Ivane Perotti – Incapacitados Para O Silêncio

Incapacitados para o silêncio

Ivane Laurete Perotti

 

 

_ Silêncio!

_ Shhhhhhhhhhhhhh!

_ Xiiiiiiiiiiiiiiiii!

O sol toma solto o dia que avança. O horário das aulas intercala momentos de extremo caos com caos a todo o momento. Nesgas de silêncio não ganham espaço no auge daquelas vidas: celulares à mão, lembram o homo erectus em busca de comida. E é “comida” a palavra que melhor recorta as buscas que se expressam sem definição. Busca-se por um alimento em grande oferta no mercado das informações. Servidas em pratos quentes, salteadas com óleo em fogo alto, chegam à mesa dos comensais atendendo a todos os gostos.

_ Silêncio! Vocês não querem aprender?

_ Nós aprendemos…

Todos sabem um pouco de tudo sem saber um pouco de qualquer coisa. O trocadilho empobrece a cena, mas reforça a deixa: no contexto que faz aflorar tantos dizeres, quem padece é a palavra. Despida, violada em sua etimologia mais rasa, não acumula o carbono da semântica 14 – distante a possibilidade de pensar a palavra como signo marcado pela subjetividade e a ela subordinado. Melhor: acumula o uso disseminado de uma ideologia não verificada, perigosa ideologia da neutralidade. Somos a sociedade da reprodução lexical. E se isso fosse simples, a lógica linguística parabenizar-se-ia pela luxuriante reprodução. Não é simples: é complexo e solitário o conversar entre as gentes.

A maior disputa aparece em sala de aula. Um professor contra os prazeres da mídia do entretenimento. Uma escolarização precária contra os instrumentos de motivação atingindo a todos os sentidos que Aristóteles não poderia prever.

_ Silêncio!

A trama da informação considerada necessária – currículo escolar – e a urgência da informação nova, rápida, superficial, contagiante, viciante – mídias – elegem estratégias épicas no combate ao lugar e à vez. Quem vence? Ninguém! Alforriados pelo alfabeto básico (mínimo?), vorazes pelo “viralizado” momentâneo, incríveis criadores de “memes”, segregam-se dos forasteiros deveras ingênuos e encarquilhados que procuram sentidos tal qual o dito que procurava “chifres em cabeça de cavalo”. Alguém ainda imagina que celular é telefone? Telefone? Nem!?

A velocidade engoliu o tempo e nos deixou eunucos de palavras.

_ Silêncio!

_ Professor, chega de pedir silêncio!

_ Eu quero a atenção de vocês!

_ Estamos atentos!

_ Agora é aula! Au-la! Larga o celular!

_ Professor, a gente consegue fazer tudo ao mesmo tempo.

Correção: estamos eunucos, mas não de palavras. Estamos eunucos de sentidos, de saboreamentos, de silêncios apreciáveis ao pé do ouvido do mundo.

Enquanto guardamos no bolso da memória algumas poucas combinações alfabéticas capazes de nos manter ativos na teia das informações fugazes, acreditamos saber muito de tudo e seguimos analfabetos da vida – quando não da própria língua.

*Este texto é um dos empuxos provocados pela boa vontade de um Professor de Experiências e a leitura do BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Tradução de João Wanderley Geraldi, Revista da Unicamp nº 19, 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n19/n19a02.pdf e ACESSADO TODOS OS DIAS.


Imagem de destaque: Maria Krisanova / Unsplash

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