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Pós-capitalismo e educação

Roberto Rafael Dias da Silva

Para aqueles que têm acompanhado minhas colunas no Pensar, neste semestre tenho me dedicado a apresentar perspectivas que podem ampliar minhas leituras críticas e criativas para a escolarização contemporânea. Após termos retomado obras de António Damásio e Edgar Morin, em um exercício heterodoxo, neste mês produzirei uma interlocução com a obra “Pós-capitalismo: um guia para o nosso futuro”, escrito pelo jornalista Paul Mason. Publicado no Brasil no ano de 2017, pela Companhia das Letras, o livro apresenta uma narrativa acerca da atual crise do capitalismo e do modo pelo qual o sistema está deparando-se com seu limite. Traz uma abordagem que explicita como as noções de trabalho, produção e valor estão sendo redimensionadas, em muito devido às tecnologias da informação, criando condições de emergência para um “pós-capitalismo”. Em alusão a este movimento de ampliação de nosso repertório de ferramentas conceituais para ler o presente, defenderei neste texto que o livro de Mason – ainda que não seja uma literatura acadêmica, em sentido estrito – apresenta potencialidades para pensar as formas educativas de nosso tempo.

No contexto da crise econômica de 2008, o jornalista britânico propõe-se a “explicar por que substituir o capitalismo não é mais um sonho utópico, além de esclarecer como as formas básicas de uma economia capitalista podem ser encontradas no interior do sistema vigente e de que modo é possível expandi-las rapidamente”. Sob este prisma, o autor argumenta que o neoliberalismo é uma “doutrina de mercado sem controle” que produziu desenvolvimento nas últimas décadas; entretanto, ao fortalecer a concentração de renda/desigualdade tende a reforçar a ação individual das pessoas, ao ponto de parecer que não há uma alternativa clara.

A hipótese orientadora do livro é que “o capitalismo é um sistema complexo, adaptativo, que alicerça os limites de uma capacidade de adaptação”. A constatação desses limites poderia ser localizada em variadas dimensões, tais como a política, a economia, o meio ambiente, o trabalho, a vida urbana e os processos de formação humana. Segundo Mason, neste contexto, essa constatação não pode nos impulsionar na busca de sonhos distantes; mas, construir o futuro implicaria em “um projeto coerente baseado na razão, na evidência e em esquemas testáveis; um projeto que esteja de acordo com a história econômica e seja sustentável em termos do nosso futuro”. A “moldura para o futuro”, esboçada por Mason, serve-nos para construir interrogações acerca da escolarização e de suas possibilidades para ser reconstruída sob novas configurações. Apresentarei, a seguir, quatro interrogações mais diretivas para esta problematização.

  1. Podemos reconhecer o conhecimento como um direito de todos e reinscrevê-lo no território do comum? Ainda que seja um debate controverso em nosso país, para um cenário pós-capitalista, precisamos retomar o debate sobre os conhecimentos a serem ensinados. Isso implica em valorizar sua dimensão formativa, ainda que controversa, e apostar em formas coletivas de garantias de acesso comum às conquistas intelectuais da humanidade, considerando pluralidade de saberes e culturas.
  2. Podemos pensar a cooperação como um pressuposto das relações e métodos educativos? A escola que o século XX nos legou, nas condições do neoliberalismo, encontrou na pedagogia empreendedora sua máxima formulação. Todavia, ao reconhecermos seus limites, ainda encontramos poucas formulações que apostem na cooperação como fundamento para novas metodologias e que rompam com o padrão organizativo da empresa capitalista. Isso implica também em ampliar a compreensão das articulações entre cultura e ambiente.
  3. Podemos situar as relações pedagógicas para além dos regimes de accountability? Superar a lógica dos exames, que individualiza a formação e responsabiliza os atores, penso que podemos revisar os modos de planejar, organizar as aulas e avaliar os estudantes, desafiando o regime meritocrático que os institui. Isso não implica em uma defesa melancólica da escola e de seus tempos livres; mas, em um exercício de reconstrução das relações pedagógicas à luz das demandas formativas derivadas do pós-capitalismo.
  4. Podemos revitalizar a inovação educativa baseada na escola e com foco em modelos de governança democrática? Seguir apostando na inovação educativa, baseada em dispositivos tecnológicos colaborativos, precisa ser retomado como um objetivo pedagógico incontornável. Promover inovação na escola, com inúmeras mediações tecnológicas, ampliará o escopo de mudanças de uma sociedade emergente.

Encerro por aqui com a intenção de seguir em diálogo com meus leitores e procurando engendrar novas reflexões que ampliem nossa esperança (e nossas ferramentas críticas) para pensar a sociedade do século XXI. Com tal intencionalidade é que sugeri a noção de “pós-capitalismo” como dispositivo conceitual para reinventar a educação em nosso tempo.


Imagem de destaque: Companhia das Letras/Reprodução

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