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Professora, mas é que eu vi um Youtuber

Kelly Morato

“Professora, mas é que eu vi um Youtuber…”. Mais vezes do que eu pude contar nos dedos das mãos, deparei-me com tal frase vinda de alunos e alunas. Não é possível medir a força com a qual as novas tecnologias e novas mídias conquistaram espaços. Aqui, falo sobre um dos vários nuances de tal inserção em sala de aula: portando seus enormes smartphones, os estudantes sempre trazem em suas narrativas, conhecimentos advindos do contato com Youtubers ou conteúdos acessados online.

Eu, que não tenho lá uma grande diferença de idade com a maior parte dos meus alunos e alunas, confesso ter demorado um tempo para compreender como e porque as informações passadas por um estranho, a partir dos pixels da tela, chegam tão fortemente para os estudantes, e se fazem tão presentes na sala de aula, em suas redações, exercícios e argumentos de maneira geral. Mais do que isso, demorei um bom tempo para me livrar do preconceito em relação ao conteúdo produzido, refutando e questionando as informações, sem ao menos conhecer. E foi então que eu percebi o óbvio: eu deveria acessar o conteúdo antes de julgá-lo. Não sem algum esforço, e muito a partir das discussões teóricas propostas a partir de uma disciplina que cursava na Universidade, me propus a conhecer aqueles canais e aquelas pessoas de quem os estudantes se sentiam tão próximos.

A partir das indicações dos jovens – dou aula em cursinhos pré-vestibulares, onde a faixa etária transita entre 17 e 19 anos, aproximadamente -, comecei minha incursão nos canais que tratavam das áreas do meu interesse, a saber, História, Filosofia e Sociologia. Meu pseudotrabalho investigativo partia das seguintes perguntas: “Por que o conteúdo online é interessante?”; “O que faz do conteúdo acessível?”; “Quais os motivos do sucesso desses vídeos?”; “Como e porque esses Youtubers exercem tanta influência sob os estudantes?”. A partir dessas indagações, que, apesar de rasas não são tão simples de serem respondidas, fui desenhando algumas hipóteses. Adianto que não consegui aquelas que seriam as respostas certeiras para minhas dúvidas, e nem sei se elas existem. Mas o que proponho aqui é dividir com vocês, estimado(as) leitores(as), um ensaio, um pensamento em voz alta, uma chuva de ideias que me fizeram e fazem refletir sobre minha prática docente – praticamente recém iniciada –.

O que mais chamou atenção em minha pitoresca incursão online foi a objetividade. Ora, é muito mais interessante entender sobre disciplinas tão teóricas – e que, se não bem trabalhadas, soam distantes das realidades e do cotidiano dos educandos – em pouco tempo. Para quê cinquenta minutos de aulas, se o mesmo conteúdo pode ser explicado em dez, quinze? Num contexto onde a temporalidade é sentida de maneira acelerada, como bem sugerem as reflexões do historiador Rodrigo Turin¹, consumir o máximo desejado no mínimo possível soa como uma estratégia que contempla os alunos e parece caber bem no currículo escolar que estabelece a abordagem de tantos conteúdos em tão pouco tempo, transformando docentes e discentes em verdadeiros malabaristas.

Outro aspecto que me apontou possíveis desenlaces para as minhas inquietações foi a questão do formato. As infinitas possibilidades que um vídeo traz consigo a partir da edição, passando principalmente pelas variadas formas de linguagens, faz a cabeça (e com razão!) de qualquer pessoa que deseja aprender algo. A começar pela maneira moderna e descolada como os autores dos vídeos dirigem-se aos espectadores: há sempre um bordão ou uma gíria que cria um espectro de proximidade entre os interlocutores. Se, por um lado, o youtuber começa sua “aula” com um papo legal e uma música animada, nós, no chão da sala de aula, adentramos as portas, muitas das vezes, não por escolha, mas por necessidade, pedindo por silêncio, tranquilidade e uma mínima organização para que seja possível dar início a nossas aulas.

Em vinte minutos de vídeo, todo o desenrolar da Primeira Guerra Mundial é narrado, e dezenas de imagens e fontes saltam aos olhos do espectador. Muito mais dinâmico e instigante do que podem oferecer muitos dos nossos livros escolares, segundo os alunos e alunas.  

Ainda que, até aqui, minhas hipóteses e minhas leituras possam parecer um tanto pessimistas, não é aí que eu desejo chegar. Lançar esse olhar sob as produções que meus alunos consomem me fez refletir sobre onde a minha prática docente deve mirar. A primeira, e talvez a mais certeira resposta que eu cheguei, é que a prática docente precisa focar o debate. A partir das minhas inspirações políticas e sociais, sempre elaborei estratégias de educar também para a ação, para o olhar local; da realidade do aluno, da família, do bairro, das instituições e das paisagens que os cercam. Mas eu não havia percebido o meu não diálogo com outros nuances importantes para os educandos, e que perpassavam, diretamente, a construção do conhecimento douto. Refutar, sem nem mesmo conhecer o trabalho dos Youtubers, me fez perder um tempo valioso. Ao invés de combatê-los, foi e tem sido muito mais frutífero debater e somar minha voz à deles.

Os vídeos, que quase nunca passam os vinte e poucos minutos, são produzidos a fim de dar conta de explicar e elencar todos os acontecimentos de um evento. E ora, isso não é possível. E ainda que fosse, eles não conseguem chegar em um aspecto primordial: a formação e leitura crítica, política e social daquilo que é abordado. A objetividade da narrativa no Youtube chega ao limite, produzindo e construindo um conhecimento conteudista e pouco preocupado com as aplicações e implicações na vida dos sujeitos. E é principalmente a partir disso que me convenço de que ainda não é possível a construção de uma educação comprometida com a real e integral formação dos sujeitos sem ter quadro, pincel e cuspe como testemunhas.

Entender os não ditos, trabalhar a partir destes e elaborar aulas e práticas que não só reproduzam as matérias constituem a chave que falta nas novas mídias e que nós, em sala de aula, podemos materializar. E, indo mais além, percebendo tais furos nas práticas que estão postas e tem sido consumidas pelos nossos estudantes, por que não pensarmos em ocupar esses lugares? Nos lançarmos ao mundo online, experimentarmos e reinventarmos as práticas possíveis? Assim poderemos mirar a educação de maneira comprometida com os nuances necessários para o alcance de bons resultados.

Recentemente, me movimentei nesse sentido, mobilizando outra linguagem, mas dentro das novas mídias. Junto de duas parceiras, também professoras e pesquisadoras, me lancei na podosfera, comprometendo-me com a divulgação do conhecimento científico de maneira acessível, mas, nem por isso, rasa. O retorno, em sala de aula, foi melhor do que eu imaginei. Muitas foram as questões que, a partir do Podcast, e da audiência dos meus alunos, pude abordar em sala de aula, de maneira mais crítica e complexa, e vice-versa. Como que se retroalimentando, os dois espaços me instigaram e tencionaram, fazendo de mim uma professora mais atenta aos meus processos de mediação.


¹ Acerca das reflexões sobre a aceleração do tempo no Brasil contemporâneo, ver: TURIN, R. (2017). A polifonia do tempo: ficção, trauma e aceleração no Brasil contemporâneo. Artcultura19(35). https://doi.org/10.14393/ArtC-V19n35-2017-2-05

Imagem de destaque: Gerd Altmann / Pixabay

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