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Pensar a Educação e Imaginar a História

Erika Morais Cerqueira*

Durante o seu tempo de vida e, particularmente, no período em que realizou sua produção letrada, Gustavo Barroso (1888-1959) foi um intelectual dedicado ao estudo da história militar brasileira e acreditava que, por meio dela, seria possível ensinar os “homens do presente a amarem as coisas mortas”. Tal ambição motivou Barroso a idealizar o Museu Histórico Nacional, efetivamente criado em 1922, por Epitácio Pessoa, no bojo das comemorações do Centenário da Independência. Pensado como um espaço educativo, onde o cidadão poderia aprender a amar o passado, mediado pelos objetos que restavam das épocas findas, o MHN educava pela sensibilidade e pela imaginação. Afinado com a proposta de construção das identidades nacionais e do sentimento de pertencimento a uma história, o MHN serviu, durante anos, como “templo” da história nacional, onde os grandes homens e suas realizações deveriam ser celebrados.

Em suas salas, “imaginar o passado” era algo a ser ensinado, por meio de uma narrativa acessível, que mobilizava meios capazes de agradar um público amplo, inclusive as crianças. Com destaque para as personalidades militares, compreendidas como os verdadeiros agentes da formação nacional, notava-se o empenho em atribuir ao museu um caráter instrutivo e científico. A criação do Curso de Museus, em 1932, pode ser percebida como importante investimento nesta proposta de conciliar ciência e sensibilidade, sob a coordenação de Barroso. Com o intuito de formar um quadro técnico para o Museu Histórico Nacional, o Curso de Museus foi, essencialmente, um primeiro passo para a profissionalização do Conservador do Museu, posteriormente identificado como museólogo.

Em um contexto marcado pela constituição de diversas medidas de teor memorial, que exigiram a criação ou recriação de uma história e memória nacionais, segundo os parâmetros de uma cultura republicana – que tinha que investir em novos símbolos, rituais, festas e heróis nacionais para sua legitimação – Barroso propôs um projeto, em 1911, para a constituição de um Corpo de Cavalaria – os Dragões da Independência. O fardamento dos Dragões preservava as principais características do Regimento que teria acompanhado D. Pedro I e, atualmente, é responsável pela guarda do presidente da República e pelo cerimonial militar, especialmente o desfile que ocorre em 7 de setembro. Neste esforço narrativo, Barroso pode ser compreendido como o intelectual que ambicionou promover uma visão de continuidade entre o presente e o passado, onde o desfile dos Dragões da Independência pode ser compreendido, nesta releitura, como um destes acessórios que ambicionavam fazer “o passado desfilar”.

Foi, neste ínterim, que Barroso divulgou a proposta de estruturação de uma coletânea sobre a História Militar Brasileira, pois esta “possui vultos e glórias fora do comum e está repleta de grandes ensinamentos técnicos e políticos. É rica de altas lições de sacrifício e patriotismo. Ilustra-se de belos exemplos”. Cabia à história, segundo esta esquematização, um lugar muito especial na promoção do sentimento de amor à pátria, pois este deveria fundar-se no conhecimento e na valorização de um passado comum. A pátria deveria ser compreendida – e sentida – como uma comunidade afetiva, entidade suprema e sagrada, objeto de respeito e amor dos cidadãos.

Ao longo das primeiras décadas do século Vinte, portanto, a educação foi percebida como um dos recursos mais poderosos para se produzir transformações sociais profundas e duradouras no país, em especial quando voltada para a “infância”. O livro e a leitura, bem como um conjunto de práticas e equipamentos culturais, (como os museus, as exposições e as festas cívicas) foram os vetores estratégicos para o aprendizado de um nacionalismo, que deveria se traduzir em uma compreensão da história de teor cívico-patriótico. Tais elementos delinearam as diversificadas iniciativas de Gustavo Barroso, tanto no campo da cultura, quanto na área de educação.

*Erika Morais Cerqueira é  doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História da UFMG.

Contato: erika_mcerqueira@hotmail.com

 

Referências Bibliográficas

BARROSO, Gustavo. Esquematização da história militar do Brasil. In: Anais do Museu Histórico Nacional, Vol. 3. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1942.

CERQUEIRA, Erika Morais. Habitar o Passado: Gustavo Barroso e o seu Tempo. Curitiba: Prismas, 2017.

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