Parques Infantis: seguros, previsíveis e estéreis? – exclusivo

Aleluia Heringer Lisboa

Aquele quintal da casa de nossos avós ou pais povoa o imaginário de muitos da minha geração. Guardava tanto a possibilidade de explorar e criar, quanto a ameaça e o perigo. Esse era o espaço, além da rua, em que criávamos as nossas “cascas e calos”, e, como tal, era a simples pedagogia da vida. Bastou pisar uma única vez na lagarta “de fogo” para entender o que é “olha por onde pisa! ”.  A farpa de madeira que entrava na pele, ou debaixo da unha, exigia de nós a valentia de retirá-la. Com essa experiência, entendíamos que as texturas eram diferentes e isso exigia de nós a esperteza e atenção antes de deslizar a mão em qualquer superfície. Bastava ousar, uma única vez, mexer com as abelhas ou na casa do maribondo, para entender o porquê de se respeitar e manter distância do espaço do outro e o “não cutuque a onça com vara curta”. Quebrar o braço ou levar ponto no queixo, na testa, no joelho pelos mais diversos motivos, tais como: subir em muro; tropeçar em pedra; cair da árvore; atropelamento de carrinho de rolimã ou cair da bicicleta, eram o curso mais rápido e eficiente a nos dar noção de espaço, lateralidade, coordenação óculo-pedal, equilíbrio e tantas outras habilidades físicas que nos ajudavam a nos posicionarmos no espaço, a atravessar uma rua, e que hoje interferem na forma como dirigimos um carro e até mesmo como falamos em público.

Esse resgate do passado nos permite construir um paralelo com os atuais espaços destinados ao recreio das crianças da Educação Infantil.

Em nossa escola tínhamos um lote de 490m2 para esse fim. O que fazer ali? Prevaleceu a ideia do quintal da casa de vó. Que nada fosse tão alto a ponto de o perigo inviabilizar a exploração; que fosse proibido proibir o tocar, o subir, o correr e tantas outras interdições. De forma intencional e proporcional à idade das crianças, ali seria o lugar do aprender a se cuidar e de se defender. Lugar de entender, por vivência, que chão é duro e que é preciso aprender a cair (e a levantar por conta própria); que brincar de correr é imprescindível, mas que implica domínio do próprio corpo e que é inevitável trombadas e quedas, e com isso, ganhar alguns roxos e arranhões.

Infelizmente idealizamos e olhamos para esses espaços a partir de nossos receios e medos de adultos. Pensamos sempre no pior e, assim, nossa tendência é retirar do caminho tudo aquilo que representa a mais simples ameaça. Nunca se vendeu tanto piso emborrachado! Criamos a falsa impressão que chão é macio.

Não! O chão é duro. Não vamos emborrachar o mundo e nem a vida. Essa falsa impressão fragiliza nossos filhotes. Reforço que ninguém deseja a queda do outro, entretanto, levar um tombo não é o fim do mundo. Com a boa intenção de evitar dissabores, deixamos esses espaços parecidos com uma grande bolha protetora, onde tudo é controlado, previsível e asséptico;daí, estéril e pobre em desafios. Não precisaremos esperar muito mais tempo, pois já assistimos ao resultado desse excesso de proteção: crianças frágeis, medrosas, dependentes e indefesas e que requerem de nós cada vez mais cuidado e proteção. Não estamos sendo incoerentes? Logo nós que amamos tanto os nossos filhotes e queremos que eles cresçam fortes, valentes e destemidos?

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