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Memórias 3

Evelyn Mariana Alves da Silva

 

Menina curiosa! Dizia minha mãe, mal sabia ela que essa curiosidade me direcionaria a uma busca incessante por conhecimento. A escola era algo novo! Me lembro com clareza que estava completamente empolgada para o início daquela aventura, afinal, sempre me disseram que a escola é um lugar de se aprender coisas novas e que poderiaajudar ame tornar “alguém” algum dia.

Nos primeiros anos do ensino fundamental, a cada descoberta, desvendava o mundo de maneiras diferentes, desde a junção das sílabas para formar palavrasaté o encontro do inimaginável, aoembarcar no mundo literário de Monteiro Lobato, Vinicius de Morais, Cecília Meirelles e tantos outros autores. O amor à literatura surgiu através de uma professora que, por meio da incessante curiosidade e imaginação de seus pequenos raios de sol, como ela carinhosamente nos chamava, desenvolveu o primeiro livro de poesias infantis da escola (Livro Flores da Tarde Poesia). ¹

Apesar das dificuldades financeiras, a escola sempre concedeu liberdade aos professores para desenvolver projetos pedagógicos de incentivo ao ensino-aprendizagem dos alunos desde osanos iniciais. Até então, com um olhar infantil, acreditava que a educação era muito mais que um dever a se cumprir, era algomágico e eu fazia parte daquele conto!

Ao decorrer dos anos comecei a perceber que a magia cada dia mais ficava no passado junto à minha infância. Percebi através de experiências negativas, que a educação deveria não apenas fornecer os conteúdos, mas também formar cidadãos aptos para integrarem uma sociedade de modo que fizessem a diferença. No meu currículo escolar carrego muito mais do que um histórico de excelentes notas e de diversos destaques por desempenho, nele contém também uma criança/adolescente vítima de racismo, bullying e até mesmo agressões. Através de todas estas experiências, surgiu um desejo de entender etransformar aquele ambiente, no qual acreditava e que ainda acredito ser capaz de transformar uma sociedade.

Apesar das dificuldades enfrentadas durante meu ensino médio, dos julgamentos de colegas de classe e até mesmo professores (desmotivados com a realidade existente na área da educação e o descaso para com os profissionais) devido a minha escolha de me formar uma futura educadora, aquela curiosidade e aquela semente mágica plantada em mim, ainda nos anos iniciais, me motivaram a lutar pelos meus sonhos.

Terceiro ano do ensino médio e o conflito de uma jovem ter que se dividir entre o trabalho e os estudos. Minha realidade, apenas? Não, mas de milhares de jovens pelo Brasil afora. Com as raízes de uma família humilde, a minha luta para ingressar em uma universidade foi desesperadora, a ponto de quase perder a vida na véspera do Enem (a prova que acreditava ser o único meio de mudar a realidade que eu vivia. De me tornar “alguém” e talvez transformar a realidade de outras pessoas). Fui submetida a uma cirurgia de emergência, que por fim, a luta de uma vida, parecia não ter servido de nada. Confesso, quis desistir! Acreditei ser incapaz de conseguir a tão desejada vaga em uma universidade.

Em 2018, decidi retomar uma vez mais a luta para ingressar em uma universidade. Desta vez parecia ser ainda mais difícil, além de não ter condições de pagar um curso preparatório, já havia concluído o ensino médio. Estudei por conta própria, apesar de acreditar que meu desempenho não seria o melhor de todos. Para minha grande surpresa, passei em primeiro lugar no curso de Pedagogia daUniversidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) onde estou ingressada hoje, assim como também fui selecionada pelo Prouni e outras universidade particulares.

Atualmente concluindo o primeiro período do curso de Pedagogia, afirmo que vivo uma das experiências mais incríveis de toda minha vida. Acredito que a educação é o caminho para transformar uma sociedade desacreditada na mesma, que consolida um processo excludente e burguês do sistema de ensino brasileira.

Ao ler a obra do educador Paulo Freire, “Pedagogia da Autonomia”, encontramos a seguinte passagem:“A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca”. Assim, acredito que alegria a da minha conquista é um dos impulsos para progredir no processo deconstrução etransformação através da educação.


¹Livro Flores da Tarde Poesias (2007) – Projeto pedagógico interdisciplinar de incentivo à leitura e escrita. Escola Estadual Carlos Drummond de Andrade, direção Professora Ana Pereira dos Santos.

Este texto integra a série de textos resultantes do trabalho realizado pela professora Daniela Oliveira Ramos dos Passos com a turma do Núcleo Formativo I – 1º Período de Pedagogia (NF 1C) da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais (FaE/.UEMG).

Confira os outros textos da série:

Memória 1 – Escola

Memórias 2

Imagem de destaque: Joseph Redfield Nino / Pixabay

 

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