Mudaram a regra ou mudaram o jogo? – exclusivo

Dalvit Greiner

Eu era alegre como um rio
Um bicho, um bando de pardais
Como um galo, quando havia
Quando havia galos, noites e quintais.
Mas veio o tempo negro e a força fez
Comigo o mal que a força sempre faz
Não sou feliz, mas não sou mudo
Hoje eu canto muito mais.
(Belchior, 1977)

 

10 dias de usurpação de um governo eleito pelo povo.

Sinto-me mal-ajambrado na roupa que me vestiram para essa festa VIP. Não fui eu que a escolhi: nem a festa, nem a roupa. Obrigaram-me a vir para servir de escárnio. Era preciso alguém para que pudessem pisar, ofender, humilhar. Obrigaram-me para que rissem na minha cara afirmando que o Governo não é coisa para os pobres. Há tempos, tive notícias de uma pichação no Chile de finais do governo Allende. Dizia a pichação: “Este é um governo de merda, mas fomos nós que o elegemos”. Que o nosso governo andava mal, todos sabíamos. Não é possível tirar tudo de uma vez a quem anda armado. Não era – e nem é – prudente fazer uma revolução armada nesse país. Ainda não. Então era preciso ir pelas beiradas, como bons mineiros. E com nosso governo eleito, nosso maior sonho era continuar uma Democracia onde os direitos fundamentais são ampliados ao infinito. A História é a história da luta pela ampliação, ao infinito, da Liberdade.

Em 1977, durante minha inocência adolescente e com dez pontos à frente do São Paulo, o Atlético-MG foi vice-campeão invicto, sem Reinaldo que, em pleno Regime Militar, comemorava seus gols com os punhos fechados dos Panteras Negras. O tribunal tirou Reinaldo do último jogo, o melhor jogador do campeonato, num julgamento adiado por conveniência em virtude de um cartão vermelho que recebeu no primeiro jogo. A sensação da perda foi grande. Tínhamos o melhor jogador daqueles tempos, o nosso Rei, Reinaldo. E perdemos o campeonato para um tribunal que resolveu julgar uma infração no momento mais conveniente. Não perdemos o jogo. E o outro time? Na filosofia futebolística de Rubens Minelli, o técnico do São Paulo, futebol é um jogo para homens, machos, grandes, musculosos e batedores: viva Chicão e Serginho Chulapa! Tome preparação física e um futebol truculento para pisar, literalmente, nos adversários. Nosso meio-campista Ângelo sentiu nas pernas essa tática e saiu arrastado de campo. Não teve o merecimento da maca. O juiz não deixou sequer entrar o socorro.

Lembranças de um atleticano chorão, não é mesmo? Sem problemas perder um título, jogando dentro das regras pré-estabelecidas e combinadas com todos. Mas, o que nós, meninos torcedores, não percebíamos, naqueles tempos de Regime Militar era que quem fazia as regras eram eles: a CBD do almirante Heleno Nunes que entregou o comando da seleção ao capitão Cláudio Coutinho. O povo jogava um jogo acreditando numa determinada regra e, de repente, ela já não valia mais. Era discricionária, era conveniente. E esse Rei fazendo gestos de Pantera Negra…

É assim que me sinto: não se pode contrariar a elite econômica brasileira. Ela, dona da bola, faz as regras com o jogo em andamento. Se não dá certo, como menino mimado, pega a bola, chama apenas os seus e monta outro jogo. Com todos os demais de fora. Se perde o jogo, ou corre o risco de perdê-lo, chama o tribunal para dar ares de legalidade a uma regra de sua conveniência. Nosso futebol é cheio de lições para a vida.

Roberto Da Matta já nos alertava sobre isso no seu livro Universo do Futebol: “Discutir futebol é, assim, especular sobre um jogo emoldurado pelo capitalismo, pelos ‘cartolas’, pelo dinheiro e tudo isso que sempre torna a vida amarga e injusta, mas é também argumentar sobre todos os dilemas, problemas e lances que a vida necessariamente nos faz experimentar independentemente de condição social”. Perder ou ganhar é parte de qualquer disputa. Isso é condição intrínseca em qualquer regra esportiva. E assim, Da Matta nos lembra que futebol e democracia tem muito em comum. Jogo, vitória, derrota e, até possivelmente, empate. Hoje vice-campeão, ano que vem campeão. Novo jogo. E assim vamos vivendo/jogando conforme as regras pré-determinadas e até mudando as regras, porém e sempre antes de iniciar novo jogo.

Volto a afirmar: perder não é o problema. Se tivéssemos perdido nosso projeto político nas urnas, no voto popular, dentro das regras a Democracia brasileira teria vivido a sua mais brilhante experiência. A troca de projetos pelo desejo do povo, legítimo e soberano detentor do poder necessário para promover suas vontades é o que existe de mais salutar para as instituições de um país que se quer democrático. Ninguém, por mais douto e sábio, por mais forte e esperto, por mais rico e bem armado, tem o direito de duvidar da vontade do povo. Por mais errado que este povo pareça estar. O povo tem o direito de ter o governo que merece. O governo que escolheu.

Chorei, com Reinaldo naquele vestiário, impedido de jogar pelo poder dos cartolas e pela conveniência de um tribunal. Choro, com Dilma em Brasília, impedida de jogar pelo poder de 61 velhinhos travestidos de juízes e pela conveniência de um tribunal. O povo brasileiro marcou um golaço em 2014, apertado pela defesa adversária, suando aos quinze do segundo tempo da prorrogação. Mas, resolveram que o povo estava impedido. O juiz não validou o gol. Perdemos, por enquanto.

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