Evelyn Orlando – Quando O Confessional Invade O Poder Público E A Moralização Dos Costumes é A Principal Agenda Do Governo

Quando o confessional invade o poder público e a moralização dos costumes é a principal agenda do governo

Evelyn de Almeida Orlando

Quando a ilustração de um beijo ganha estatuto de perigo iminente, a ponto de o prefeito de uma cidade mobilizar o aparato do Estado para combater essa ameaça sob o argumento de que está “protegendo as crianças”, devemos nos perguntar, não sem temor, para onde estamos caminhando?

Como historiadora da educação, folgo em não ter essa resposta, uma vez que não faz parte do ofício perscrutar o futuro. Mas, como indivíduo de uma sociedade que está vendo a cada dia as poucas conquistas sociais se perderem, visualizo um horizonte temeroso, endossado por boa parte de uma sociedade que parece querer, de fato, o obscurantismo.

O escândalo que um beijo causou nos setores mais conservadores da sociedade, em pleno século XXI, e que culminou na decisão do prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, de mandar recolher os exemplares da HQ “Vingadores: A cruzada das crianças”, na Bienal do Livro de 2019, evidencia o fundamentalismo religioso que hoje orienta a agenda pública no Brasil.  A decisão nos leva a questionar quais os perigos de um beijo? Qual o sentido do silenciamento desse beijo? Do que trata o argumento da proteção infantil? Proteger de que?

O fundamentalismo religioso que exclui, fere e que mata nada tem de cristão. A indignação dos bastiões da moral e dos bons costumes não se deu em função de um beijo ilustrado, mas da abordagem natural de um relacionamento afetivo entre dois meninos. O ataque tem endereço certo e significa um ato de homofobia explícita. É lamentável que esse tipo de atitude encontre eco na sociedade, é lamentável que as pessoas se mobilizem e se incomodem tanto com uma questão moral e tão pouco com um problema social de fato.

A intolerância tem efeitos catastróficos e vemos isso cotidianamente nas estatísticas. O Brasil é um dos países que mais mata LGBTQ+, especialmente homens. Há décadas se luta para mudar essa realidade e pouco avançamos. A cultura do ódio e do desprezo por esse grupo social parece crescer no Brasil, alimentada de um moralismo religioso que a justifica como um combate a algo que “não é de Deus”.

Como a maior parte das lideranças que assume a linha de frente desse discurso é composta de homens que se enriquecem abertamente à custa da fragilidade humana, fico me perguntando que moral é essa que regula a sociedade e que incide diretamente sobre os corpos e sobre as sexualidades, mas não incide sobre valores como justiça social, diminuição das desigualdades, dignidade humana, valorização da vida, dentre outros voltados para o bem-estar da população, de fato. Essa deveria ser inclusive, a pauta do Estado, manifestada em políticas públicas que visassem assegurar a equidade social. Mas, quando o confessional assume o poder público, assume também a sua agenda.

A moralização dos costumes, como dispositivo de controle das Igrejas, é uma estratégia antiga, utilizada na disputa pelo campo político. O conservadorismo alimentado por uma tradição histórica e cultural que se define, em larga medida, na relação com o religioso, ganha novos contornos e assume uma feição perversa de destruição de tudo aquilo que se opõe as suas normas e modelos. A apologia à destruição e os ataques em massa aos opositores dessa lógica insana, dentre eles os homossexuais, cujo único crime que cometeram foi exercitar seu direito de existir como são e não como gostariam que fossem, vem se ampliando com fôlego, fundamentados e legitimados em lideranças que, sob o manto religioso, define quem deve existir e quem deve ser expurgado da sociedade. Se por si só essa situação já é ruim o bastante, pensar que essa é a realidade atual do poder público no Brasil causa certo terror.

Como superar essa realidade que se forma amparada por uma cultura religiosa e que possui raízes mais profundas do que imaginamos? Qual o tamanho dos monstros que nos aterrorizam? É preciso conhecê-los para enfrentá-los, para derrotá-los e avançarmos de maneira efetiva para outra história, menos feia, menos violenta, menos perversa, menos falsa.

O beijo gay traz à luz um modo de ser proibido, uma existência negada, uma vida que pulsa para ser vivida lutando contra um mundo que insiste em querer apagá-la. É preciso pensarmos no sentido dessa crueldade. Quem define quem deve viver e como? O que dá a alguém o direito de definir a vida de outrem?

Infelizmente, não podemos dizer que o confessional invadiu o público. Ele não invadiu. Ele foi posto lá. Ele reflete o sentimento de praticamente dois terços da população que ao eleger um bispo fundamentalista para prefeito de uma cidade, não apenas endossou sua agenda como viu nele a expressão dos seus anseios.

A censura a livros que abordam os múltiplos modos de existir e amar fomenta a ignorância, o preconceito e a violência que há tanto buscamos extirpar de nossa cultura e sociedade. Os livros, e quem os proíbe sabe disso, não vão tornar um menino homossexual por ter visto uma imagem de um beijo, mas eles podem, sim, contribuir para libertar o pensamento, desconstruir o estranhamento, naturalizar outras realidades e experiências silenciadas, negadas, invisibilizadas, eles podem ampliar a compreensão do mundo, por outras lentes.

A censura é um interdito, uma prática autoritária que visa impor uma única visão do mundo. Os livros sempre foram alvo privilegiado de governos autoritários e grupos fundamentalistas, os quais pelo controle da leitura esperam controlar as mentes, tornando-as cativas sob uma determinada orientação pedagógica. Os censores entendem que assim como os livros podem ser excelentes auxiliadores na modelação de hábitos e comportamentos, na regulação das condutas e moralização dos costumes, também podem incitar à subversão, à transgressão e levar os leitores a olhar o mundo sob outras perspectivas. Esse é o seu maior medo, por isso usam todas as suas armas na produção de mentes cativas.

Talvez seja hora de investirmos com mais vigor em práticas libertárias. Assim, quem sabe, possamos sonhar junto com o poeta que “amanhã, vai ser outro dia…”.


Imagem de destaque: Marvel Comics/Reprodução

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