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Crianças Com A Bandeira Do Brasil – Rovena Rosa Agência Brasil

“O Brazil não merece o Brasil”

Eduardo Monteiro

“E pensar que soprávamos a vela do bolo e depois servíamos para todos da festa…”

“Os restaurantes self-service com toda a comida exposta…”

“O excesso de conteúdos escolares das diversas disciplinas sem sentido nenhum para uma educação básica…”

O Coronavírus nos coloca frente a algumas reflexões por causa do distanciamento social e dos hábitos que “sempre tivemos”. Espera-se, após o término da “quarentena”, muitas mudanças no nosso comportamento cotidiano.

Entretanto mais uma vez parece que não haverá mudança no que essa pandemia tem deixado ainda mais exposto: nossa desigualdade social e a mentalidade escravocrata em relação aos menos favorecidos.

Finalizado o distanciamento, terminada a pandemia, certamente mudanças virão no nosso comportamento, principalmente para os mais favorecidos. A população vulnerável socioeconomicamente continuará à margem, à sorte de Deus. Fica evidente a impossibilidade de um distanciamento social em favelas, aglomerados (o nome já diz tudo) e todos os espaços ocupados pelos excluídos do nosso país. A essas pessoas lhes são tirados os direitos humanos de viver com dignidade.

Não é apenas uma discussão de sistema econômico, capitalismo, socialismo ou comunismo, pois vários países capitalistas não tratam seus empobrecidos com a indignidade que tratamos aqui. O discurso neoliberal cai por terra nesse momento, pois a presença do Estado mostra-se imprescindível para o combate ao coronavírus e, por consequência, para a organização de um país. Mas há algo mais sutil que perpassa a cultura brasileira. É não enxergar os mais pobres com os mesmos direitos, apenas como serviçais das necessidades da elite. É não os enxergar como seres humanos.

Observemos o comportamento das escolas nesse período de “quarentena”. As particulares estão apelando para as tecnologias a distância. Videoaulas extremamente expositivas e conteudistas. As escolas públicas tentando o mesmo caminho, porém esbarrando na acessibilidade tecnológica dos menos favorecidos e da precariedade das próprias escolas. Fica exposto que esse modelo de escola que possuímos hoje está fracassado, pois para “encher” os alunos de conteúdos, a internet, com suas diversas aulas prontas, seria suficiente.

Mais uma vez, a desigualdade fica latente. Escolas públicas carentes de recurso e clientela socioeconomicamente vulnerável não têm como apresentar resultados favoráveis no processo de formação dos alunos. A escola particular engana melhor, pois apresenta plataformas virtuais para seus professores ministrarem aulas ao vivo ou para acesso oportuno.

Engana porque não é esse o papel da Escola. É certo que, nos tempos atuais, temos muito mais ferramentas para acessar o conhecimento. Mas a pandemia está nos mostrando que ser Escola é, antes de tudo, o contato presencial. As relações de convivência que nos ensinam, os conteúdos são acessórios para o processo de aprendizagem. Acesso ao conhecimento é fácil, difícil é saber o que fazer com ele. Nesse aspecto, a maioria das escolas tem formado ignorantes, sejam elas públicas ou particulares.

Temos visto várias pessoas “esclarecidas” com ideias ultrapassadas para tempos remotos da nossa história, o que dizer para o século XXI. A defesa da “Terra plana” não é chacota para entretenimento, existem várias pessoas que realmente acreditam. E são pessoas que passaram por bancos escolares “tidos e reconhecidos”.

O que nos é flagrante é a falta de um Estado para todos realmente. O Brasil não merece o povo que tem. O Brasil dito aqui como todas as suas instituições e seus poderes. Em defesa dos privilégios de um percentual pequeno da nossa sociedade, ignoramos a população como um todo. Aqui acreditamos desconfiando, a burocracia e a ganância das elites brasileiras são indecentes. Burocracia que cria “máfias” e ganâncias que destroem vidas em nome do lucro.

Temos um povo sem instrução, sem educação, miserável, que pensa na sobrevivência financeira como se fosse a sobrevivência da vida. Nossos instintos intrínsecos estão contaminados por uma história de descaso ao nosso país, da colonização aos dias de hoje. Não temos um projeto Brasil com políticas públicas que queira realmente acabar com a miséria e a acentuada diferença entre os mais e os menos favorecidos. Quando tivemos, foram paliativos e não transformadores de realidade como um todo.

Há muito temos uma Declaração Universal dos Direitos Humanos, 71 anos, criada no pós guerra, …”como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efetiva, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição…”

Nós estamos longe de alcançar os objetivos da DUDH, não nos preocupamos com todos. A história do Brasil é a história de uma elite que menospreza o povo como todo.

Aldir Blanc, recentemente falecido, nos deixou a reflexão:

“O Brazil não merece o Brasil,

O Brazil tá matando o Brasil…”


Imagem de destaque: Rovena Rosa/Agência Brasil

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