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Rio São Francisco

Quando se cai na tentAÇÃO em tempos de pandemia: uma conversa entre pai e filho

Marcelo Silva de Souza Ribeiro

Peço licença aos leitores para trazer algo mais informal a respeito da relação entre pais e filhos em tempos de pandemia e isolamento social. Imagino, a despeito do tom pessoal, que este registro possa dizer algo às pessoas e provocar reflexões referentes às experiências que vivemos.

Após suspensão das aulas na universidade, meu filho mais velho voltou a morar conosco. Três meses se passaram num monótono quotidiano marcado pela sensação de improdutividade aliada ao baixo astral. Essa situação teve seu ápice quando meu varão soube que o semestre letivo estaria cancelado e que só em 2021 haveria alguma perspectiva. Isso o atingiu fortemente de modo que sua expressão revelava uma possível reincidência da depressão.

Como de costume, acordei as 5h e disse que iria caminhar (com as devidas proteções e considerando a liberação municipal para esse tipo de atividade). Surpreendentemente, ele disse que iria comigo. Na hora pensei que poderia ser uma ótima oportunidade para ter uma boa conversa entre pai e filho.

No início da nossa caminhada curtimos um bom silencio. Apreciávamos o raiar do dia, alguns cantos dos pássaros, o cheiro das plantas e a presença exuberante do Velho Chico. Estávamos na orla de uma cidade ribeirinha do Rio São Francisco. Caminhávamos e simplesmente nos ouvíamos sem nada a dizer.

No caminhar, eu lembrei de um grande amigo, psicólogo e professor, Afonso Henrique Fonseca (que veio falecer um dia depois dessa caminhada). O mestre falava o quanto era importante a “tentação”… Foi aí que disse algumas coisas para meu filho:

– A vida engendra ações e a gente tenta, a gente lança ações, a gente tenta ações. A tentação é também uma pulsão, um movimento eruptivo. A tentação é o movimento de lançar ações, embarcar nas ações e arriscar nelas e com elas. A vida é a tentação de engendrar ações, de possibilidades, das potências de possibilidades e tentação no sentido de ações que são lançadas para o mundo, que ganham o mundo e que se arriscam nos desdobramentos de suas próprias ações.

– A vida é uma tentação porque é arriscada. Há sempre um risco na tentação, mas não se arriscar para morrer, mas é o arriscar para viver. O risco diz respeito ao lançar-se, como aventureiros que se lançam, como os piratas que se lançavam ao oceano embarcando em suas aventuras, suas odisseias. O arriscar enquanto tentar, enquanto tentar – ação, enquanto embarcar na ação porque esta é uma tentação, porque mobiliza a ação, mobiliza-ação. A tentação é um arriscar, é um risco porque é uma aproximação da força, de uma potência, de um poder vir do que não se sabe do que vem. É um arriscar. A vida é um risco “porque só se dá para quem se deu” (Como diz o poeta – Toquinho e Vinícius). É uma tentação porque é tentar, é um dar-se e ao dar-se a vida atualiza sempre novas forças, “a vida dá para quem se deu”.

A conversa seguiu com o caminhar num jogo do escutar e falar. Ele entendeu que existem coisas que a gente não pode fazer muito, mas há coisas na vida que a gente pode atuar e que é importante arriscar, tentar algumas coisas. Meu filho também falou coisas dele que me ajudaram a me entender como pai. Um pai que é pai porque precisa de um filho para isso e que ambos aprendem no risco da relação que não se sabe como será, mas que se quer arriscar porque a vida pode ser bonita. Uma tentação de relação.

Falei dos meus medos, das minhas fraquezas… Ele nada disse. Talvez tenha sido mais sábio do que eu.  Voltamos para casa com a sensação de que toda essa pandemia e isolamento social são difíceis para as pessoas, mas que há coisas que podemos fazer por a gente, pelo outro e também para o mundo. Acho que tudo isso começa quando nos propormos cair na tentação de tentar, de arriscar, de embarcar numa ação genuína, em uma ação que seja, por exemplo, uma boa conversa entre pai e filho.


Imagem de destaque: Rio São Francisco. Foto: Marcelo Ribeiro

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