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Marcha Das Mulheres Negras De Brasilia 2015. Foto Marcello Casal Jr Agência Brasil

Ódio de índias(os), negra(o) e pobre

Tiago Tristão Artero

Olha essa negra, olha esse negro, venceu na vida. Destacou-se na escola x, cursou a universidade y e inseriu-se no mercado de trabalho.

Que índio exemplar, está dedicando-se ao frigorífico. Trabalhando pelo desenvolvimento da sociedade.

Em verdade, a mídia e a cultura que se coloca como hegemônica exaltam aquelas(es) que, por motivos diversos, contribuem com o sistema, independentemente das consequências e do quanto o ‘case de sucesso’ seja um exemplo isolado, não representativo da maioria. Casos colocados como exemplos de sucesso somente são divulgados quando contribuem com a acumulação de riqueza, excetuando-se a maioria que nem sequer terão chances ou que para que tenham alguma chance precisarão abrir mão de sua cultura, de seu bem-estar e, até mesmo, de sua família (fator que gera drásticas consequências para as mulheres negras e indígenas, periféricas).

No caso exemplificado dos frigoríficos não há muito o que dizer, além do fato de que integrantes de povos Guarani-Kaiowá da região da Grande Dourados (MS) ficam expostos à contaminação pelo coronavírus e, ao retornar às suas aldeias, colocam em risco seus pares, especialmente por tratar-se de modos de vida coletivos.

Coronavírus é doença de branco! É o modo de vida imposto pelos colonizadores que propiciaram o aparecimento e disseminação do vírus ‘pelos quatro cantos do planeta’ (expressão que terraplanistas levarão ao pé da letra).

Voltando às negras(os) e índios “de sucesso”, a meritocracia apontada tenta dar destaque a uma ínfima minoria que alcança uma posição profissional ou nos estudos, provavelmente, como forma de reforçar a hegemonia dominante e fazer com que outras(os) não se atrevam a tentar ir ‘contra o sistema’.

Barricadas montadas pelos povos indígenas, ‘Breque dos apps’ – protestos das(os) entregadoras(es) antifascistas, reivindicando que tenham o próprio app, controlado pelas(os) trabalhadoras(es) – movimentações das negras e negros Brasil e mundo afora – contra a opressão e contra a violência do modelo policial obsoleto – e toda e qualquer iniciativa que vá contra os interesses do capital são prontamente apontados como radicais e como violentos, subversivos.

O ódio pelas índias(os), negras(os) e pobres representam o ódio por um modo de vida que afronta a classe dominante. No Brasil, essa classe (dominante) é maciçamente composta por brancos e brancas descendentes dos que foram beneficiados pelas políticas públicas de imigração do século XIX e XX.

É o amor pela dominação e o ódio pela vida. O ódio pelos bairros pobres, com música, crianças, jovens, barulho, pela coletividade. É o amor pelos bairros ricos, pelo silêncio, por corpos negros docilizados, para que as funções sejam cumpridas na mais absoluta obediência – assim também ocorre no comércio, na padronização das franquias, nas fábricas, nas escolas.

É o ódio pelas aldeias, pelas culturas dos povos originários, por sua integração com a natureza. É a repulsa pelos quilombos, pela soberania alimentar, pela música, pela dança, pela capoeira, pelas risadas, pela vadiação.

A branca e o branco colonizador têm raiva de quem cuida de seus filhos, de suas filhas; têm ódio dos que constroem suas casas, dxs que cuidam dos seus jardins, dxs que lavam suas roupas e fazem sua comida; não suportam as(os) que alavancam o lucro das suas empresas, dxs que dão todo o suporte para que sua vida seja suave – embora o capitalismo sempre deixe uma interrogação que coloca o bem-estar em risco, fazendo com que a exploração seja ainda mais intensa, a fim de que o acúmulo de propriedades e de uma conta bancária maior dê conta de uma dita segurança.

Segurança de quem venceu na vida, herdou tempo livre, renda mensal alta, um sistema com escravas e escravos que coletam migalhas (para pagar a passagem de ônibus, a cesta básica e impostos).

Acho que o ódio, de fato, deve ser pelo medo, pela incapacidade de manter-se vivo caso a classe proletária se rebele, pelo pavor de perder a ‘boquinha’ da exploração alheia, de ter que colocar a mão na massa e ‘cair a ficha’ de que não dá conta nem mesmo de cuidar dxs filhxs, dos cachorros e da louça.

Abaixo aos prédios, às grandes obras, às mais belas representações arquitetônicas. Não foi o arquiteto Oscar; foram os nordestinos, foi o sangue do preto misturado com o do índio que construiu aquilo que é colocado como produção de brancos.

O ódio deve ser do medo de que as trabalhadoras e trabalhadores subvertam, colocando sua cultura acima da cultura do branco, dos colonizadores; deve ser o receio de que os terreiros de candomblé tenham fachadas, de que a estrutura racista seja derrubada, de que as índias e índios possam viver de suas terras (sagradas, a própria Mãe Terra), de que o patriarcado se dobre à ética dos cuidados alavancado pelas mulheres. Temem que a não remuneração do trabalho reprodutivo e de cuidados seja um absurdo, que a natureza seja percebida em sua indissociabilidade com a raça humana e de que a massa pobre, negra e índia entenda que sem eles nada do que existe hoje pode continuar funcionando.

Daí vem o ódio, de tentar colocar-se como superior e estar em constante risco de que os povos secularmente oprimidos se voltem contra os opressores.


Imagem de destaque: Marcha das Mulheres Negras de Brasilia 2015. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

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