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Paisagens da Serra da Piedade: aprendendo sobre ética e ecologia

Fernanda Aparecida Peixoto*
Vagner Luciano de Andrade

 

A escola dos tempos atuais passa por mudanças. É importante considerar, que a avaliação da aprendizagem escolar não implica somente na aprovação ou reprovação dos educandos, mas, sobretudo na orientação ou mesmo reorientação dos alunos, que seriam reprovados pelo sistema tradicional. Descobrir sobre os estudantes, suas facilidades, dificuldades e também personalidades é um passo grandioso para conhecê-los melhor. A partir de então se saberá os pontos fortes e fracos, trabalhando os conteúdos previstos com mais intensidade. Como estratégias contemporâneas destaca-se o empoderamento dos diferentes sujeitos, ao se considerar sua história de vida e seu conhecimento de mundo, enquanto protagonistas de uma nova ordem. A escola do Século XXI precisa de reformulações, que conectem os educandos às suas realidades, preparando-os para uma possível intervenção que impute uma nova sociedade, mais ética e ecológica. Ou então cairemos no marasmo das aulas vazias e sem sentido efetivo e transformador.

Para tais necessidades, existem diversas formas e possibilidades de se medir o conhecimento de cada um, como debates, pesquisas, projetos, trabalhos em grupo, visitas onde os alunos se sintam mais à vontade, expressando assim o conhecimento adquirido. Podemos também fugir de algumas práticas tradicionais que restringem a uma pequena linha de conhecimento, observando que instrumento de avaliação é qualquer atividade inovadora e diferenciada que expresse o conhecimento conquistado. É importante ir além, optar por uma avaliação diagnóstica onde o aluno se desenvolva livremente e entenda a avaliação não como controle, mas como possibilidade de progresso e transformação. A saída ao campo, para verificar in loco a realidade socioambiental, além de estratégia pedagógica transformadora, promove novos meios e canais avaliativos reformatando a relação entre discentes e docentes.

Dentro do ensino de ciências naturais e ecologia, podemos inserir as questões éticas e morais, começando pelos nossos comportamentos como educadores, policiando nossas atitudes e servindo de certa forma como espelho, um exemplo ético e moral para os educandos, associando através do incentivo aos valores coletivos, tais como responsabilidade, solidariedade e compreensão.

Fonte: Iepha-MG

Para que isso seja possível é importante que a escola tenha autonomia, possibilitando assim a inserção de projetos e ações pedagógicas interdisciplinares,  facilitando assim o trabalho de questões como problemas e situações, onde o educando busque uma solução para problemas da realidade, embasado no conhecimento científico.Outra forma é incentivar os alunos a atentarem e analisarem criticamente as notícias sobre ciências, tecnologias e seus desenvolvimentos, levando-os a pensar como os avanços científicos e tecnológicos impactam a sociedade, meio ambiente e nossas culturas, influenciando eticamente esses meios. Para a observação de assuntos interdisciplinares referentes à ecologia e a ética no cuidado com o meio ambiente, destacam-se os cenários da Serra da Piedade, com altitude de 1.746 metros, que localiza-se entre os Municípios de Sabará e Caeté na Grande Belo Horizonte.

Essa serra formata-se enquanto paisagem educativa, sendo um tema transversal, uma temática atual que aborda questões tanto ambientais quanto culturais, econômicas, políticas e sociais, por meio de diferentes disciplinas que se correlacionam. A observação, percepção e análise, um dos objetivos do ensino contemporâneo, se faz através da visitação turística de cunho pedagógico.  Nas áreas de ciências biológicas e ecologia empreende-se não apenas a formação exclusiva de pequenos cientistas, mas, sobretudo a formação ética de pessoas que pensem a respeito das questões globais não superficialmente, mas analisando criticamente, levantando e analisando hipóteses e procurando validá-las.

A Serra já era conhecida desde o início do século XVII. Lourenço Castanho Taques é considerado o desbravador da região de Caeté, como consta em Carta Régia de 23 de março de 1664, pela descoberta dos “Sertões de Caeté”. Na verdade, ela seria a lendária Serra do Sabarabuçu e, portanto, está ligada aos mitos das minas de prata, que desde final do século XVI excitaram os espíritos aventureiros dos bandeirantes paulistas que acreditavam haver que naquela latitude abundância de prata, a exemplo do que acontecia na Serra do Potosi, no Peru. Preserva-se a Capela Nossa Senhora da Piedade, padroeira do estado de Minas Gerais, localizada no topo da serra, cuja construção iniciou-se por volta de 1704 e foi concluída por volta de 1770.

É a continuação da Serra do Curral e localiza-se no limite norte do Quadrilátero Ferrífero, com ocorrência de ecossistemas rupestres. Os ventos são constantes na região, e carregam a umidade e nutrientes formando um ambiente hostil. Durante o inverno é comum a formação de geada e nevoeiros. Nesta área, há uma biodiversidade relevante marcada por plantas e animais biologicamente adaptados às condições adversas. O santuário de Nossa Senhora da Piedade é um local tradicional de romarias e está vinculado a muitas lendas.

Em 1817, o sábio francês Auguste de Saint-Hilaire visitou a Serra e observou que a igreja era cercada de edifícios onde moravam eremitas e romeiros. Um dos moradores era a irmã Germana, uma mulher de cerca de trinta e cinco anos, penitente que quase não se alimentava e apresentava crises de histeria. Apoderada pelo êxtase, o povo acreditava tratar-se de uma santa. Os relatos dos viajantes Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius, feitos entre 1820 e 1840, registraram a existência dessa personagem singular na serra.

Fonte: Iepha-MG

Pela presença da religiosidade notam-se múltiplos recortes culturais relevantes para se pensar a apropriação dos espaços naturais da serra e seus impactos. Divisor de águas, contribuindo para a formação dos Rios Doce e das Velhas, abriga o Observatório Astronômico da UFMG e os radares do CINDACTA, que monitoram os céus da região.A lei estadual 15.178 de 16 de junho de 2004 definiu judicialmente uma área de 1.945 hectares para preservação dos mananciais, da fauna e da flora. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais estabeleceu as diretrizes para o tombamento da área, definindo as atividades que podem ser exercidas na região e as medidas de preservação paisagística, cultural e ambiental a serem adotadas. Uma área degradada pela exploração mineral terá que ser reconstituída pela empresa exploradora, cumprindo o previsto no artigo 225 da Constituição Federal.A serra, neste contexto, vai além da aprendizagem em biologia e ecologia formatando-se enquanto cenário de conscientização que sensibilize e motive a ética e o cuidado para com os elementos que compõem as diferentes paisagens naturais e culturais.


*Fernanda Aparecida Peixoto é discente do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da UNIMES – Universidade Metropolitana de Santos / Polo de Desterro de Entre Rios – MG. E-mail: nanda.des.02@gmail.com

 

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