O vento mudou: há algo novo no ar – exclusivo

Aleluia Heringer Lisboa

Certos sintomas decorrentes do modo de ser e de viver de uma dada sociedade são notados de forma privilegiada no ambiente escolar. Isto decorre de ser este um lugar social privilegiado com três importantes variáveis: o tempo (horas, dias, meses, anos); espaço (mesmo lugar) e o número de pessoas envolvidas. A escola, por sua vez, não está fora desta mesma sociedade e atua, ora fazendo contrapontos e tensionando, ora reforçando e legitimando determinadas práticas. A síntese da atuação dessas forças é sentida, fortemente, nas crianças e nos jovens, seja pela forma como falam, escrevem, opinam, alimentam, vestem, relacionam-se com os colegas ou com a figura de autoridade, seja esta um adulto ou o professor.

O vento mudou de direção e há algo novo no ar. Têm sido recorrentes algumas falas, vindas de diferentes contextos, diferentes sistemas de ensino e de diferentes professores, em relação a imaturidade e falta de autonomia dos estudantes. No desdobramento desta constatação, segue a dificuldade de ouvir (acompanhar o que o outro está dizendo); organizar o próprio espaço de trabalho; a ausência da coordenação motora grossa e fina que influencia no recorte de uma folha, na colagem, no manuseio de equipamentos ou na própria escrita. Algumas habilidades cognitivas estão ficando a desejar, como a resolução de contas básicas para a solução de problemas que extrapolam os exercícios da aula de matemática; a falta de noção de proporção; ausência de conteúdo para uma produção de texto e mais uma série de itens. Uma professora disse, com o semblante angustiado, “hoje não consigo desenvolver um assunto da forma e no tempo que era feito com as turmas de anos anteriores”.

Consigo visualizar alguns movimentos possíveis no sentido de abordar ou minimizar esses problemas. O primeiro diz respeito à instituição escolar. O mundo e o sujeito da aprendizagem mudaram e de uma forma profunda, estrutural. De uma geração habituada ao livro, quadro, lápis e papel, temos uma geração da imagem e do som, habituada à 3ª dimensão e à tecnologia digital – com o agravante do sedentarismo, reação à insegurança social que fecha todos em suas casas, carros e shopping, além da permissão abusiva que concedemos à tecnologia que, com todas as suas comodidades, roubou de nós a experiência de ser, humano.

O segundo movimento depende muito da família e, em parte, da escola, mais especificamente com a educação infantil e as primeiras séries do ensino fundamental. Não há vantagem alguma antecipar a leitura e a escrita, quando para isto é preciso sacrificar a única coisa que, de fato, faz sentido para a criança. Pais e educadores! Estamos invertendo a ordem de importância. Tudo tem o seu tempo. Quantas e quantas horas nossas crianças estão passando em ambientes fechados, fazendo programas de adultos ou na frente de uma tela de smartphone, tablet ou TV? Tempo roubado da infância. Abandonamos algo essencial que é a linguagem corporal. No afã de vermos nossos filhos lendo e escrevendo, cada vez mais cedo, minimizamos o tempo de brincar e jogar. O repertório próprio do se movimentar tem sido muito pobre. Suprimimos o pular, saltar, correr, equilibrar, escalar, esquivar, agarrar, lançar, e tudo isto com seus respectivos e necessários tombos, arranhões e trombadas. Retiramos os desafios do caminho das crianças, pois enxergamos tudo como ameaça.

Estamos presenciando e sentindo fortemente a falta que faz o equilíbrio, o ritmo, a noção de espaço, de tempo, coordenação motora grossa e fina, pensar estrategicamente e de forma antecipada. Sabem onde se aprende isto? Na queimada, na amarelinha, no saltar elástico, no pular corda individual ou com pequenos grupos, no “eu com as quatro, eu com ela…” brincadeiras acompanhadas de músicas e de gestos em duplas, trios ou quartetos, “polícia e ladrão”, no saltar pipa, no boliche, na bola de meia e de gude, rouba-bandeira, para citar alguns.

Já a falta de autonomia diz respeito a todos nós. O sujeito-estudante tem sido um alienado do próprio processo de aprendizagem. Sujeito oculto. Ele não comparece, não se engaja intelectualmente e não se mobiliza para o saber. Isto foi ensinado e começa, a meu ver, desde a hora de acordar, quando despertamos por eles. Providenciamos o café, pensamos o lanche, resolvemos o problema do transporte, dos esquecimentos, do uniforme sujo ou limpo e da organização do quarto. Chegamos ao ponto de atravessar a rua por eles. Não se dão o trabalho de olhar para os lados, pois sabem que nós cuidaremos disso. Considero que nosso certificado de bons pais e educadores deveria ser medido pela autonomia alcançada por nossos filhotes. Para cada idade há um grau de autonomia a ser alcançado. Tenho sérias dúvidas se seremos aprovados.

Para concluir, deixando uma palavra de esperança, aposto no investimento de cada família na qualificação da infância. A decisão de colocar uma criança no mundo deveria ser precedida de uma promessa de preservar e amparar para que ela tenha tempo para ser criança. Que as escolas sejam avaliadas pelo tempo investido em tempos qualificados, intencionalmente planejados de jogos e brincadeiras, música e arte. Que seus professores sejam, antes de qualquer coisa, brincantes e disponíveis corporalmente para este diálogo lúdico e não burocratas das letras e dos números. Que os adultos devolvam a elas o direito de cair e machucar, além da prerrogativa de resolver seus próprios problemas, mesmo que seja um “meu colega me chamou de narigudo”. Que as crianças tenham para mostrar não apenas o novo brinquedo eletrônico, mas o roxo no braço, o joelho ralado, o dente de leite perdido. Isto fortalece, cria fibras, desenvolve o senso de autoproteção, aguça os sentidos, deixa-as espertas e ágeis. Que possamos “dar corda”, sem soltar as pontas.

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