Roberto Rafael Dias Da Silva – BNCC

Problematizações curriculares II – os projetos de vida

Roberto Rafael Dias da Silva

Em uma análise atenta da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), um dos conceitos que entraram em evidência foram aqueles vinculados aos projetos de vida. Delineia-se uma preocupação em criar espaços formativos que favoreçam aos estudantes a valorização de seus interesses e perspectivas para o futuro, bem como com o foco no mundo do trabalho, na cidadania e na compreensão da vida contemporânea. Em sintonia com este conceito, as redes de ensino (públicas e privadas) iniciaram inúmeras atividades direcionadas para a construção de projetos de vida, adquirindo modelos variados como laboratórios, projetos, oficinas, disciplinas ou mesmo práticas curriculares transversais. Em comum a estas iniciativas encontramos a preocupação com a dimensão subjetiva, estimulando os estudantes a melhor gerenciarem suas vidas. Ao logo deste texto, organizado em breves tópicos, darei continuidade aos esforços para produzir uma leitura crítica (e criativa) da BNCC.

  1. A possibilidade de coadunar os currículos escolares às demandas juvenis é uma histórica demanda dos movimentos estudantis. Articular o projeto formativo da instituição com o conjunto das preocupações e anseios das juventudes, então, não se configura como uma novidade. A educação dos adolescentes e jovens carece de maior aproximação, construção de vínculos ou mesmo de iniciativas voltadas a dialogar sobre as incertezas ligadas ao futuro, em especial aquelas concernentes ao mundo do trabalho. O que se apresenta como peculiaridade do debate contemporâneo é a vinculação dos projetos de vida às perspectivas de personalização curricular. Construir caminhos formativos tornou-se sinônimo de customização ou ainda, aos moldes do sonho claparediano, construir uma escola sob medida para cada estudante.
  2. O caminho que tem sido oferecido aos variados sistemas de ensino passa pelo trabalho com as competências do século XXI ou competências socioemocionais. Nesta direção, um exemplo bastante destacado nos últimos meses refere-se às mudanças curriculares que serão realizadas pelo Estado de São Paulo – Inova Educação – a partir do ano de 2020. Nesta proposta os estudantes terão duas aulas semanais sobre projetos de vida. A disciplina de Projetos de Vida versará sobre ética e cidadania, projetos na comunidade, mundo do trabalho, gestão do tempo, organização pessoal, sonhos e perspectivas para o futuro. Educar para o desenvolvimento de projetos de vida, sob esta lógica, implica em uma aposta em um modelo de desenvolvimento humano que focaliza a dimensão das emoções.
  3. A competência geral de número 6, da BNCC, diz respeito à valorização e à compreensão da diversidade de saberes, visando ampliar as possibilidades de entendimento do mundo do trabalho e a construção de projetos de vida, abrangendo as dimensões pessoal, profissional e social. Esta competência, para alguns analistas curriculares, supõe a capacidade de autogerir-se, visto que seu foco é melhorar a capacidade de escolha dos estudantes por meio da liberdade, da autonomia, da consciência crítica e da responsabilidade. A formação escolar derivada desta competência coloca o esforço, a determinação e a resiliência como vetores do sucesso escolar.
  4. Yuval Harari, um dos pensadores sociais de maior repercussão nesta década, tem trazido algumas interrogações bastante perspicazes acerca dos desafios para a formação humana no século XXI. Em sua última obra publicada no Brasil, “21 Lições para o século 21”, o autor inquieta-se com questões educacionais e, ao dirigir-se aos jovens, faz uma provocação interessante: “[…] não confie demais nos adultos. A maioria deles tem boas intenções, mas eles não compreendem o mundo” (2018, p. 328). Podemos aceitar os desafios apresentados pelo historiador acerca das incertezas que atravessarão as vidas humanas no século que se inicia, bem como podemos defender a centralidade do protagonismo dos estudantes neste século. Compartilhar com os jovens a construção do futuro trata-se de um exercício inteligente (e necessário); entretanto, não podemos confundir compartilhamento com responsabilização. A construção de projetos de vida adquire intensa potencialidade pedagógica à medida em que estes forem mediados pelas demandas sociais e pelas complexidades culturais do século que se inicia.

Imagem de destaque: BNCC/Reprodução

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