O cai não cai da educação escolar

Aleluia Heringer Lisboa

O jogo Cai Não Cai é muito antigo e, mesmo repaginado, é produzido até hoje. É um tubo de plástico perpassado por varetas, com o intuito de segurar várias bolinhas. O jogo consiste em ir retirando as varetas, uma a uma, até todas as bolinhas caírem.

Esse jogo agora saiu do fundo de minha memória pelo paralelo que encontro com a escola. Refiro-me à escola tradicional, que herdamos do século XIX, com suas últimas varetas a sustentá-la.  

Perdemos a vareta da sustentação do professor como centro da informação, porém a bolinha não caiu. Temos consciência de que o professor é indispensável, porém não como um “burocrata da mente”, como escreveu Paulo Freire, mas como alguém que inspira e incita o aluno a fazer perguntas, a desconfiar da realidade posta.

Perdemos a vareta do livro didático como fonte, porém a bolinha ainda não caiu. Em uma recente escuta de trinta alunos do Ensino Médio, eles foram unânimes na afirmação de o quanto consideram o livro didático obsoleto. Pesa na mochila, é caro, nem sempre o professor usa e o mais grave, eles não sentem nenhum desejo de consultá-lo. Isso não significa que não querem ler, ao contrário, eles não se importam “em ler um documento em PDF de 90 páginas”, como disseram, mas querem ler aquilo que responde as suas dúvidas ou que traz uma informação relevante. Eles, antes da escola, falam de fontes e essas eles as têm disponíveis no aparelho eletrônico que muitos carregam no bolso. Podem acessar imagens, cartas, Wikipédia, o Museu do Louvre na França ou qualquer outra coisa ou assunto, de forma atualizada, nítida, e diversa, o que torna, realmente restrito, o universo do livro didático. Com tudo isso, não prescindem da presença do professor como aquele que orienta e valida essa busca.

Perdemos a vareta das relações hierarquizadas e verticalizadas como forma de dominação ou obediência entre as pessoas, seja entre alunos e professores e estes e a direção.  As crianças e jovens não hesitam em perguntar: por quê? Querem saber o valor que sustenta as normas e são sensíveis às incoerências das regras sem propósito. Querem entender. Agem pelo convencimento. Aí a competência comunicativa como pré-requisito para o que se diz autoridade. Mais do que nunca, o conhecimento estabelece as relações de poder. Já entre os professores, querem uma boa remuneração, mas não só isso, querem a possibilidade da autoria, de serem considerados e respeitados como sujeitos pensantes. Querem ser ouvidos e buscam espaço para proporem. Querem entrar na “ficha técnica” como coautores e não como elenco de composição.

Perdemos a vareta do ensino disciplinar e as bolinhas movimentaram-se, porém não caíram. Mesmo as Diretrizes Curriculares falando de Áreas do conhecimento desde 1988 e a Finlândia já dando os primeiros passos no ensino por fenômenos, insistimos em nos manter “cada um no seu quadrado”. Praticamente todos os grandes fenômenos ou temáticas que afetam a humanidade, bem como suas possíveis soluções, dependem de um pensamento complexo, multidisciplinar. Ainda assim, a escola insiste nos seus tempos e espaços isolados, com um ensino fragmentado. Lembro-me do meu filho quando, por volta dos seus 12 anos, chegou em casa e disse: “Mãe, hoje a professora disse que 80% do gado bovino…” Aí parou e perguntou: “O que é 80%? O que é gado? O que é bovino?” Uma série de informações fragmentadas e descontextualizadas que julgamos fazer algum sentido.

Por fim, perdemos a vareta da humanização e as bolinhas estão por um triz. Retiramos dos nossos currículos tudo aquilo que nos humaniza. Embrutecemos nossas crianças e jovens com um currículo árido, desprovido da Arte no seu sentido mais amplo e que abarca a música, a literatura, a poesia, o gesto poético, a dança, o teatro, as artes plásticas, os projetos, as iniciativas dos estudantes. Ainda é bem atual a afirmação de Jean-Claude Forquin quando diz que “de fato, por toda parte, é o instrumentalismo estreito que reina, o discurso da adaptação e da utilidade momentânea, enquanto que as questões fundamentais, as que dizem respeito à justificação cultural da escola, são sufocadas ou ignoradas”. 

As lideranças das escolas, as famílias e os professores podem e devem reinventar esse jogo, não aumentando o número de varetas de sustentação de uma estrutura caduca, mas tirando, quem sabe, a última vareta e assim, recomeçar o jogo. 

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