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Lapis E Apontador Na Folha Pautada – Angelina Litvin   Unsplash (1)

Por vergonha da mãe

Joaquim Ramos

O ano era 1975 e o menino tinha uns nove, talvez, dez anos de idade, no máximo. Frequentava regularmente a escola pública. A pobreza da família obrigava-o, de modo irremediável, ir descalço para a escola – como outras tantas crianças. A roupa era a do corpo e carregava nas mãos, um saco plástico, com um caderno e um lápis dentro, nada mais. A merenda da escola aliviava a fome e lhe servia de desjejum.

A família, recém-chegada da roça, carregava na fala, nos gestos, no modo de “sodar” as pessoas, nas roupas, no corpo, na alma, os traços indeléveis dos caipiras… tudo de uma simplicidade impressionante. Mas, agora, ele sabia ler. Aprendera ali, com as professoras, umas senhoras distintas, bem vestidas,cheirosas, de fala correta que se encarregavam de consertar comportamentos, corrigir imperfeições e apresentar um mundo novo a ele e às demais crianças pobres.

Em seus pensamentos de menino, as mestras eram as pessoas mais sábias da terra. De vez em quando, elas emprestavam alguns livros de folhas meio amareladas, gastas pelo manuseio contínuo de muitas mãozinhas e falavam coisas que pareciam impossíveis de existir: tanta riqueza, mares, planetas, coisas de dentro e de fora do corpo, descobertas impressionantes, florestas, rios, peixes, artes e outras coisas improváveis, em 1975 . Era tanto ensinamento que parecia invenção do “tinhoso” – a quem ele e os irmãos se borravam de medo.

Em casa, as faltas eram intermitentes – apenas de vez em quando, havia um pedaço de carne na panela. Luxo nenhum. Ele via a mãe como aquela coisinha frágil, cheia de vícios de linguagem, roupas surradas e olhar cansado – no fundo, ele sabia que aquela “doninha” de cabelos um pouco brancos um pouco pretos, nunca teria acesso aos infindáveis ensinamentos oferecidos pela escola. De certa feita, sentia um dó da mãezinha que parecia ter nascido para criar a “carreirinha” de filhos. Para o êxito dessa pesada empreitada, luta incessante. Preguiça nenhuma de trabalho. E a danada era brava na criação da filharada.

Um dia, o irmão mais velho cismou de jogar sinuca. Ele já era “de maior” – acabara de completar 18. A mãe foi lá no bar. Na porta daquela espelunca – ela usava essa palavraapenas olhou firme e coçou a goela – esse seu gesto rotineiro de chamar atenção da filharada. Assim como a mãe, o moleque, sem dizer palavras, abandonou o taco e caminhou para casa. Eram dessa maneira, os seus ensinamentos. Quase sem palavras. Preferia a peleja dos afazeres pesadosque a luta quase sempre vã com as palavras.

Num dia cedinho, sem avisar, cismou de aparecer na escola. O menino olhou para a porta e viu a mãe parada do lado de fora da sala. “Meu Deus, o que a mãe tá fazendo aqui?” – pensou ruborizado – “Que vergonha, meu papai do céu!” Da porta, ela olhava ora para a professora, ora para ele. A vergonha que ele sentia não era da mãe, mas daquela situação de penúria, daquele vestido roto, da fala caipira da mãe, da ausência da palavra acertada. Mas ela apenas olhou… olhou de novo e acenou com as mãos ásperas da constante lida. Com o mesmo silêncio que chegou, partiu. Palavra nenhuma.

Meio século depois, essa imagem continua fixada em sua retina. Não mais esqueceu o sorriso de satisfação, o olhar tenro, nem aquela alegria estampada no rosto da mãe. Ninguém sabe a razão de tanta felicidade, certamente – como ele próprio acredita – era por vê-lo debruçado sobre a escrita, como um pequeno homem das letras… um homenzinho das palavras.

Agora, ele tem mais idade do que a mãe tinha naqueles tempos longínquos e leva no rosto, muitos traços físicos que remetem à imagem dela e carrega consigo alguns cacoetes, a mesma personalidade forte, a mesma ilibada moral. Vez em quando recorda palavras que só ela dizia. Resolveu compor um pequeno glossário com essas pérolas, por não desejar que se percam na memória. Quem mais se lembrará dessas preciosidades? O pai? Os irmãos? Os parentes distantes? Quando vem à mente uma dessas palavras, ele anota. Chega a ouvir a pronúncia dos lábios dela. É como se ela ainda estivesse fisicamente presente. Não está mais.

Encabula-se com a passagem do tempo e com a circularidade da vida. E desse jeito, rememorando o rosto alegre dela – na porta daquela sala de aula – apenas pensa: “onde estiver, mãezinha, receba a eterna gratidão por ensinar com o olhar– e com palavras tão suas – o valor das coisas descomplicadas, das coisas simples da vida!”.


Imagem de destaque: Angelina Litvin / Unsplash

 

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