Entrememorias – Eletrônica

“Não minha filha, isso é curso pra homem”

Luciene Luvielmo Maicá

Nasci no dia 01 de março de 1977 como Luciene Luvielmo Maicá. Comecei a estudar com 6 anos no pré-escolar, o “Jardim”, chamado na época, na escola Instituto Cristo Rei que era localizada na cidade de Rio Grande, no estado do Rio Grande do Sul. Era uma escola particular renomeada e administrada por freiras e foi escolhida pelos meus pais por ser a mais próxima de minha casa. Nessa época vivíamos no Brasil economicamente o Plano Cruzeiro e a inflação chegava a 200% ao mês, mas mesmo com a crise financeira pude cursar até a 4ª série; no último ano nessa escola sofri um acidente que me marca até os dias de hoje: após uma semana de ter feito uma cirurgia no ouvido resolvi brincar com minhas amigas; uma brincadeira boba chamada “pendura na trave”; isso mesmo: trave de jogo de futebol. Como a trave era solta do chão, umaa segurava com o pé e as outras três (uma eu, claro) se penduravam e ficavam até o momento em que a amiga soltasse o pé. Acontece que duas das minhas colegas que estavam segurando a trave soltaram e eu fique sozinha com trave pesada. Então eu caí, e por sorte a trave não bateu em minha cabeça, mas esmagou 8 dedos da minha mão. A partir desse acidente as traves passaram a ser todas presas ao chão. Carrego os pontos da cirurgia como modo de recordar as “aventuras” mal sucedidas.

Devido à redução de um dos empregos de meu pai, em 1988 passei a estudar em uma escola pública, a Escola Estadual Juvenal Muller e por gostar muito de brincar de professora com meu irmão, meus pais viram a possibilidade de cursar o magistério na mesma escola onde eu poderia finalizar o ensino fundamental, que na época chamávamos de ensino de 1º grau. Lembro-me que prestei um teste de aptidão profissional para que pudesse cursar o magistério. Essa era uma das únicas escolas que necessitava desse teste para ingressar em uma das vagas. Em comparação com o ensino atual, sinto falta de algumas matérias que não são mais ministradas em nossa educação, tais como Técnicas Comerciais, Técnicas Domésticas e Ensino da Língua Francesa, que enriqueciam nossa cultura e ampliavam nossos conhecimentos em áreas que hoje não são aprofundadas.

Em 1988 teve um importante acontecimento na História do Brasil: foi promulgada a sétima Constituição da República Federativa do Brasil; lembro na época de ver meu pai passar noites estudando, mas não entendia porque, pois ele não era aluno de nenhuma escola; tempos depois fui entender que por ser formado em Contabilidade havia muita mudança na legislação e ele precisava se atualizar.

Os anos foram passando sem muitas lembranças marcantes até chegar o momento de tomar a decisão mais importante de minha vida naquele momento: a escolha de onde cursar o Ensino Médio, na época o 2º Grau. Eu poderia continuar a estudar na mesma escola e cursar o magistério ou acompanhar meus colegas e prestar o exame de classificação para o Instituto Federal de Rio Grande, que se chamava Colégio Técnico Industrial (CTI). A escolha foi pelo CTI no curso de Técnico em Informática (então Processamento de Dados); o curso foi escolhido pelo meu pai, mesmo eu querendo Eletrotécnica, ele dizia: “… Não minha filha, isso é curso pra homem…”; pensei até em me inscrever no curso sem ele saber, mas não fui corajosa o bastante; não entendia o porquê dessa limitação machista. Desde criança eu adorava desmontar e montar aparelhos eletrônicos, e ele até me incentivava me doando os seus rádios a pilha que não queria mais, por isso a minha surpresa, mas mesmo assim em respeito à orientação paterna prestei o exame para o curso de Informática e me classifiquei, mas somente eu da minha antiga turma; não queria continuar essa trajetória sozinha, mas não tive escolha.

No ano de 1993, comecei a cursar Informática no então Colégio Técnico Industrial e estes foram os anos mais marcantes de minha carreira acadêmica: um ensino médio integrado ao ensino técnico. Nossa! Aí veio o ano de 1994, um dos anos mais marcantes para a política, economia e tristezas: iniciou o Plano Real que está em vigor até os dias atuais, fazendo a moeda mais estável e consequentemente estabilizando a economia. Nesse ano um fato político marcante ocorreu na África do Sul: Mandela tomou posse sendo o primeiro negro presidente desse país, realizando uma das carreiras políticas mais lembradas; nesse mesmo ano perdemos algumas celebridades nacionais e entre elas Ayrton Senna da Silva, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (Tom Jobim), Antônio Carlos Bernardes Gomes (Mussum) e Mário de Miranda Quintana. O Brasil ficou mais empobrecido no campo do esporte, da arte, da comédia popular e da poesia.

Em 1996 precisei fazer uma pausa em minha carreira acadêmica: nascia a pessoa mais importante para minha vida: “Meu Filho William”; nesse ano me dediquei exclusivamente a ele. Retornei no ano de 1997 e enfim chegou a tão sonhada formatura no ano seguinte. Como a maioria das pessoas que se forma em cursos Técnicos não dei continuidade aos estudos: fui direto para a carreira profissional. Retomei a trajetória acadêmica somente em 2012, quando fiz uma Graduação na modalidade à Distância (EaD) e cursei Gestão da Produção Industrial; terminei esse curso em dezembro de 2014, mesmo não sendo a realização dos meus sonhos uma graduação no Ensino a Distância não tive outra escolha, pois o cargo que ocupava na empresa solicitava essa formação e eu não tinha horários disponíveis para realização de um curso presencial.

Para enriquecer minha carreira, em 2018 optei por uma “Master in Business Administration” (MBA) em Gerenciamento Lean, um curso “lato sensu” para aqueles que desejam aperfeiçoar os conhecimentos sobre a área da Administração e ter uma percepção verticalizada e global do mundo corporativo que envolve processos de gestão e de grande interesse de executivos e empresários. Estou ainda na pendência da realização do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Nesse mesmo ano meu esposo e eu decidimos prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) para voltar a estudar e apoiar a nossa filha na realização do seu primeiro ENEM. Neste ano, 2019, passamos no exame para o curso Licenciatura em Ciências Agrárias e aqui estamos, usufruindo de um dos cursos mais maduros e importantes em minha carreira acadêmica no Instituto Federal Catarinense, no campus Araquari.


Imagem de destaque: Pim Chu / Unsplash

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