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Estátuas no contexto educativo: ignorá-las ou (re) significá-las?

Ivangilda Bispo dos Santos*

Mariana Rabêlo de Farias **

Nos últimos anos, o Brasil foi palco de algumas manifestações envolvendo estátuas que chamaram a atenção da mídia: a pichação do símbolo da suástica nazista na estátua do artista Benjamin de Oliveira, em Pará de Minas (MG), os constantes atos de vandalismo contra a estátua de Iemanjá, em Natal (RN), e as intervenções com tinta vermelha jogada no Monumento às Bandeiras, em São Paulo (SP), relativa à demarcação de terras indígenas e quilombolas. Enquanto algumas mobilizações atuam em prol de perspectivas racistas, outras reagem contra estátuas que simbolizam a opressão racial e colonial. Estas ações demonstram o incomodo social em relação às determinadas representações de indivíduos, e aos grupos que eles pertencem ou são associados, e, por outro lado, a necessidade de estátuas que remetam a sujeitos e grupos sociais invisibilizados ou marginalizados.

Desse modo, vemos em nossa sociedade elementos que materializam uma determinada memória acerca do passado, isto a partir de escolhas políticas que definiram o que e quem deveria ser homenageado e, conseguinte, quem seria esquecido e silenciado. Durante um determinado período pareceu oportuno homenagear traficantes de pessoas escravizadas, por exemplo, no entanto, cabe hoje nos perguntarmos: estas homenagens ainda são plausíveis? Condizem com os valores de nossa sociedade? Esta é a memória que queremos perpetuar?

Aos professores e professoras cabe interpretar as referências sócio-históricas junto com aos/as estudantes, como uma forma de facilitar a compreensão dos significados e sentidos de determinado patrimônio. Como afirma o historiador José Newton, nem sempre o monumento tem uma função memorial explícita. Nesse sentido, a análise realizada pelo/a mediador/a deve extrapolar a dimensão da homenagem e estar pautada na complexidade das dinâmicas sociais que envolveram o momento de fundação da estátua, assim como a relevância da mesma na atualidade, atentando-se para as relações de poder e as memórias coletivas que estas exaltam, subjulgam ou ignoram.

Em Moçambique, por exemplo, após a conquista e proclamação da independência nacional, em 1975, algumas estátuas ligadas ao contexto colonial foram retiradas de locais públicos, realocadas e/ou substituídas por outras que representam sujeitos considerados relevantes para a história nacional, como a de Samora Móises Machel (1933-1986), primeiro Presidente de Moçambique.

Estátua de Samora Machel. Foto: Ivangilda Bispo dos Santos.

Em 2014, a estátua de António de Oliveira Salazar (1889-1970), líder do regime ditatorial do Estado Novo português, estava localizada de frente para parede, “de castigo”. Este monumento estava situado em uma rua sem saída próxima à Biblioteca Nacional de Moçambique, na Av. 25 de Setembro, na capital do país, Maputo. O poder simbólico da localização da estátua de um dos principais estadistas que conduziram o violento processo de colonização em África, talvez cause um impacto maior do que a sua inexistência. A construção de novas representações e o processo de realocação e ressignificação de estátuas foi uma opção reflexiva, crítica e educativa adotada na capital moçambicana.

Estátua de António de O. Salazar. Foto: Ivangilda Bispo dos Santos

As fotos das estátuas de Antonio Salazar e Samora Machel podem ser usadas como elementos de reflexão relacionados ao colonialismo e aos movimentos em prol das independências nacionais, ocorridos em meados do século XX, envolvendo Portugal e suas antigas colônias. No contexto escolar brasileiro, esta iniciativa pode ser elaborada de forma integrada com a Lei N.º 10.639 – que aborda o ensino de história da África – e algumas competências propostas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), no que diz respeito às Ciências Humanas e Sociais aplicadas no Ensino Médio. Este documento aborda, entre outras questões, a análise de fontes, como as relativas à cultura material, a complexidade das dinâmicas históricas, a formação dos Estados nacionais, as relações de poder, e também aponta o desenvolvimento de práticas que trabalhem conceitos como memória, identidade, sociedade além do combate aos preconceitos e críticas às tipologias evolutivas.

Os movimentos sociais que envolvem estátuas estimulam os educadores e educadoras a não ignorarem a relevância social do patrimônio cultural – em sua vertente material – e estimula nosso posicionamento sobre as demandas por representações que podem somar para alcançarmos uma reparação histórica relacionada à representatividade no campo simbólico. Por meio da mediação educativa, o uso de fontes variadas e da contextualização histórica, é possível abordarmos de forma adequada questões sensíveis associadas à memória coletiva. Ressaltamos, por fim, que conhecer os bens culturais que possuímos é tão importante quanto lutarmos por novos bens que reflitam as demandas sociais ligadas ao nosso legado histórico e nossa memória identitária.

* Historiadora e Mestranda em Educação: Conhecimento e Inclusão Social pela UFMG.

** Historiadora e Mestranda em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável pela UFMG.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Acesso em: 10 de jul. de 2020. p.571-579.

MENESES, José Newton Coelho. História & Turismo Cultural. 1ª ed., 1ª reimp. – Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

 

 

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