O debate público sobre educação 

Nos últimos 200 anos a temática da educação escolar tem comparecido de forma sistemática nos debates públicos sobre os projetos para o Brasil. Sobretudo após a instalação da imprensa, nos primeiros anos do século XIX, intensificou-se o debate público sobre as múltiplas possibilidades para os destinos do Brasil, ainda naquele momento sob domínio português. Desse debate, que se fazia pela mobilização dos mais diferentes tipos de impressos, participava a nascente classe política e intelectual que daria, nas décadas seguintes, os contornos e os rumos institucionais ao Estado e à Nação brasileiros. 

Desde esse momento inaugural nunca se deixou de apostar, em vários momentos de forma claramente exagerada, na importância da educação escolar para a construção dos destinos do povo brasileiro e do país que se queria construir. Nesse longo período que nos traz até a atualidade, a chamada “grande” imprensa – jornais, inicialmente, e depois o rádio, a televisão e as novas tecnologias da comunicação – foi transformada em empresa de notícias e de cultura de massa e concentrada nas mãos de umas poucas famílias.  

Ao lado dessa imprensa, os movimentos sociais, sobretudo o operário, mas não apenas, sempre tentou manter, a duras penas, uma imprensa alternativa que explicitasse, na cena pública, a presença de outros modos de ver e pensar o mundo e defender a sua transformação. Também aqui, a educação escolar sempre foi uma presença constante, ainda que menos para explicitar o seu potencial e mais para denunciar as mazelas em que se encontrava, quase sempre, a educação pública, muito mais prometida do que realizada pelo Estado Nacional. 

Dessas imprensas e desses modos de propor e realizar o debate – político, cultural, econômico, educacional … – no espaço público, participaram sujeitos individuais e coletivos mais diversos. Aqui, em que pese certos elementos, a multiplicidade de vozes foi uma constante, e é temerário reduzi-las a algumas poucas posições políticas canônicas, ainda que essa seja uma tentação que assalta continuamente os estudiosos e analistas do assunto. 

Esse fenômeno da pluralização das vozes no debate público da educação é perceptível de forma muito clara no Brasil nesse início de século. Mobilizados por um crescente entusiasmo pela educação, empresários, artistas, intelectuais, jornalistas, economistas e ativistas sociais os mais diversos, passaram a ocupar o espaço público numa exagerada defesa das potencialidades da escola para o desenvolvimento econômico do Brasil e para a diminuição de nossas escandalosas desigualdades. 

No entanto, conforme já foi denunciado aqui muitas vezes, desse debate estavam ausentes, de maneira injustificada, as/os principais artífices e estudiosas/os da escola brasileira: as/os professoras/es da escola básica e as/os pesquisadoras/res da educação. No entanto, o que temos visto nos últimos anos é uma crescente mobilização desses sujeitos, seja por meio de seus sindicatos, instituições de ensino e pesquisa ou das associações científicas, seja por meio de ações individuais, para participarem do debate público sobre a educação. 

É muito importante que os rumos da educação sejam debatidos no espaço público e, mais fundamental ainda, é que desse debate participem aqueles que por dever de ofício profissional e/ou acadêmico entendem mais do assunto do que a população que acessa a escola e, mesmo, aos demais profissionais que debatem o assunto. É alvissareiro perceber essa mobilização, ainda que sejam grandes os limites e constrangimentos impostos ao debate público pela concentração dos órgãos de imprensa e das concessões públicas de rádio e tv em alguns poucos grupos, assim como pelas formas de gestão transnacional das chamadas mídias sociais amplamente utilizadas pelos movimentos e ativistas sociais de todos os espectros políticos e ideológicos.  

Esperamos que 2017 seja um ano em que a defesa dos sentidos da educação no espaço público se faça cada vez mais baseada em princípios e valores da vida democrática, do combate às desigualdades e a todas as formas de opressão e discriminação e da própria garantia do espaço público de discussão. Mais do que isso, o que desejamos é que 2017 seja marcado também por iniciativas de integração e articulação das forças que defendem e praticam tais princípios. Se tal acontecer, 2017 poderá ser um ano a ser comemorado! 

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