Emergência internacional econômica e educacional como processos integrados na história recente da China – exclusivo

Matheus da Cruz e Zica

Nos últimos artigos que publicamos na Série: Pensar a educação na China, Pensar o nosso Tempo, levantamos a questão do sucesso dos países asiáticos na edição anterior da avaliação internacional do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), em 2012, notadamente a China. O PISA, promovido pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), é trienal e foi realizado no mês de maio desse ano de 2015. No texto anterior mostramos como a educação na China passa a despertar o interesse da mídia brasileira quando se percebe a possibilidade de conectá-la a valores que estão associados às economias de livre mercado. Por esse motivo achamos por bem tentar contextualizar a relação econômica e educação a partir de uma reflexão sobre a história recente da China, vista a partir de um ponto de vista mais aproximado ao dos nativos.

A China por um bom tempo ficou completamente fechada para os países ocidentais. Apenas no final da década de setenta, o país passa a retomar o diálogo econômico com as potências de outros continentes. O estímulo ao consumismo no interior da China, por exemplo, só acontece no começo da década de noventa, modelo já bastante interiorizado pelos chineses nos dias de hoje. O destaque para a economia de mercado, que parece orientar o PISA, é, portanto, recente no “País do Meio”, maneira como os chineses chamam seu próprio país. Considerando esse fato, o alto desempenho dos estudantes chineses nesse teste do ano de 2012 é bastante significativo em relação à capacidade de mobilização da população em relação às causas valorizadas pelo PCC, o Partido Comunista Chinês.

Precisamos nos atentar para o fato de que a China já assiste à quinta geração do Partido Comunista Chinês (PCC), no poder desde 1949. De 1949 a 1976 exerceu o poder a primeira geração do PCC. É conhecida por “Era Mao”, embora o grande líder da nação não tenha conduzido sozinho a China durante esse período. O fim dessa Era chega com a morte de Mao Zedong e prisão da “gangue dos quatro”, encabeçada pela esposa do Presidente Mao, que teve papel fundamental durante a trágica Revolução Cultural, momento em que professores foram espancados em massa pelos alunos por que supostamente representavam a cultura decadente do passado não socialista. A partir daí, fins dos anos 70, ascende ao poder o antigo “camarada” Deng Xiaoping, com planos de abertura econômica para o país. Essa inflexão no PCC marcaria a segunda geração do PCC. 

Com o massacre de 1989, na praça Tiananmen – quando universitários desafiaram tanques de guerra em Beijing –, rasgado da memória dos chineses, mas icônico para o público de todo o mundo, o PCC volta a entrar em uma grande crise que faz com que Deng seja afastado da liderança do Partido e tome a dianteira, o também antigo revolucionário, Jiang Zemin Li Peng. Jiang Zemin governaria de 1992 a 2002, constituindo a terceira geração do PCC, caracterizada pela consolidação da economia chinesa no cenário internacional. 

Recentemente, em 2012, assistimos ao fim da administração de Hu Jintao e Wen Jiabao, quarta geração de líderes do PCC. A quinta geração, que conta com a liderança de Xi Jinping e Li Kequiang, toma o poder com um legado de sucesso econômico sem precedentes, mas com desafios importantes como: reduzir as desigualdades; diminuir as taxas de poluição; controlar a corrupção; e garantir a soberania do território. 

Passado o que ficou conhecido pelos habitantes do “País do Meio” como o “Século da Humilhação”, período entre 1850 e 1950, quando estrangeiros controlaram os destinos da China, o país se fechou para a economia mundial durante a Era Mao. Assim sendo, entre 1950 e 1960, o centro de diálogo econômico com o mundo no leste asiático foi o Japão. Entre 1970 e 1980, o centro motor do encontro econômico ocidente-leste asiático se desloca para países como Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan, regiões com mão de obra barata e disciplina de trabalho.

Como fruto de uma década de abertura proposta por Xiaoping, nas chamadas Zonas Especiais do território chinês, os anos entre 1990 e 2000 se apresentam como o grande momento econômico da China, fato que tem implicações políticas e culturais importantes para aquele país e para o resto do mundo. É também nesse momento que os resultados do PISA 2012 chamam a atenção do mundo com algumas regiões da China despontando nos primeiros lugares. 

De país reconhecido pela produção de cópias mal feitas de grandes marcas internacionais, durante a década de oitenta, a China se desponta, a partir da década de noventa do século vinte e, sobretudo, nos iniciais do século vinte e um, como uma das grandes potências criativas e tecnológicas no âmbito global, se mostrando competitiva com marcas americanas, europeias e japonesas. 

Se a emergência internacional da China na economia e na educação faz parte de um processo conectado, não compreenderemos bem esse quadro, entretanto, sem localizá-lo na longa duração da história política do papel do estado para os chineses. Tentaremos abordar essa questão em nosso próximo artigo.

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