Pais que brincam dão mais limites aos filhos – exclusivo

Marcelo Ribeiro

Contrariando o senso comum, a brincadeira é uma coisa muito séria, pelo menos em termos de importância para o desenvolvimento infantil e para a relação entre pais e filhos. É relativamente convencionado que a brincadeira é uma distração pueril, um passa tempo divertido. Este modo de ver a brincadeira carrega marcas pejorativas à medida que desvaloriza a importância da brincadeira, mas também porque está associada a uma certa construção social de ser criança, de ser pueril, de ser algo infantil, como fossem aspectos inferiores do humano.

Vários estudiosos têm mostrado que a criança e a fase da infância não devem ser vistas como etapas inferiores do desenvolvimento e nem reduzidas à sua condição de simples preparação para a vida adulta. O sociólogo Willian Corsaro, por exemplo, em seu livro Sociologia da Infância, apresenta uma compreensão de que a infância tem uma importância per si. De modo semelhante, estudos clássicos, como os desenvolvidos por Henri Wallon, também demonstram a importância de valorizar a vivência das crianças, suas infâncias, como algo único e complexo no desenvolvimento humano.

É nesse sentido de valorizar a experiência infantil, sobretudo a brincadeira, como algo rico em possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem. Outros autores clássicos que ainda inspiram profundamente estudos relacionados a questão do brincar são Vygotsky e Piaget. O primeiro, sustenta a ideia de que ao brincar as crianças ensaiam ações, condutas e pensamentos, consolidando aprendizagens e, consequentemente, desencadeando desenvolvimentos. O segundo, Piaget, contribui, sobretudo, nos estudos relativos ao desenvolvimento moral, que implica noções de regras e limites.

De modo geral, as brincadeiras podem ser de dois tipos: espontâneas, quando não há presença de adultos; e do tipo mediada, quando há presença de adultos e também portando alguma intenção educativa (há ainda a possibilidade da presença de adultos nas brincadeiras, mas sem intenções, pelo menos explícitas, educativas).

Ainda, a natureza da brincadeira demanda regras e limites, mesmo que seja uma “brincadeira inventada” e compartilhada apenas por crianças.

Ao longo dos nossos trabalhos, oriundos de pesquisas e projetos de extensão ou no serviço de orientação à pais, que mantemos na Centro de Práticas e Estudos de Psicologia – Ceppsi, da Universidade Federal do Vale do São Francisco – Univasf, temos constatado que pais que brincam com seus filhos, possibilitam que estes melhor desenvolvam noções de limites. Certamente essa noção de limites é uma via de mão dupla, pois os pais também aprendem a melhor compreender seus filhos.

Indo ao encontro da vasta literatura que trata do assunto é possível correlacionar essa constatação (de que país que brincam com seus filhos têm relações mais afetuosos, respeitosos e, portanto, balizadas por limites) à medida que na brincadeira há necessária condição de estabelecimento de regras e limites. Afinal, brincadeira que não tem regras e limites não tem graça, não é verdade? Outra fundamentação tem a ver com os vínculos que são estabelecidos no momento do brincar, sobretudo quando envolvem pais e filhos. Afinal, o brincar é uma ação carregada de prazer e que cria laços.

O momento da brincadeira, portanto, é uma oportunidade singular para que o processo educativo ocorra de maneira natural, possibilitando, inclusive, uma melhor compreensão dos pais em relação aos seus filhos.

Brincar é coisa séria!

Obras sugeridas:

CORSARO, Willian. Sociologia da Infância. Porto Alegre: Artmed, 2011.

PIAGET, Jean. O Juízo Moral na Criança. São Paulo: Summus, 1994.

PIAGET, Jean. O Julgamento Moral na Criança. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

WALLON, Henri. As Origens do Pensamento na Criança, Henri Wallon, São Paulo : Ed. Manole, 1989.

VYGOTSKY, Lev. Formação Social da Mente, SP: Martins Fontes, 2002.

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