O trote na Universidade, ainda

O trote na Universidade, ainda

Alexandre Fernandez Vaz

Começa um novo semestre letivo nas Universidades e ruas e avenidas que contornam os campi veem surgir um costumeiro personagem:  o calouro sofrendo trote. Não é diferente para quem passa pelo entorno da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), cujas sedes são relativamente próximas uma da outra. É isso desde que eu era estudante e se melhorou um pouco porque há um mínimo de constrangimento, segue sendo uma situação vergonhosa. 

São rapazes e moças que, imundos, esmolam de carro em carro no tremendo engarrafamento, estado permanente do trânsito da cidade de Florianópolis. Com frequência, estão sob o olhar de algum “veterano” a fiscalizar a coleta das moedas que depois devem financiar, segundo se supõe, a bebedeira de colegas mais velhos. A vigilância se transforma em documentação: celulares a postos, tudo deve ser registrado para logo ser divulgado em redes sociais. 

Prática que remete ao mundo medieval, o trote é um rito de passagem sadomasoquista, como bem o delimitou Antonio Zuin, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Não deixa de ser surpreendente sua prevalência no ambiente universitário, em que a reflexão deve prevalecer, mas onde parece haver um sentimento de vingança contra os corpos dos recém-chegados: eles devem sentir desconforto e dor, andar descalços, ter o rosto e as roupas sujas e arruinadas pela tinta, pagando com sua “alegre” humilhação o afeto dos que já cursam a Universidade. Vingança contra outras práticas de rebaixamento que são impostas aos estudantes em sala de aula?  

O trote não é exclusividade de alunos da UFSC ou da UDESC, mas prática bárbara espalhada pelo Brasil em versões mais ou menos ferozes. Mesmo em suas formas mais “brandas” ou “politicamente corretas”, mantém-se como dinâmica regressiva ao diminuir o outro a mero objeto para sabe-se lá que tipo de deleite. Correspondente à indústria do entretenimento, que sugere o gozo a partir do sofrimento próprio e alheio, o trote tem que ser criticado no contexto de uma sociedade que valoriza a dor como espetáculo. É por isso que não pode ser tolerado.  

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