Jogar, lutar e estudar como mulher! – exclusivo

Aleluia Heringer Lisboa

As atletas brasileiras ganharam destaque na mídia nos Jogos Olímpicos 2016, pela demonstração de força e garra. Lutar e jogar como mulher ganhou um tom imperativo, ao mesmo tempo irônico. No subtexto, um recado para os atletas do time masculino. O destaque, apesar de, inicialmente, passar como elogio, denota que esses atributos não são “naturalmente” femininos e nem o esperado.

Alguns estudos da história da educação nos ajudam a entender este movimento. Não é exagero dizer que ser forte e valente extrapola o script social e historicamente inscrito nos corpos das meninas ao longo de várias gerações. O título da tese de doutorado de Eustáquia Sousa, por exemplo, traz aquilo que estava prescrito pelos inspetores escolares, em Belo Horizonte, no início do século XX, na disciplina “gymnastica”: “Meninos, à marcha! Meninas, à sombra! ”.

Compêndios de jogos que foram referência para professores ao longo de décadas ensinavam os jogos para meninos e para meninas. Para eles era demandada a utilização de jogos com estratégias; que exigiam espaços maiores para a movimentação mais ampla, além do envolvimento de grandes grupos musculares. Os nomes dos jogos invocavam a virilidade, além de exigirem ousadia. Para as meninas, jogos de imitação, principalmente das tarefas domésticas ou do universo maternal; realizados em pequenas áreas, com pouca movimentação exigida, além de não haver a necessidade de pensar estrategicamente.

No Brasil, até bem pouco tempo atrás, também não era esperado que a mulher se destacasse por sua cultura, muito menos que fosse intelectual, escritora, juízas, presenidentes(as) ou pesquisadora. 

Em 1890, nos registros da primeira instituição de ensino secundário de Minas Gerais, o Ginásio Mineiro, consta apenas uma mulher inscrita. Seu nome era Maria de Magalhães Gomes. Quem era aquela menina? Talvez entre 12 e 15 anos. O ensino secundário a conduziria ao ensino superior e esta não era uma opção dada, sem entraves, às mulheres. Havia uma interdição por parte da sociedade e da cultura da época. Da mulher, esperava-se o casamento, o zelo pelo lar, marido e filhos.

Entretanto, a partir de 1900, observamos, em nossa pesquisa de mestrado, um aumento gradativo de registros de alunas. Em 1901, um decreto conhecido como o Código Epitácio Pessoa, determinava que as mulheres pudessem ingressar no curso superior. Ainda assim, o decreto dizia: “é facultada a matrícula aos indivíduos do sexo feminino, para os quais haverá nas aulas lugar separado”.

 

Chegamos à década de 30 e constatamos que muitas concluíam o Curso Normal. Ser professora era um grande prestígio. Para fazer justiça à conquista, a formatura era cercada de muita cerimônia. O magistério, considerado o curso mais próximo da função de “mãe”, era mais procurado pelas moças, o que não significava que todas as estudantes fossem exercer a profissão ao se formarem. Muitas se contentavam apenas com o prestígio do diploma e a chamada “cultura geral” adquirida no Curso Normal.

 

O tempo passou. Na década de 50, o ingresso nesse mesmo ginásio, já bem mais concorrido, era pelo temido exame de admissão. Tive o privilégio de entrevistar Aloísio Pimenta, renomado ex-professor dessa instituição, agora renomeada Colégio Estadual de Minas Gerais. Ele me disse: “as mulheres estudavam muito e conseguiam passar, mas em número muito reduzido, restrito. Havia um número muito maior de alunos do que de alunas”. Entravam em menor número, pois se saíam pior? Procurei nos registros da escola, quantas mulheres se inscreviam e quantas conseguiam ingressar. Constatei que, em termos proporcionais, as mulheres se saíam iguais ou melhores que os homens. Isso demonstra que o número reduzido de mulheres não era por falta de competência. Antes do exame, era preciso vencer a barreira familiar, cultural e social, principalmente por se tratar de uma escola mista, laica e libertária para o padrão da época.

Saltamos no tempo e constatamos que as mulheres não se acomodaram. Em 2015, na UFMG, elas respondiam por 53% das inscrições nas graduações e 58,5% na pós-graduação. Essa retrospectiva histórica de 126 anos demonstra a resistência das mulheres que se reinventaram e continuam se superando a cada geração, seja no Brasil ou em outra parte do mundo. Para isso, assumem várias jornadas que podem ser conhecidas ao ouvirmos suas histórias amiúde, que acontecem no silêncio das casas, nas escolas ou nos ambientes de trabalho. Algumas vezes esse silêncio é rompido, como no bravo exemplo da menina de 15 anos, a paquistanesa Malala Yousafzai, baleada pelo Talibã em 2009, por defender o direito à educação para as meninas de seu país.

 

Conquistamos diversas instâncias e setores da sociedade, entretanto, ainda faltam muitos outros, sejam simbólicas ou concretas. Em decorrência disso, a UNESCO, traçou 17 objetivos para o desenvolvimento sustentável (ODS), esperados para os próximos 15 anos, tendo o de nº 5: “alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas”. Não se trata de disputa, mas do reconhecimento de que são necessárias iniciativas e políticas que favoreçam a igualdade de condições, o acesso à educação, ao emprego, a salários, à saúde, entre outros.

 

Buscamos as mesmas oportunidades e desejamos que as nossas diferenças, em relação aos homens, deixem de ser vistas como deficiências ou incapacidades. O problema não é ser “bela, recatada e do lar”, mas, sim, considerar isso como determinação social, destino e único valor. Podemos ser corajosas, valentes, companheiras, intelectuais, parceiras, amigas, interessantes… e por que não belas? Vamos juntas. Nem à frente, nem atrás.

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