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Dalvit Greiner De Paula – Por Quê A EJA

Por quê a EJA?

Dalvit Greiner de Paula

Porque precisamos de uma Educação de Jovens e Adultos? Porque é uma questão de direito e não de necessidade. Os jovens e adultos têm direito a um processo educativo maior e melhor possível, tanto em quantidade quanto em qualidade. Assim, afirmo com tranquilidade que a EJA é a oportunidade que jovens e adultos têm para uma educação ao longo da vida, enquanto desejarem, independente de seus objetivos. A EJA é uma modalidade de amadurecimento cotidiano, atualizando jovens e adultos nas tecnologias e seus usos.

Qual seria então o papel da Escola, enquanto instituição, nesse processo. Aprimorar cada vez mais o cidadão, cuidando para que alcance seus objetivos numa vida de cidadania e trabalho. Quando falo de atualizar tecnologicamente o estudante na EJA significa torna-lo capaz de viver neste mundo de rápidas mudanças sem perder a sua identidade. Nesse sentido, qualquer coisa que a escola fizer no campo estritamente profissional vai de encontro ao seu projeto maior que é a cidadania. Quem deve cuidar da profissão são as escolas técnicas, que também tem projetos de EJA, porém com outro perfil. Devemos desenvolver o cidadão que trabalha e não o trabalhador que um dia, quem sabe, será um cidadão. Ou seja, a cidadania inclui o trabalho, porém nem sempre o trabalho inclui a cidadania.

Ser um professor de jovens e adultos é desafiante. Porém, o principal desafio é relacional: como construir solidariedades a partir de tantos pontos de vista, de tantos desejos? É preciso se desafiar todos os dias com uma nova metodologia. Uma única metodologia nunca atinge a todos da mesma maneira, sequer da maneira como você projetou. O desafio didático está na dificuldade de construirmos sequências que nos permitam atingir um mínimo com todos. O mínimo previsto nem sempre é atingido, quem dirá o máximo. É preciso reconstruir todos os dias o planejamento, avaliar o grupo na entrada e se preciso, modifica-lo totalmente. Assim, a paciência é uma competência geral para qualquer professor e, tê-la é um desafio cotidiano. No caso de um professor de EJA essa competência tem que ser maior, pois adultos não obedecem como crianças. Precisam ser convencidos.

As habilidades de argumentação e de proposição tornam-se imprescindíveis e indispensáveis ao professor de EJA. Ou seja, capacidade de construir convencimentos respeitando e ensinando a respeitar os dissensos.Essa é uma relação conflituosa que deve ser positivada todos os dias. Um processo avaliativo constante, formativo e dialogado onde o que mais interessa é a compreensão do estudante sobre a sua aquisição do conhecimento e o esforço necessário para continuar ou mudar de rumos. Trazer o vivido para se pensar em sala de aula e a partir daí construir o conhecimento.

Para o adulto, lutar pelo seu direito e provocar o Estado é uma constante, em todos os setores da vida pública e social. A participação do Estado é uma obrigação, uma reparação de um direito negado ou mal conduzido em períodos anteriores. Porém, o Estado deve ser provocado. Dessa forma, cabe ao Estado o gerenciamento financeiro necessário ao atendimento não priorizando nem negligenciando o direito ao estudante de EJA, mas garantindo e executando tal garantia. Isso quer dizer: enquanto o estudante se achar no direito àquela escolarização deve tê-la à sua disposição. Assim, a participação da sociedade e da comunidade é muito importante, na condução e no espalhamento desse direito a todos, recebendo e difundindo conhecimento, exigindo que a cidade seja cada dia mais educadora. Um problema em qualquer nível ou modalidade de ensino público. Maior ainda na EJA, na medida em que os estudantes são, em quase sua totalidade, negros e pobres. Eles/elas já são o resultado da discriminação na infância e na adolescência. Porém, a maior dificuldade é reconhecer-se negro/negra e perceber que isso não é um problema. O problema é quando uma característica natural se torna um preconceito transformado em mecanismo de segregação, ou seja, em política estatal. Como raramente tiveram a presença do Estado, tendem a pensar que cada um deve cuidar de si, o que demonstra certa dificuldade de se construir redes de solidariedade.

Abandonados em todos os sentidos, em todos os aspectos, somos sobreviventes, estudantes e professores/as de EJA se pensarmos por tudo o que já passamos. E quanto maior a idade, mais abandono justamente porque já estamos atingindo a outra ponta que a sociedade e o Estado abandonam: a velhice. Portanto, o papel da Educação de Jovens e Adultos é não alimentar esse perfil de sobreviventes, mas fazer surgir o espírito de luta que leva à cidadania. Ou seja, fazer surgir o cidadão.


Imagem de destaque: Escola Municipal Córrego da Bica, Recife, Pernambuco. Foto: Geyson Magno/MEC

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