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Meninas Uniformizadas Em Frente O Computador – Juliana Maria Melissa Antônia  E  Evelly  Souza – Wagner Ramos SEI

Ensino Médio Integrado, Educação Profissional e Possibilidades

Tiago Tristão Artero

Somos trabalhadores, antes de sermos mercadorias e podemos produzir nossa história nas condições objetivas que se apresentam.

O Ensino Profissional no contexto do Ensino Médio Integrado (EMI) difere de um ensino profissionalizante/tecnicista.

As implicações geradas pelas vidas dos seres humanos e das vidas que habitam o planeta devem ser pensadas em suas interações (visto que nós, humanos, somos uma pequena porcentagem, diante da quantidade imensa de outras formas de vida – mais precisamente, representamos cerca de 0,01%). Os primeiros colocaram-se como o centro de todos as questões e aceleraram os processos que nos insere no Antropoceno.

Com a sensação de que são soberanos grupos de indivíduos (nós, humanos) escolhemos ações mais ou menos danosas para ‘o todo’. A educação está entre as ações colocadas em curso e, em sua forma mercantilizada, extrativista e empresarial/empreendedora atenta contra a própria vida humana e, catastroficamente, acelera o fim do capitalismo (em cenários que indicam os maiores riscos sociais/ambientais).

O Ensino Médio Integrado possui os gérmens de uma educação diferente do que a promovida de maneira alienada pelo capitalismo, ainda que dentro dela e reprodutora de condições que o próprio sistema coloca. Isso não desqualifica suas potencialidades e contribuições para o desenvolvimento humano e científico.

Tendo o trabalho como o princípio educativo, Trabalho, Ciência e Cultura, articulados, permitem um tipo de ensino que parte dos políticos intentam esconder, no que se refere a Educação Profissional, Científica e Tecnológica. Escondem(!)… pois os índices das avaliações de larga escala superam os do ensino privado (ainda que este tipo de avaliação seja reducionista). Esta informação revela que o ensino público pode (e deve) ser de qualidade e no caso dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia são referência mundial. Importante lembrar que os Institutos Federais partem do ensino médio da educação básica e se estendem até a pós-graduação – podendo seus/suas estudantes verticalizar dentro da própria instituição, chegando ao doutorado.

A culpabilização das professoras e professores se intensifica em tempos de obscurantismo, em que nossos corpos são intensamente solicitados como úteis ou não, passíveis de serem sacrificados pelo esgotamento ou pelo contágio em meio a uma pandemia.

A integração de conhecimentos ditos propedêuticos com os técnicos (técnico em informática, agrícola, em artes, dentre outros) é um dos diferenciais desta rede, de mantoeira que saberes relacionados com o trabalho sejam refletidos nas condições materiais, sociais, culturais, científicas e ambientais, num viés que integra ensino, pesquisa e extensão (já na educação básica). Ou seja, a técnica pela técnica, o tecnicismo e a valorização do mercantilismo não faz parte da concepção dos Institus Federais.

A mudança da sociedade vem com as alterações das condições materiais culturais e sociais e a Educação Profissional pode contribuir com este papel socializador do conhecimento e de mudança de paradigma, uma vez que, do outro lado, a formação pragmática, tecnicista e mercantilizada faz parte de um projeto de sociedade que agrava a exploração humana/ambiental.

Como o conhecimento vem sendo fragmentado no decorrer do tempo, numa divisão positivista, a interdisciplinaridade e, mais do que isso, a totalidade dos saberes em cada prática escolar/institucional são elementos a serem considerados em um ensino integral e, no caso dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, em um Ensino Médio Integrado (no sentido de integrar conhecimento geral e técnico).

Não são todos os povos e todas as culturas que fazem esta fragmentação, no entanto, o saber eurocêntrico trouxe este paradigma e tentou eliminar conhecimentos que nos territórios brasileiros já existiam (e ainda existem/resistem, daí a necessidade de descolonizar nossa vida e nossas epistemologias).

Buscar meios nos quais as pessoas entendam preceitos da ciência, nas mais diversas áreas do conhecimento, e promover condições de manutenção da vida humana e de todos os outros tipos de vida poderá revelar que “ficar em casa” é uma possibilidade real para grande porcentagem dos humanos, já que alimentar o insaciável estilo de vida das elites e o produtivismo ao qual o capital está relacionado poderia ser dispensável. As mortes geradas pela pandemia não vem só do mundo globalizado, vem, eminentemente, do capitalismo, pois este guarda, em seus pressupostos, que o lucro vem antes da vida – objetifica as vidas e coisifica o dinheiro.

Enquanto nossas práticas (pedagógicas, em pesquisa, de produção, de consumo) forem predatórias da vida humana (considerando a divisão internacional do trabalho e a tendência em utilizar a América Latina não mais como consumidora, mas eminentemente extrativista), dos bens naturais e de todas as outras, o caminho para a naturalização das tragédias sociais ficará mais curto.

Com o neoextrativismo, o Antropoceno indica um caminho sem volta, mesmo se mitigarmos ao máximo nossas ações predatórias entre nós e com a totalidade.

A capilarização territorial que compõe a Rede Federal de Educação, Ciência e Tecnologia buscou atender, mesmo que ainda uma pequena parcela da população, cidades mais distantes, ainda que não fossem centros econômicos.

Cabe ampliar as unidades e valorizar este tipo de educação, a fim de que novas possibilidades possam ser configuradas e os mais explorados sejam respeitados em suas culturas e em sua territorialidade. Dessa maneira, elementos/fenômenos que estão no contexto planetário – pandemias, “desastres naturais”, a biodiversidade, tecnologias e uma ciência comprometida com a totalidade da vida e dos bens naturais – poderão ser estudados, entendidos e estes saberes incorporados nas mais diversas ciências que existem pelo mundo e que não foram extintas – apesar das ações dos colonizadores.

Que a prerrogativa de “valorizar o conhecimento historicamente acumulado” não seja uma assertiva para supervalorizar o eurocentrismo, mas que a Educação Pública, Laica e de Qualidade esteja vinculada a inclusão de saberes diversos que no nosso contexto da América Latina possui um imenso potencial transformador.


Imagem de destaque: Wagner Ramos/ SEI

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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