Mapas De Uma Avaliação Priscila Paula Ivane Perotti

Mapas de uma avaliação

cadáveres de informação não escalam montanhas 

 

Ivane Laurete Perotti

 

“Os estudantes são excluídos da busca […]. As respostas lhes são dadas para que as memorizem. O conhecimento lhes é dado como um cadáver de informação – um corpo morto de conhecimento – e não como uma conexão viva com a realidade deles.” (Ira Shor)

Ninguém iniciava a conversa. O professor, pressionado pelo medo e por um fugaz resquício de ousadia, decidiu-se pelo contexto. No precário quadro escreveu, em duas colunas: VIVER | MORRER. A linha traçada na vertical não separava as instâncias verbais, mas confessava o estado emocional do professor. Também morador da favela, sobravam-lhe dúvidas, apenas elas a formigar-lhe o pensamento matemático.

_ Nem tenta, professor… – raiva e dor acionaram o tombo sonoro. Uma quebra de voz na explosão da frase.

_ Eu… eu não sei o que fazer!

_ Chora!

_ Já chorei… estou chorando!

A confissão deu trégua à lei do silêncio.

_ Dá aí o conteúdo e… pronto. A gente copia… tá suavi!

Na equação das abundâncias linguísticas, o professor de matemática sabia que, ali, [sw’a.vi], nem de longe significava o que dizia. Reconhecia a imperiosidade dos fatos e a significação rigorosa dos pulos semânticos. Categorias gramaticais abrem-se como sementes fecundas no contexto da segregação, possivelmente animadas pelo instinto de sobrevivência. Adjetivos movem-se como as cordas da vida: ora com sentido, ora negando o valor jamais conquistado. Era assim na vida e na vida do pensamento: 5 e 5 não contavam 10. Nove deixavam lacunas, novos buracos na estatística das guerras. E disso eles entendiam.

_ Eu… talvez, a gente…devesse falar um pouco sobre o que está sentindo.

_ A gente não sente. A gente morre.

_ A gente corre.

_ Nóis nasceu tudo fu….

_ Não! Podemos

_ Nóis podi nada, ó profe. Cai na sua!

A sua, que era a dele, ceifara a confiança. Impróprio apresentá-la tão morta, tão nua. Mas já ardera em desejos de revivê-la, de tomá-la para si, tirá-la dos lugares comuns.

_ Temos um lugar em comum

_ Ah! Podis crê! Num temus!

_ Eu… eu quero aprender a.. quero aprender sobre confiança.

_ Nóis não confia em nada. A vida é podre!

_ Não é a vida… são as escolhas que fazemos.

_ Nóis não têm escolha. Tamu fu… já disse!

O professor perdeu o turno. Falar impessoalmente sobre escolhas, confiança, diferenças para aqueles adolescentes cicatrizados pelos mapas da guerra, correspondia à matança do verbo enquanto feto social. Havia uma conexão. Estava presente em cada rosto, em cada voz silenciada por tantas ações de entorpecimento. A ele, professor, cabia aceitar a inexistência da pedagogia neutra: para somar narrativas, a conta é da história;/ do extermínio também flui o peso da glória/inglória.

_ Vocês estão certos! Vamos começar do iníciose existir um!

Diante dos alunos e das várias carteiras esvaziadas à força, a voz do professor entornou-se capacitada no rigor motivado no contexto: barril de formações. Ele falou e ouviu. Ouviu e perguntou. Respondeu o que acreditava saber e interrogou os desconhecimentos. Criou laços de pensar: alguns tristes, outros inexistentes, outros esperançosos. Uma grande trilha de conversas tornou-se diálogo, desdobrou-se em ações de pesquisa, de mineração de conhecimentos. A escola enlutada revisitava a fonte do luto, removia as flores plastificadas, limpava os caixões caiados de intenções subjacentes. Sob o PISA e PISA e PISA das mãos des/letradas, escrevia-se o texto das ANAS de cara lavada, transitórias em suas avaliações analfabéticas. Precisas em revelar as maquiagens da máquina quebrada pelo adiantado da ordem social: marcas das ações pela não ação. O ato de pensar não vem atrelado ao desenho das letras e à conta nos dedos. Interpretar o mundo é uma das chaves para se fazer presente nele.

_ Tá! E agora, profe?

_ E agora, José? Hum… foi escrito em 1942, por Drummond, um mineiro de muitos sentimentos. Vale lembrar que…

 

 

REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Medo e ousadia – o cotidiano do professor. São Paulo: Paz e Terra Ltda., 2013.

Imagem de destaque: Priscila Paula

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