Era uma escola muito engraçada… – exclusivo

Aleluia Heringer Lisboa

Lembram-se da música do poeta Vinícius de Moraes – “era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”? Pois, então, tentei compor uma paródia, utilizando a palavra “escola” no lugar de “casa”, mas não deu certo. Fiquei imaginando que essa escola muito engraçada não tinha “escola”, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não, porque a escola era ficção. A escola, dessa forma, não tinha gente, partido e nem chão. Era feita com muito esmero e daria muito certo na cabeça daqueles que não sabem o que é, de fato, uma escola.

A escola de verdade, dessas a que a gente vai todos os dias, tem conflito de ideias, busca pelo saber e entre os amigos se discute desde a notícia do dia até religião. Ela se parece com uma grande estação de trem, onde os encontros e desencontros acontecem. A todo momento você esbarra e se vê de frente para o outro, seja ele professor ou colega. Eles, assim como você, trazem as marcas de suas histórias, de sua cultura familiar, religião, orientação sexual, posição política, formas de se alimentar e de viver.

Vamos, nesse burburinho, encontrando nossa tribo, nos aproximando daqueles com maior afinidade. Na escola prevalece o “outro” e é com ele que é preciso compartilhar espaços, projetos e anos de vida. Quanto mais heterogênea, quanto maior o número de posicionamentos antagônicos, colorida e diversa, maior a exigência intelectual, melhor o aprendizado. Escola é onde se aprende a elaborar, conectar, analisar, ver e a escutar com respeito e tolerância a forma de ser do outro. Esses são traços de refinamento e civilidade.

No mundo das ideias, das coisas e da escola, há lugar para todos. Na escola a aula é planejada, entretanto não há como prever a multiplicidade de interações advindas daí. Não se controla o que alguém irá falar, como o outro irá ouvir, ou os sentimentos que irão emergir. Uma boa escola, no final das contas, é aquela que, além de ensinar sobre grande parte do acervo das ciências da natureza, humanas, linguagens e matemática, ensina e exige a tão rara competência social sobre o Ser e como se relacionar.

Ao notarmos a agressividade e o destempero com que as pessoas se relacionam, é possível mensurar a relevância desse ensino. Quando nosso jeito de ser e de viver passa pela escola da pluralidade, da diversidade e, também da adversidade, temos maiores chances de nos tornarmos seres mais humanos e qualificados socialmente. Devemos ser capazes de estar, com elegância, em todos os lugares, com diferentes tipos de pessoas e de ideias. O que precisamos combinar é que sempre vale perguntar e duvidar, nunca constranger, impor, oprimir ou humilhar. Todos têm o direito e, sempre, somos “o outro” de alguém.

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