Pensar a educação na China, Pensar o nosso tempo: O sucesso dos países asiáticos na última avaliação do PISA – exclusivo

Matheus da Cruz e Zica

Hoje temos o prazer de iniciar a Série: Pensar a educação na China, Pensar o nosso Tempo, composta de 5 artigos independentes entre si, mas conectados em suas temáticas. Muito se tem dito sobre o papel econômico da China em relação ao mundo, no entanto temos pensado muito pouco nas questões relativas à cultura e educação naquele país e de seu papel no contexto de internacionalização e globalização. O imaginário redutor de que os chineses são formigas que trabalham sem pensar, o medo da “invasão bárbara amarela” e o exotismo da língua não-alfabetica causam um distanciamento que leva a um estereótipo difícil de ser relativizado pela maioria das pessoas que não tem outra fonte de informação a não ser a grande mídia de massa. Se com os artigos que ora propomos publicar conseguirmos desestabilizar esses lugares comuns teremos logrado algum êxito. Boa leitura!

O sucesso dos países asiáticos na última avaliação do PISA

Nesse ano de 2015 o Brasil está participando da nova edição da avaliação trienal do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), promovido pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). A avaliação está sendo aplicada durante todo esse mês de maio a estudantes na faixa dos 15 anos, idade em que se pressupõe o término da escolaridade básica obrigatória na maioria dos países, por todas as partes do globo.

As provas avaliam as áreas de Matemática, Ciências e Leitura, cada edição enfatizando uma dessas áreas. A inclusão de duas novas áreas para avaliação dos jovens (Competência Financeira e Resolução Colaborativa de Problemas) aumentam as polêmicas em torno do Programa. Aproximadamente 60 países estão participando dessa avaliação de 2015.

Desde o PISA 2012 os olhos estão voltados para a Ásia, mais especificamente para o leste do continente, quando os 7 países melhores colocados naquela ocasião, em quase todas as áreas avaliadas, estão localizados naquela região do globo, fato intrigante para muitos países europeus e do norte das Américas, que costumavam ocupar os primeiros postos do ranking em edições anteriores.

Com destaque para a matemática, foco da avaliação naquela edição do Programa, em 2012, se saíram bem, na ordem divulgada: 1º Shangai-China; 2º Cingapura; 3º Hong Kong-China; 4º Taiwan; 5º Korea; 6º Macau-China; e 7º Japão. Suíça e Holanda viriam em 9º e 10º lugares, respectivamente. Dos 65 participantes, o Brasil ficou em 58º.

Em que pesem as ressalvas acertadas que os pesquisadores da área de educação têm para com o teste em questão, é preciso ter em mente que seus resultados são amplamente divulgados e exercem forte influência nos argumentos políticos e na formação da opinião pública não especializada. No âmbito europeu, podemos citar um dos principais jornais britânicos de repercussão mundial, o The Guardian, que anunciou em tom alarmante o resultado da avaliação, em sua edição de 03/12/2013, quando os resultados oficiais do PISA 2012 foram devidamente divulgados pela OCDE, destacando a proeminência dos asiáticos no ranking.

Ainda naquela ocasião, a então ministra da Educação da Finlândia, Krista Kiuru, foi chamada a dar uma declaração formal sobre a “queda” do seu país em matemática, que saiu de 5º lugar em 2009 (541 pontos) para 12º lugar em 2012 (519 pontos). Ela argumentou que um dos motivos poderia estar relacionado à queda do interesse dos jovens finlandeses pelo espaço escolar.

Os parâmetros avaliados no PISA são pautados em uma clara tradição eurocêntrica, continente onde a economia e o individualismo passaram a ter uma proeminência cada vez mais acentuada e de onde esse modelo se alastrou pelo mundo principalmente a partir da expansão imperialista do século XIX. A própria OCDE, grande organizadora do PISA, surge como iniciativa principal do Ocidente que historicamente pressionou os países do “Oriente” rumo à economia de mercado.

Esse sucesso representaria uma integração cada vez maior e resignada daqueles países aos ditames do capitalismo ocidental, ou seria indicativo do deslocamento do mundo para um novo eixo difusor de referências culturais representados por países que, para sua sobrevivência em nível internacional, apenas instrumentalmente aprenderam os códigos que lhes foram demandados por pressão externa? A afirmação de Caetano Veloso se torna aqui uma pergunta: Será que “alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”??? Tentaremos ampliar essa questão a partir do caso chinês em nossos próximos artigos dessa série.

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