Brasília- DF. 13-11-2018- Comissão Especial Escola Sem Partido. Foto Lula Marques

Fácil explicação

Dalvit Greiner de Paula

Não é difícil explicar certas coisas do Brasil para a meninada que nasceu depois do ano dois mil. Tem sido fácil explicar o regime militar instalado em 1964. Crime de opinião e fakenews também são bons exemplos. Difícil tem sido explicar para aqueles poucos pais que aparecem na escola e, pasmem, para professores e professoras. Quando digo que nossa principal batalha contra a Escola Sem Partido é no chão da escola, sinto que estou dizendo algo inacreditável. Como assim, diriam adolescentes.

A disputa pelo espaço público se inicia naquilo que é a primeira experiência de público para uma criança ou um adolescente. Nossos estudantes saem de um espaço privado onde reinam com muita tranquilidade. Dividem o espaço, em média, com mais um irmão. Mesmo numa pequena casa de periferia há um espaço muito individualizado para a criança ou o adolescente. O temível quarto onde adolescentes desaparecem em seus computadores miniaturizados, os celulares. Portanto, a noção de privado é muito forte na cabeça de nossos estudantes. Muitas vezes, erroneamente, confundem isso com liberdade. Podem fazer o que quiserem naquele espaço e têm o mundo no aparelho ou no computador.

Ensinar o que é o espaço público, deixando claro que é um objeto de disputa, tem sido mais fácil na medida em que o acirramento das tensões políticas do último ano vem fornecendo farto material para debates em sala de aula. Ao colocarmos questões como o pouco tempo que a maquinaria escolar existe no mundo e no Brasil e, ao mesmo tempo, corre sério risco nas mãos dos atuais governantes inflamam os estudantes. O debate é aquecido pelas informações que, em geral, peço-lhes para que conversem com seus pais e avós. Voltam surpresos quando sabem que os pais e avós não tiveram a oportunidade de que dispõem. São surpreendidos com o fato de que o FUNDEB é o fundo garantidor da gratuidade para a educação básica – dos seis aos dezessete anos – foi criado há apenas doze anos e já querem acabar com ele.

Com certa facilidade e muita dor tem sido fácil explicar o buraco que o povo brasileiro se meteu. Os estudantes tem percebido o processo de precarização da escola pública e também de suas vidas na periferia. Tem percebido, com muita facilidade e muita dor, as contradições de nossos governantes. Tem percebido a queda na qualidade da assistência que recebem.

A Democracia é contraditória. O respeito pela Democracia nos obriga a aceitar os atuais governantes e, ao mesmo tempo, fazer-lhes a oposição. Se antes, nossos estudantes ficavam felizes com as paralisações de professoras e professores hoje demonstram muita preocupação. Estudantes que pretendem fazer o ensino técnico no CEFET/MG ou no COLTEC-UFMG temem que essas instituições possam não existir daqui a pouco. E assim, vêm percebendo o atraso que foi o regime militar na vida dosbrasileiros e as semelhanças do atual governo com aquela ideologia. Vem percebendo as diferenças entre uma mentira e um falsa notícia – ou pós-verdade, como queiram. Vem percebendo que certas coisas são fáceis de explicar e muito difíceis de aceitar.


Imagem de destaque: Lula Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *