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Supremacistas

Ku Klux Klan e a intolerância, uma história que deve ser lembrada

Daniel Machado da Conceição*

Quando falamos de racismo, podemos facilmente também acionar os termos preconceito e intolerância. Essas expressões, podem ser exemplificadas na Ku Klux Klan. A sigla “KKK”, pode parecer engraçada, mas infelizmente, não é! A história dos Estados Unidos, cheia de lutas e conquistas, guarda uma mancha de ódio, prepotência e intolerância. O fim do regime escravista colocou o desejo de liberdade dos Estados do Norte em oposição aos interesses dos Estados do Sul. A disputa era pela condição de continuar a tratar como propriedade, inúmeros negros que trabalhavam nas fazendas do Sul, contados como bens de produção que representavam o prestígio das famílias que os possuíam. Somado a esses interesses, também tínhamos o pensamento presente na época de um evolucionismo social, o qual idealizava a sociedade dividida em civilizados, bárbaros e selvagens. Portanto, os negros eram selvagens que precisavam ser domesticados, ou melhor, civilizados. O respaldo de tal pensamento, foi encontrado em algumas orientações religiosas que atribuíam aos civilizados a capacidade de ensinar e proporcionar a salvação para aqueles que não conheciam o Deus ocidental.

Os elementos apresentados de cunho ideológico, foram amparados pela ciência da época, calcada em valores de um determinismo biológico. Esse cenário formava o cotidiano das pessoas durante o século XIX nos Estados Unidos e em vários países ocidentais, inclusive no Brasil com pessoas contrárias e, outras muitas, favoráveis. A KKK, que surgiu em meados do século XIX, como uma confraria de amigos universitários que queriam diversão, logo passou a incorporar os ideais da época tornando-se um grupo etnocêntrico. Tal etnocentrismo, diz respeito a evocar uma cultura ou raça/etnia como central e superior a outra. Assim, a bandeira da KKK passou a ser a supremacia branca, uma luta contra as supostas perdas de privilégios, em razão dos negros começarem a ocupar os espaços públicos como escolas/universidades e, consequentemente, os postos de trabalho.

A KKK, valoriza o “White Power” (Poder Branco), e centra suas intenções no ideal de uma supremacia da raça branca frente as outras. Assim, os valores do século XIX que formavam a sociedade da época, foram novamente exaltados como verdadeiros e naturais, pois: os brancos são reconhecidos como civilizados e os negros como selvagens que degeneram a nação; e, novamente a religião serve para legitimar as ações, pois os membros da KKK são soldados/cavaleiros portadores do fogo que limpa o país da imundice. Esse discurso durante a história da KKK, não se restringiu apenas as palavras, muitos negros foram perseguidos e assassinados das mais variadas maneiras. Durante os anos de 1920, muitas atrocidades aconteceram, que culminaram com a morte de dezenas de cidadãos americanos afrodescendentes. A KKK, passou então a ser perseguida pelos órgãos do governo americano, e seus praticantes acabaram evitando as ações públicas e passaram a realizar reuniões privadas. Recentemente, na década de 1970, voltaram a realizar ações públicas de protestos e exaltação do poder branco. O discurso de intolerância antes adormecido, voltou a ser sentido com força e no século XXI, com a formação de uma nova geração de adeptos e seguidores da bandeira da KKK, a disseminação da intolerância contra aqueles que não se enquadram no modelo aceito como ideal voltou a ser sentida.

Essa situação norte-americana, deve ser lembrada e estudada. Embora, estejamos no Brasil, e podemos, por diversas razões, alegar não ter a necessidade de lembrar desses fatos distantes, inclusive, fisicamente pois ocorreram em um outro país. Porém, recordar os fatos da história da humanidade, seu lado mais sombrio, nos faz perceber sobre nossa capacidade de sermos intolerantes. Relembrar a KKK, não significa uma apologia ou sua exaltação, na verdade, mostra uma atitude de reflexão sobre o quanto como cidadãos podemos racionalizar nossas ações para o mal, algo contrário ao bem comum e ao reconhecimento da alteridade do outro.

Se faz importante falar sobre esse fato histórico, para que não entremos no caminho do racismo e preconceito, que levam a intolerância, centrada no reconhecimento de uma supremacia, no caso etnocêntrica. No entanto, também precisamos ter o cuidado para que no outro extremo, ao apresentar a KKK, não sejamos levados a encará-la como apenas mais uma parte da cultura norte-americana, um folclore, pois a violência e as atrocidades cometidas foram e são reais. Portanto, o passado, deve ser lembrado no presente, com o objetivo de alertar ou reorientar o futuro. Se formos cientes daquilo que a humanidade pode realizar a partir do preconceito e intolerância, temos uma chance de não voltar a repeti-lo.

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Texto produzido para colaboração na Feira de Ciências do Ensino Fundamental Anos Finais, nos dias 28 e 29 de agosto de 2015, no Instituto Estadual Educação – IEE, Florianópolis/SC.

* Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Educação/UFSC. Mestre em Educação pelo PPGE/UFSC (2015). Graduado na licenciatura (2013) e no bacharelado (2014) em Ciências Sociais pela UFSC. Integro o Núcleo de Estudos e Pesquisa Educação e Sociedade Contemporânea (NEPESC/CED/UFSC). Atuação como Professor de Sociologia no Ensino Médio Regular e EJA, Educador Social, Tutor à Distância e Conteudista para programa de capacitação profissional. Bolsista no Programa de Bolsas Universitárias de Santa Catarina UNIEDU/Pós-Graduação.


Imagem de destaque: Duas crianças usando trajes da Ku Klux Klan ao lado do Dr. Samuel Green, Grande Mago dos Cavaleiros da Ku Klux Klan, em uma Cerimônia de Iniciação em Atlanta, Georgia. Julho de 1948.

 

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