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Espanador De Estrelas – Priscila Paula (1)

O espanador de estrelas

– chegou com o vento das oscilações –

Ivane Perotti

“A relação entre o pensamento e a palavra é um processo vivo: o pensamento nasce através das palavras. Uma palavra desprovida de pensamento é uma coisa morta, e um pensamento não expresso por palavras permanece uma sombra.” (Vygotsky)

Quando o caldo da in/consciência prevarica sobre o campo da consistência, a significação calça botas. Foi assim que ele chegou: embotado! Carregava na mão direita um espanador de cabo longo. O penacho da ferramenta empinava com presunção as desgastadas plumas. Um deboche à vida.

Não se julga o verbo. Julga-se a ação. Embotado, o espanador de estrelas pavoneava-se como biltre falastroso. Especialista no manejo do ódio, costurava à mão as relações de interesse próprio. Um ninho. Dois ninhos. Uma cava de corrupção.

Não lhe coube a métrica da ponderação. Negacionista, religiosista, pisou o discurso da decência. Decadência!

Instalou-se, tosco e insano: despudorado tirano, envolto em destruição.

Destituído de pensamento, destilava sombras por onde quer que dirigisse as falsas plumas: bravatas de um fantoche.

A denominação coubera-lhe no decorrer da sorte, inglória e imprópria sorte.  Declinou vidas, ofendeu a ciência. Aberta, a cornucópia de improbidades falseadas em metáforas de razão, abundejava. Abestalhava!

O caldo da inconsciência anestesia a palavra alheia, derrama a bílis da civilidade, mas não enterra a história sem pagar o custo da prevaricação.

Nesta prosa, as estrelas, varridas da Terra, caíram no céu. E tantas foram, tantas foram que, os cometas, até então ausentes, reuniram-se para perguntar:

_ De onde vêm?

_ Da Terra.

_ Mais especificamente?

_ De um país tropical…

_ Arrebatados?

_ Contaminados.

_ Pó de anjo?

_ Vírus.

_ Letal?

_ Capital.

_ Não encontraram a cura?

_ Há procura.

_ E vacina?

_ …chacina.

_ Não compreendo. Vocês são muitos…

_ Pó de estrelas.

_ Têm nome?

_ Números.

_ Endereço?

_ … Brasil.

Sob o céu daquelas perguntas, as antigas estrelas, encolhidas, uniram-se em choro. Rios de lágrimas cintilantes atravessaram, silenciosamente, o espaço sideral, enquanto os corpos celestes continuavam a chegar: aos pares, em trios, dezenas, centenas deles chegavam para ficar.

Rios de lágrimas transbordavam no espaço terrestre: a quantas mãos faz-se um funeral? Quem ia não voltava. A saúde maltratada, ao calvário a educação: compromisso do projeto escrito – dito.

Mantinha-se a inação no campo das ilusões: conspiração. Desacreditava-se do fato, tendo à frente o embotado espanador: homem sem glória, em desonra na história, cabo longo de falseador.

Sob o céu de estrelas subidas, as gentes não acordam do torpor criado e alimentado por falsas indicações. Acordam?

_ Uma gripezinha! 90% não sente nada!

As estrelas choram. Os brasileiros conscientes também.

Mas do lugar da vida, já se torna audível o nascimento da palavra!

Referência

VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.


Imagem de destaque: Priscila Paula

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