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Cleide Maciel – Memórias Da Escola 17

Memórias da Escola – 17

Cleide Maria Maciel de Melo

Minhas memórias do tempo vivido como aluna na escola primária, são fragmentadas. Esse tempo da infância – talvez porque já esteja tão afastado do presente, talvez porque seja marca das lembranças infantis – nunca me vêm à mente como uma “história com princípio, meio e fim”. As imagens se manifestam como “quadros vivos”: têm uma composição (gente, cor, lugar, luz) e uma emoção! Acredito que esse sentimento seja credor das lembranças… Assim, duas recordações me saltam à memória, neste momento. Não posso precisar suas datas: podem ter ocorrido entre o primeiro e o terceiro anos. Mas posso assegurar sua sequência.

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Algumas das regras para a vida na escola eram bem diferentes das que eu vivia na casa dos meus pais. Apesar do controle e disciplina exercidos por minha mãe – tomar banho, hora de dormir, rezar, roupa e sapatos certos para cada ocasião, beber óleo de fígado de bacalhau no inverno, numa lista que pode ser bem longa – não dependíamos de autorização para coisas bem prosaicas da vida. Se tínhamos fome e não era hora do almoço ou do jantar, sempre podíamos recorrer às frutas, à nossa disposição. Tínhamos cachos de bananas e sacos de laranjas, comprados por meu pai ou então, aquelas próprias de cada temporada, produzidas em nosso quintal: jabuticaba, manga, mexerica (a “enredeira”, porque não dava para esconder seu odor que impregnava nossas mãos) … Mais liberdade ainda tínhamos para atender a outra necessidade básica: ir ao banheiro. Não me lembro, jamais, de pedir aos meus pais – mais à minha mãe – autorização para isso!

Não sei bem ao certo o que me passou pela cabeça no dia em que fiz xixi dentro da sala de aula! Lembro-me de ver que outros colegas haviam pedido para “ir à casinha” e tiveram sua “reivindicação” negada. Não me recordo se a negação veio acompanhada de uma justificativa. Sei que tive medo, fiquei sem coragem de receber um não. Lembro-me bem quando tudo chegou ao limite das minhas forças. Eu estava sentada sozinha numa carteira dupla e uma poça de líquido quente se formou sob ela. Foi pouco antes do horário do recreio. Rapidamente, minha professora retirou todo mundo da sala de aula. Lembro-me de estar só… e aquela poça. Minha mãe contava que fora chamada para resolver o “problema”; minha memória apagou o que ocorreu logo a seguir. Se meus colegas me “zoaram”, não sei dizer, mas sinto que minha professora foi bastante discreta, mesmo que minha mente tenha capturado um certo olhar de susto em seu rosto!

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Outras regras eram como que extensão dos padrões familiares! Nossos boletins escolares traziam as notas que nos eram atribuídas a cada mês, discriminadas por conteúdos (entre eles a Religião, porque era um escola de freiras), Aplicação (se estávamos realizando a contendo as tarefas escolares) e Comportamento. Eu sempre “tirava” 10 nos três últimos itens. Mas, mesmo com resultados acima da média em Aritmética e Língua Pátria, esses sempre eram inferiores às notas conseguidas por alguns meninos. Então, havia uma disputa velada entre meninos e meninas. Disputávamos as notas, mas também os elogios, os destaques dos nossos trabalhos que eram comentados e/ou lidos pela professora, à frente de todos.

Foi numa dessas situações que a minha composição (nome dado às redações, na época) foi criticada pela professora. Ela tinha lido e corrigido todos os textos. Sentada à sua mesa, começou a chamar cada um de nós, o texto em mãos, as correções divulgadas – erros e acertos – comentários favoráveis e desfavoráveis dito à frente de todos. Tínhamos que levantar da carteira, ao término, chegar à mesa, pegar o texto e retornar ao nosso lugar. Não me esqueço nunca da raiva que senti pelas críticas ao meu texto, que julguei injustas. E, na frente dos meninos! Sinto o sangue ferver nas veias, até hoje! Levantei, peguei a composição, dei meia volta para minha carteira e, já de costas para a professora, embolei o papel e o joguei no lixo! Não me lembro de ter levado bronca maior, durante todo meu percurso escolar. De pé, a professora me fez apanhar o texto no lixo, desamassá-lo e guardá-lo em minha pasta. Novamente, não me lembro das palavras proferidas durante o “sermão” mas aquele olhar crispado de raiva pelo que considerou desrespeito, vive claramente em mim, até hoje!

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Do xixi na carteira ao texto embolado e jogado no lixo devem ter passado dois a três anos. A duras penas, fui aprendendo as regras do funcionamento da escola. Tão bem aprendidas que, mais tarde, quando professora, apesar de normalista, muitas dessas regras das quais discordei, “sobreviveram” na minha prática!


Imagem de destaque: Steve Johnson / Unsplash

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