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Mais de 180 mil eleitores a favor – exclusivo

Dalvit Greiner

Não sei de quem são esses eleitores do título. Em quem votaram, por que votaram, em quais partidos votaram. Mas, são eleitores que, até o dia 10 de agosto de 2016, data em que escrevo essas mal traçadas linhas, haviam votado a favor do Projeto Escola Sem Partido do Senador Magno Malta. Imagino que boa parte são eleitores do próprio senador, na medida que essa é, também, uma estratégia de aferição da popularidade. Sei quais as razões de ambos os lados e o percentual que os números apresentam são perigosos. Meio a meio em política me cheira a uma guerra civil que, no Brasil de hoje, falta apenas ser mais bem declarada. Mas, segundo Thomas Hobbes, o desejo de guerrear já é guerra. O clima, desde as eleições presidenciais de 2014 é esse: Guerra Civil. Creio que estamos chegando no limite da polarização.

E aqui se instala o problema. Existem duas formas de fugirmos dele. A primeira delas é ganhando a guerra e aniquilando o inimigo. Passamos a ter um pensamento vencedor que, doravante, vai se impor ao vencido, se sobrar algum. Com aquele cuidado que, Max Weber nos alerta, o vencedor torna-se responsável pelo vencido. Um projeto vencedor que não inclui o outro venceu, mas não convenceu. Portanto, está fadado ao fracasso na medida em que o clima de guerra continua. Problema maior é quando o vencido não se rende ao óbvio: a força moral do vencedor, quando esta se legitima, numa democracia, pela maioria.

A segunda forma de fugir do problema é sentar e conversar. Negociar para reconhecer no outro um adversário portador de ideias, não um inimigo a ser aniquilado. Assim se vence e convence. Fugir do conflito, seja ele qual for, é uma resposta tão autoritária quanto qualquer outra que não valorize um mínimo de diálogo. Aquele que foge do conflito o faz apenas para se reforçar e voltar aniquilando tudo. Assim fez a nossa direita política que agora quer revanche. Não soube conversar, não soube reconhecer. Não sabe convencer. E o que é pior, transformou a todos em inimigos, inclusive os seus próprios eleitores.

O que tem de mais interessante em toda essa discussão sobre a Escola Sem Partido é justamente a falta de diálogo. Os debates que tenho presenciado são movidos a tanta fúria que tem nos amedrontado em cada encontro. Os debates não têm servido para educar o falar e o ouvir.  E aqui ouso apontar mais uma contradição: como não se tem construído espaço para o diálogo estamos perdendo a oportunidade de educar nossos oponentes. Não interessa para esta discussão de que lado estamos.

Falo isso do chão da escola. Esse número alto de gente a favor da Escola Sem Partido não está solto nas ruas. Imaginar que são apenas os pais que apoia essa sandice (apelei!) é não olhar para o interior de nossas escolas públicas. Muito professor e professora já pratica esse modelo “sem partido/com partido” de ensino em nossas escolas. Caminhe por aí e sinta a “laicidade” de nossas escolas: ela não existe. Sinta o currículo “desideologizado”: ele não existe. Sinta o projeto “apartidário”: outra falácia. Já se disse: estamos trocando uma por outra. E por quê? Porque sempre estaremos de um ou outro lado. Isso é humano! Então é preciso educar isso.

Como não nos educamos para isso criamos uma guerra. E guerra de consciência onde a tal “audiência cativa” vem sofrendo muitas e outras imposições. As festas populares de nossas escolas vêm se transformando em verdadeiros momentos de oração: professores evangélicos e carismáticos vêm ocupando esses espaços num proselitismo desrespeitoso com cantos, orações além de versículos espalhados em sala de aula, exercícios e avaliações. São mais desrespeitosos ainda quando falamos da religiosidade negra e indígena, também fundantes da nossa nação. Quando muito são toleradas como folclore. Percorrendo as escolas encontramos símbolos cristãos espalhados nos pátios, salas de professores, cantinas, salas de diretores, secretarias…

Desde que aprendi lendo o professor João Barroso, venho repetindo como um mantra: o que muda a escola é a formação, não a lei. Dessa maneira fico pensando que o debate acerca da Escola Sem Partido, ao tomar ares de guerra civil, vem perdendo a sua possibilidade de formação, de debate onde se convence e não de embate onde se vence. Essa possiblidade de formação vem sendo negligenciada pela Universidade e pelas Secretarias de Educação que não vêm promovendo, lá no chão da escola, maiores e outros encontros para conhecimento das religiões, da diversidade sexual, da pluralidade humana, da política partidária (por que não conhecer os partidos políticos) e da Política, essa ciência maravilhosa que nos ajuda a compreender o ordenamento social e também os desejos humanos. São mais de 180 mil eleitores com quem precisamos conversar, não brigar.

P.S.: 190.716 eleitores votaram contra  o Projeto de Lei do Senador Magno Malta.

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