O afeto ajuda na aprendizagem ou faz parte dela? – exclusivo

Tiago Tristão Artero

Negar o afeto e as emoções significa negar o desenvolvimento humano e suas manifestações no âmbito cognitivo, biológico e social.

Falar do afeto no contexto escolar, ao contrário do que muitos podem pensar, refere-se à essência do ensino, ao motor da aprendizagem, às íntimas relações com as estruturas cognitivas. Assim referendam alguns autores que aqui cito no que concerne à imprescindibilidade do afeto no processo de aprendizagem, são eles: Vigotski, Wallon e Piaget.

Imaginar o afeto como algo presente somente na educação infantil, desprezando outras fases de aprendizagem, nada mais é do que a falta de conhecimento no que se refere a esse elemento indispensável no contexto de qualquer aprendizagem (formal ou informal).

Vigotski nos fala de uma integração dialética entre cognição e afetividade, portanto indissociáveis, mesmo com interpretações errôneas de sua teoria daqueles que separam em seus estudos o domínio afetivo do cognitivo.

A ênfase que notamos na obra Teoria de las Emociones de Vigotski nos aspectos biológicos das emoções, certamente deve-se ao fato de colocar em escaninhos científicos os processos afetivos que muitos julgam ser de âmbito subjetivo e, por isso, difíceis de serem comprovados. Ele não faz a fragmentação da aprendizagem em relação à afetividade, pois acredita que a base do pensamento é afetivo-volitiva, destacando-se a vontade de aprender com a aprendizagem de fato. Seguindo ainda este ponto de vista, o processo psíquico possui em sua formação sentidos subjetivos. A dinâmica dialética e monista pode ser embasada ao entendermos que o autor nos fala do mecanismo de que temos consciência de nós porque a temos dos demais. Por fim, este autor nos traz um conhecimento imprescindível quando considera a transformação das emoções ao afastar-se da origem biológica e aproximar-se de aspectos históricos e culturais no decorrer da nossa vida.

Wallon também valoriza o afeto ao dizer que as emoções são imprescindíveis às interações sociais, principalmente no que diz respeito ao contágio que as emoções produzem de um indivíduo em outro.

As emoções estão, para Wallon, entre os quatro campos funcionais que ele destaca, sejam “o movimento”, “as emoções”, “a inteligência” e a “pessoa”. Todos esses quatro campos associados e intimamente influenciáveis um pelo outro. Assim, para percebermos a inteligência, necessariamente passaremos pelas emoções. O mesmo ocorre com o movimento e a constituição da pessoa.

A função da emoção é social e desponta como imprescindível para a relação com o outro, bem como para a inserção do indivíduo em seu meio. É, diga-se de passagem, o primeiro recurso que a criança possui para interagir com as pessoas, note-se o choro do bebê que mobiliza todos que estão ao seu redor. Então, Wallon valoriza a emoção até mesmo para estruturarmos a linguagem e, consequentemente, a inteligência.

Já para Piaget, mesmo que a conduta seja algo valorizado em seus estudos, e essa conduta necessariamente relaciona-se com a inteligência, aponta que a afetividade e a Inteligência se complementam na compreensão desta conduta.

À vista disso, ao observarmos os estádios compostos por Piaget baseados na cronologia das idades, há também uma sequenciação a ser considerada relativamente à afetividade. Afetos instintivos, afetos intuitivos, afetos normativos e afetos relacionados aos ideais referem-se aos estádios sensório-motor, pré-operatório, operatório-concreto e operatório-formal, respectivamente. Essas subdivisões que se referem à inteligência, como atestado acima, possuem diferentes formas de afeto a serem manifestados conforme o período em que o indivíduo se encontra. Quando aventado a dúvida de que Piaget não discorreu sobre o elemento afetividade, o mesmo que sobre outros fatores relacionados à cognição, cabe-nos lembrar que, utilizando-se do modelo da biologia, prezava pelo uso das provas empíricas e considerava a afetividade como algo subjetivo, dificultando-se sua medição quando comparado às que realizou alusivas à inteligência.

De maneira inequívoca, chegar à conclusão de que todo desenvolvimento cognitivo é realmente dependente de elementos ligados às emoções, mais especificamente, ao afeto. O que não podemos, diante do exposto, é considerar as questões afetivas como aspectos secundários, pois, ora funcionará como gerador da vontade em aprender algo, ora fará parte da base do pensamento em sua face afetivo-volitiva. Ora significará uma aproximação das questões histórico-culturais de um indivíduo, ora acompanhará os estágios do desenvolvimento e da inteligência.

Entender essa dinâmica dialética não nos coloca em posição de dúvida acerca da importância do afeto e suas relações com a formação dos indivíduos. Termos consciência de nós por termos consciência dos demais, implica necessariamente uma relação que exige a existência do afeto.

Possibilitar o desenvolvimento da linguagem, também, impreterivelmente, produzirá mudanças qualitativas nos sentimentos. Estando a linguagem correlatada com o desenvolvimento do pensamento e ambos dependentes do que foi culturalmente aprendido, o desenvolvimento dos sentimentos acompanhará esse processo.

Como bem dizia Vigotski, um fator que nos separa dos animais é que estes dependem de um estímulo para terem uma reação e nós, humanos, podemos desencadear emoções a partir de diversas possibilidades, entre elas, uma simples lembrança. Assim o fez, analisando estudos de C. Lange, W. James, B. Espinosa, entre outros.

Isto posto, a emoção, como mediadora, liga a realidade à imaginação (esta relacionada aos momentos emocionais e ao pensamento realista).

O afeto se revela, baseando-nos em Wallon, na nossa fala, na “linguagem” corporal, nas gesticulações e nos movimentos como um todo. O afeto contagia, tanto positivamente, quanto negativamente.

Há argumentos suficientes, não meus, mas dos autores citados, para que os aspectos emocionais sejam valorizados de acordo com a real relevância que possuem. Negá-los significa negar o desenvolvimento da inteligência, da cultura, do “social”, das funções cognitivas e das possibilidades tanto de ensino, quanto de aprendizagem.

Retomando o título desta matéria, respondendo-o: o afeto faz parte da aprendizagem.

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