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Entrememórias – Elaine Teixeira Pereira – Memorias Do Inicio Da Vida Escolar 1

Memórias do início da vida escolar (primeira parte)

Elaine Teixeira Pereira

A vida de Lia era uma vidinha. Vidinha de coisa pequena. Vidinha de centopeia menina. Centopeia com cem perninhas, cem pezinhos, cem sapatinhos…

Ao recorrer às lembranças do início da vida escolar, logo me veio a história da centopeia Lia. Era o primeiro texto do livro didático de Português, da então 2ª série do 1º grau e trazia a ilustração de uma centopeia verde, sorridente, de laço rosa na cabeça e que usava sapatos, muitos sapatos.

O primeiro contato com a história da Lia, no entanto, não havia me deixado sorridente. Ao contrário, minha expressão após retornar do primeiro dia de aula na 2ª série era a de uma menina bastante assustada com a tarefa de casa, pois era preciso “treinar a leitura” da centopeia. Isso porque havia um problema: eu não sabia mais ler! Ocorrera algo entre o final da 1ª e o início da 2ª série para que eu esquecesse como se lê? E agora?

Era uma noite quente de fevereiro. Uma noite bastante alegre (não fosse a terrível tarefa), pois tínhamos visita: meus tios e minha prima estavam lá em casa. O quase um mês que os três passavam conosco durante o verão era muito esperado. Eu ia a vários lugares com eles, havia muita conversa e risada em casa, comidas especiais, minha prima para brincar, meus avós mais contentes que o de costume. Enfim, uma alegria! O chato naquele ano foi voltar para a escola (minhas aulas começaram antes do carnaval e, portanto, antes do fim do clima de férias), pois tinha que me separar das queridas visitas por algumas horas.

Pois bem, voltando ao dever de casa… Minha tia deve ter percebido que eu estava angustiada e com todo o carinho me levou até o quarto, buscando ajudar a resolver o grande problema. Falei que não sabia mais ler. Então ela tomou o livro de minhas mãos e começou: A vida de Lia era uma vidinha. Vidinha de coisa pequena. Vidinha de centopeia menina… Foi um momento tão importante que nunca mais esqueci a Lia (nem a tia). Não lembro direito o que aconteceu depois, a não ser que ela foi passando o texto comigo, pouco a pouco. Acho que fiquei lendo sozinha por um tempo. O fato é que li tantas vezes a história da Lia naquele ano que acabei decorando-a. O resultado (um deles, ao menos) é que até hoje não esqueço do início da história.

Voltando ainda mais no tempo, vem à lembrança a minha primeira, primeiríssima, professora. Era o pré-escolar. Eu tinha cerca de cinco anos. A professora era uma moça linda, carinhosa e cheia de cuidados comigo. Busco, sem sucesso, as lembranças sobre o que se fazia no pré. Mas o ato de rememorar me traz apenas a sala de madeira, pintada de verde por fora. Por dentro, sem pintura. Somente a madeira escura. Os bancos, também de madeira e de cor parecida, eram feitos para comportar duas crianças por vez. Pareciam bastante antigos e tinham uma cavidade que, na época, eu não conseguia identificar a função. Hoje sei que se tratava do local para apoiar o tinteiro – apesar de já estarmos “na era” do lápis e da caneta. Essa sala era diferente das que frequentei depois, a partir da 1ª série, apesar de se tratar da mesma escola.

No pré, eu chegava sempre no meio da manhã, perto da hora do lanche, porque minha avó não gostava de me acordar cedo. Provavelmente devido aos meus constantes atrasos, não tenho lembranças sobre o que fazíamos na escola. Também não construí vínculos com as outras crianças. Aliás, nem mesmo lembro quem eram meus colegas.

De todo modo, eu estava lá. Frequentava o pré. Mas um dia algo ruim aconteceu: a professora nos contou que ia embora! Mas, como assim? Como ela ia embora? Fiquei arrasada. O desfecho da situação foi que o último dia de minha professora na escola foi também meu último dia no pré-escolar, pois me neguei a continuar frequentando a turma após a saída dela. Nem sei quem a substituiu. Não me interessou saber. O relevante era que minha professora tinha ido embora e, com isso, não havia mais motivo para ir à escola. Não sei como convenci meus avós sobre a pertinência da minha decisão. Pelo que me lembro, não fiz grande esforço. Talvez eles mesmos concordassem, não sei bem.

O resto do ano se passou e, no seguinte, entrei para a 1ª série. Fui, então, para uma daquelas salas feitas em alvenaria e pintadas com tinta clara. Estar na 1ª série significava que havia chegado a hora de aprender a ler e a escrever, algo sério na vida de uma criança: talvez a primeira grande responsabilidade da maioria das crianças que eu conhecia (apesar de sermos todas de famílias das camadas populares).

A vida na 1ª série foi interessante e diferente. Após minha breve e peculiar experiência no pré-escolar, foi aí que realmente passei a conviver de forma mais intensa em outro espaço, que não a minha casa. Foi o momento de aprender sobre as letras – que eu via escritas em vários lugares, mas até então não sabia o que significavam –, mas também sobre convivência com colegas, professoras e sobre como “me virar” passando tardes inteiras com aquelas pessoas um tanto estranhas, distante de minha casa e dos meus avós.

Estar na 1ª série me deixava alegre, mas também era um pouco difícil. Mas essa é outra história…

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