estão fora dela, corre um sério risco de perder a sua essência como espaço formativo. A esfera pessoal não pode se sobrepor à esfera coletiva, pelo menos na escola, espaço coletivo por natureza.

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