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Florestan Fernandes Em Conferência No Museu De Belas Artes (1964). Arquivo Nacional

Entre a submissão e a rebeldia: o papel do professor em Florestan Fernandes

Jackson B. da Costa*

Virgínia Pereira da Silva de Ávila

“Odeio os indiferentes. Viver quer dizer tomar partido. Indiferença é apatia, parasitismo, velhacaria, não é vida. Por isso odeio os indiferentes”. Esta passagem é de autoria do filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937). Foi escrita no ano de 1917, ano da Revolução Russa, e publicada no livro Odeio os Indiferentes (2020) pela editora Boitempo. Embora escrita em outro contexto, esta frase bem que poderia ser atribuída ao sociólogo brasileiro Florestan Fernandes (1920-1995), apresentando seu pensamento sobre papel do professor na sociedade brasileira.

Suas ideias a este respeito foram recentemente publicadas no livro A formação política e o trabalho do professor (2019) pela editora Lutas Anticapital. A obra escrita é fruto de uma palestra de Florestan Fernandes, que originalmente foi publicada no livro O Desafio Educacional (1989), mas encontrava-se fora do mercado editorial. Nele, o autor fala sobre o papel político que os professores eram instados a ter diante dos desafios e dilemas colocados para a educação brasileira daquela época. O contexto histórico e social era o de redemocratização da sociedade brasileira e de luta por uma educação pública, gratuita e de qualidade. Entretanto, embora o texto tenha localização histórica precisa, possui característica atemporal para pensar os dilemas da educação brasileira hoje, o que faz dele um clássico.

Desde cedo, Florestan Fernandes viveu as agruras da vida de quem é pobre no nosso país, filho de uma empregada doméstica, trabalhou como engraxate e garçom antes de ser um acadêmico reconhecido no Brasil e no mundo. A ponto de o historiador inglês, Eric Hobsbawm, o considerar um dos dez maiores sociólogos do seu tempo, dada a magnitude de temas e riqueza teórica e intelectual de sua obra. Como acadêmico, conheceu a sociedade brasileira como ninguém e, munido dessa visão, foi um dos grandes defensores da escola pública de qualidade e universalização do ensino no nosso país.

Florestan Fernandes esteve interessado em promover uma verdadeira revolução educacional, dentro de um quadro teórico marxista que destacava a centralidade da luta de classes numa sociedade cindida e subdesenvolvida. Assim, enfatizou o papel político da escola na promoção da emancipação dos sujeitos e na construção de uma sociedade democrática. Para isso, recorreu ao conceito de mudanças antecipadas, em que as mudanças ocorrem primeiro na instituição e podem avançar em relação à transformação da sociedade global, conceito muito próximo ao de hegemonia em Gramsci. É dentro desta problemática que Florestan pensa a relação entre a formação política e o trabalho do professor.

Para ele, o trabalho do professor está envolto de implicações políticas naquilo que ele faz ou deixa de fazer, devido ao fato de estarmos numa sociedade desigual e marcadamente subdesenvolvida, algo bem diferente de um professor que leciona em uma sociedade mais igualitária. Neste sentido, reafirmamos que não é possível conceber uma experiência pedagógica desculturalizada, isto é, desvinculada completamente das questões culturais da sociedade, como aponta Vera Candau em artigo intitulado Multiculturalismo e educação: desafios para a prática pedagógica, publicado em 2013.

No entendimento de Lilia Schwarcz, no livro Sobre o autoritarismo brasileiro (2019), a experiência educacional brasileira tem raízes socioculturais ligadas a um passado de colonização e subdesenvolvimento: a escravidão, o racismo, o patriarcalismo, o mandonismo, a violência, a desigualdade, o patrimonialismo, a intolerância social, que são elementos teimosamente presentes em nossa história e que encontram grande ressonância na atualidade. Naturalmente, isto se refletiu no papel dos intelectuais ao longo da história da educação brasileira, em termos de um elitismo cultural fechado e de uma submissão quase completa aos interesses das classes dominantes, uma espécie de intelectual domesticado.

É justamente a partir deste fato, que se concebe uma crítica à tradição cultural brasileira envolta ao trabalho do professor. Esta carrega uma ideia de pretensa neutralidade do conhecimento e acaba por objetificar o professor, destituindo-lhe de toda a sua autonomia moral, política e intelectual. Em seu lugar, Florestan Fernandes traz a figura do professor-cidadão: “Se o professor não tiver em si a figura forte do cidadão, acaba se tornando instrumental para qualquer manipulação, seja ela democrática ou totalitária. O professor precisa ser professor-cidadão e um ser humano rebelde.” Em outras palavras, educar é um ato político, o que se casa perfeitamente com o pensamento de Paulo Freire.

Isto continua sendo um desafio enorme num país de raízes autoritárias e carente de uma cultura cívica forte e permanente. Como ilustração, recorremos ao conceito de contrarrevolução prolongada, do próprio Florestan Fernandes, para mostrar como a elite possui a capacidade de se antecipar às mudanças para manter os seus privilégios. Não é à toa que a democracia brasileira hoje está em crise e sob grave ameaça, com todas as particularidades que a conjuntura coloca e que a diferencia de outros momentos históricos.

Como alternativa a este quadro, Florestan defendia a necessidade de uma revolução educacional. Para isso, suas reflexões sobre o tema giravam em torno de três pontos principais: a necessidade de ruptura com traços culturais coloniais; de a educação ser democrática no seu sentido estrutural e comportamental; e da defesa da educação pública. No cerne deste processo estava o papel político do professor e sua atuação como cidadão dentro e fora da escola.

Por fim, a leitura da obra nos remete a uma série de questões candentes ao debate educacional brasileiro, como a escola sem partido, o currículo escolar, a formação de professores, a privatização da educação, a precariedade da educação pública, dentre outros. Assim, fazemos o convite à leitura de A formação política e o trabalho do professor, que consideramos desde já um clássico, entendido na concepção de Calvino (1993), como “um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.

*Jackson B. da Costa, é professor do Instituto Federal do Sertão Pernambucano – IF Sertão – PE.

Obras consultadas

CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 1993.

CANDAU, Vera Maria. Multiculturalismo e educação: desafios para a prática pedagógica. In:  MOREIRA, A. F.; CANDAU, V. M. (Orgs.). Multiculturalismo: Diferenças culturais e práticas pedagógicas. 10 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

FERNANDES, Florestan. A formação política e o trabalho do professor. Marilia-SP: Ed. Lutas anticapital, 2019.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2019.

SUPLEMENTO PERNAMBUCO. Viver é Tomar Partido: Antônio Gramsci e o ódio contra a indiferença.


Imagem de destaque: Florestan Fernandes em conferência no Museu de Belas Artes (1964). Foto: Arquivo Nacional

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