Ivane Perotti – EM DEFESA DAS SINGULARIDADES – Leitor

Em defesa das singularidades: um convite para Esther Duflo

Ivane Laurete Perotti

 

[…] é preciso que a educação esteja – em seu conteúdo, em seus programas e em seus métodos – adaptada ao fim que se persegue: permitir ao homem chegar a ser sujeito […] Paulo Freire

 

 Algumas aulas fazem o estudo da língua materna valer os filhos: eu valho, tu vales! Assim como as falas (não cala!) em sala (longe da vala!), os textos escritos rondam os horizontes das possibilidades. A escrita é um pretexto para se fazer ouvir, para registrar o outro que acode às fomes do dito/não dito.  As combinações de palavras rendem-se à arte de enunciar o anúncio das vozes dentro e fora do texto: eis o pretexto.

Há de se reconhecer que existem discursos desconexos talhados em projetos de birra. A estes falta o digno verbo. Mas de verbos entendem os professores que conseguem enxergar luz ao final do turno. Prodigiosos professores que não comemoram UM dia de suas escolhas. Têm dias para sempre comemorar. E este foi mais um:

_ Vamos ouvir sobre as notícias lidas. Cada um tem o direito, a vez e a voz de se pronunciar sobre a leitura escolhida.

_ Eu escolhi a melhor de todas!

_ Comente, Pedrinho!

_ Li sobre o mistério dos buracos negros. Da hora aquele trem de espaço e tempo e … ele engole tudo ao redor. Mó loco, meu!

_ Eu…eu li sobre o feminicídio e que não é simplesmente uma questão de…

_ Aqui, eu agora…li sobre a violência infantil e…

_ Eu li sobre a fome no mundo e…

_ Eu li sobre o Prêmio Nobel de …de Economia, aqui, ó! – a imagem recortada mostrava a foto da franco-americana Esther Duflo.

Todos leram sobre tudo. Leram e disseram das suas leituras com o cuidado de sabê-las não esgotadas.

_Ó profe!,a gente leu coisas nada a vê!

_ Será?

_ É!

_ Podemos discutir a questão.

_ Eu acho que tem tudo a vê!

No diálogo, a língua deu espaço às construções de sentidos buscados bem diante dos olhos das letras, dos olhos do mundo e dos mergulhos em pequenas poças. Dessas poças, muitas vezes, abrem-se ribeirões carregando moleques. Outras vezes, morrem nascentes engasgadas pela vastidão capital do berço não esplêndido. Dizer e não dizer são vertedouros de sentidos. Os sentidos não são ingênuos, mas nem sempre se deixam capturar.

_ Profe… e se a gente pensasse sobre os buracos negros como uma grande boca que engole tudo para alimentar a luz?

_ E se a gente pensasse sobre a pobreza no mundo como uma ideia de …

_ Não! A pobreza não é uma ideia e não tem nada a ver com a questão de…

_ Ei, eu posso pensar que a educação seria uma bússola para o …

_ A gente poderia juntar essas ideias!

_ Concordo!

_ Com…corda!

Os risos ricos de poder sobre a palavra e as ideias têm gosto de naturalidade. Simplesmente, natural. Natural como nascer e morrer. Complexo como descobrir as formas de sobre/viver.

_ Pró… e se a gente pensasse em…

_ Ele pensa… ele pensa…

_ Nós pensamos, não é fulana?

_ Sim, pró!

_ Então, vamos fazer um convite para a moça do Prêmio Nobel?

_ O que você quer com ela, Pedrinho?

Após as risadas, a seriedade de Pedrinho deu espaço à paciência:

_ Não eu, eu, entende? Nós! Nós…entendeu?

O “sim” foi em coro sem fim.

_ Nós, nós podemos convidar a moça para explicar as coisas de educação, pobreza e… não entendi bem, profe, mas parece  legal o que ela descobriu.

_ Parece!

_ Então, quem escreve para ela?


Referência

FREIRE, Paulo.  Cartas a Cristina: reflexões sobre minha vida e minha práxis. 2ª ed. São Paulo: UNESP, 2003, p. 52.

Imagem de destaque: Roman Kraft / Unsplash

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