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Página De Um Mangá – Miika Laaksonen   Unsplash

Quando aprendi a ler

Raphael Ribeiro Machado

Sou um leitor contínuo de histórias em quadrinhos. Esse hábito surgiu enquanto ainda cursava a graduação em história na UFOP em Mariana. Na república, meus colegas apresentaram algumas revistas e graphic novels. Como eu cresci lendo Turma da Mônica e outros gibis desconhecia por completo o universo desta literatura. Na verdade, pouco havia lido de qualquer coisa. Em bairro operário dificilmente existe biblioteca e/ou livros. Poucos também nas casas dos amigos e na minha casa. O que tinha eu li. Aquelas coleções de adaptações de clássicos. As cores e as capas ainda habitam a memória. E o cheiro das páginas… Foi o que li na juventude.

Aos 20 anos fui iniciado neste universo dos quadrinhos. Um leitor apaixonado por esse estilo que consegue narrar histórias por meio de desenhos e textos em sequência, a chamada “arte sequencial”. Em Mariana eu conheci Bob Crumb, Harvey Pekar, Frank Miller, Alan Moore, Grant Morrison e muitos outros, em especial, Neil Gaiman. Sandman, sua obra mais premiada e conhecida, foi “devorada” a conta gotas. O que não durou muito. Todos estes autores de renome dos quadrinhos foram lidos por digitalizações que amigos emprestavam junto de seus computadores ou do uso do Laboratório de Ciências da Computação, o LCC do ICHS-UFOP.

Em 2006, como é ainda hoje, ter um computador pessoal não era muito barato. Líamos às vezes sozinhos ou em grupo, sempre por meio de torrents. Baixávamos de páginas e blogs de leitores que adquiriam os quadrinhos em inglês e traduziam os balões para o português, ou ainda por meio de digitalização das versões brasileiras destes trabalhos de artes seqüenciais, principalmente britânicos e norte-americanos. O acesso aos quadrinhos impressos também não era barato (assim como ainda não o é).

Ao longo dos anos, após a formatura e o (re)início da vida profissional, eu não resisti e comprei alguns destes objetos de sedução que encontrava em prateleiras de livrarias, sempre ao fundo e despretensiosamente apresentados (antes do sucesso das adaptações cinematográficas das obras da Marvel e da DC Comics). Ganharam posição de destaque nas minhas prateleiras junto aos livros de Eric Hobsbawm, E. P. Thompson, Roger Chartier e outros historiadores que li nas impressões em fotocópias durante a graduação e que agora eu poderia possuir, aos poucos. Apesar de não ser fruto do mesmo universo de escrita desempenharam sobre minha formação uma enorme força.

A relação estabelecida entre o desenho e o texto, a forma como cada projeto gráfico era pensado e produzido definia uma possível leitura deste conjunto de formas de expressar ideias, cores, expressões textuais e físicas dos personagens. Tudo é milimetricamente exposto para que o projeto concebido seja consumido e entendido em sua proposta. Claro, o leitor pode estabelecer a ruptura e ler da forma que lhe for possível, sempre a partir de suas próprias condições e referências de vida e de leitura.

Visto isso, ler os quadrinhos no computador não é a mesma coisa que ler na forma impressa. O objeto em minhas mãos trazia incutido a relação da matéria com a sensibilidade. Ainda hoje as lembranças das leituras nos anos universitários se apresentam quando toco os quadrinhos que possuo em minha casa. Porém, a leitura de hoje torna-se outra, seja pela minha condição humana também modificada pelas relações localizadas no tempo e no espaço, ou pela própria forma de ler ser possibilitada em outro suporte.

Essa relação indica a necessidade de nos atentarmos para as distintas formas de dar a ler determinados tipos textuais. Quando na universidade tomamos os textos fotocopiados e muitas vezes retirados de seu corpo original (o livro ou a revista), onde outros textos se apresentam e fazem sentido à sua reunião naquele objeto, oferecemos ao leitor uma possibilidade de leitura distinta de sua condição original. Sem questionar o valor em termos de melhor ou pior, o que digo é que importa, e muito, a forma como o texto é pensado e posto a circular em sua materialidade. Ela também é parte de sua textualidade e define as formas de ler e, posteriormente, de escrever sobre aquilo que seu discurso se apresentava.

Porém, sob a pena de não se poder oferecer nenhuma leitura, visto que as bibliotecas dispõem de poucos exemplares ou nenhum de determinadas obras, a fotocópia tornou-se potencializadora da democratização do acesso ao discurso, que teima em ser posto em circulação, e a espera do leitor que, em muitos casos, não consegue consumir.

Hoje, o uso do texto em pdf atua nesta direção. O mesmo pode ser pensando sobre os torrents de filmes, álbuns musicais e quadrinhos que citei no início deste texto. Pensar que o acesso à leitura por meio dessa desmantelada circulação dos impressos e objetos de diversas artes patrocinou a inclusão à cultura de muitos como eu é pensar que a cultura é para poucos. A cultura vista aqui como aquela que é produzida sob moldes tomados como universais e circulam para efetivar tal modelo. Ler os “piratas” era romper a exclusão. Revolucionário!

Acessar a esses não era fácil e ainda não é. Por isso meus quadrinhos e livros estão guardados como símbolos de resistência que teimam em querer saber o que “eles” liam e escreviam, e como troféus, representações do esforço pessoal e coletivo, nosso, das classes subalternizadas, de ascender ao poderio da leitura e da escrita. Por isso Neil Gaiman e E. P. Thompson estão guardados dentro de plásticos intocados e somente abertos em determinados momentos. Totens da passagem da ignorância para o esclarecimento (permita-me esta pequena arrogância na escrita!).

Para “jogar um pouco de luz” fui adquirindo alguns quadrinhos para circularem entre meus alunos a fim de oferecer-lhes aquilo que me foi oferecido: uma imagem de ruptura do domínio intelectual ao qual eu estava excluído de participação; um primeiro acesso ao universo cultural letrado, por meio de um suporte que lhes é bem próximo da leitura do texto e da imagem em conjunto. Quadrinhos que poderiam contribuir para a formação da vida de qualquer pessoa: Maus, As Barbas do Imperador, O Árabe do Futuro, Modotti, Persepólis, circularam e retornaram para as minhas mãos nos últimos quatro anos. Por meio deles muitos acessaram pela primeira vez uma leitura que não era a escolar, ou melhor, um impresso que não foram obrigados a ler. A leitura era livre e a discussão sobre ele também. Nada imposto. Apenas um momento de apreciação do objeto, do texto, da imagem quando, onde e se o aluno quisesse. E quiseram.

Os textos me fizeram enquanto ser, e eu os faço enquanto leitura ser passado/presente. Símbolos de uma sociedade que pouco potencializa seus sujeitos ao acesso à transformação social por meio das capacidades imagéticas e inventivas. Tal como o grafite é posto a ser lido nas paredes das cidades, admirados pelos temas incutidos em suas cores e nos formatos de seus traços naqueles locais e, por ali costumeiramente devem continuar, os discursos devem ser lidos, se possível, em seus objetos originalmente concebidos, a partir da vontade, necessidade e experiência de cada um. Porém, quando o acesso a potencialidade de consumo é mínimo, o importante é que ele seja oferecido à leitura, independente do formato. O que importa, ao fim, é a conclusão de sua condição de existência: a troca entre o produtor e o leitor. A produção da sociedade por meio da escrita e da leitura. A valorização daquilo que o ser humano produziu enquanto bem material.

Alice me deu um novo quadrinho no mês passado. Nele revivi o passado. Guardei na estante junto de minhas recordações e (me)fiz leitura e este texto.


Imagem de destaque: Miika Laaksonen / Unsplash

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