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Ivane Perotti – Em Cena– O Sono

Em cena: o sono

– por uma infância na escola e uma escola na infância-

 

Ivane Laurete Perotti

 

Por qualquer ângulo que se espreitasse a sala de aula via-se alunos em estado de pleno adormecimento. Dormiam como se não houvesse amanhã.

_ Que amanhã?

Apagados, distanciavam-se cada vez mais da lida do estudo. Dormiam encarreirados: cadeiras no lugar, cabeça sobre a mesa, mochila de travesseiro. E não lhes faltava à profundidade na cena de recorrência diária. Dormiam.

_ Fulano!

_ Fulano!

_ Se quer dormir, vá para casa!

_ Fulano! Acorde para a vida!

_ Fulano…

A voz do interessado no ato de acordamento não chegava ao labirinto de suspensão temporária das atividades.

_ Temporária? Ele dorme todos os dias, mano!

_ Está perdendo conteúdo! Como irá crescer na vida?

_ Que vida?

Se alguns riam, riam pela certeza do sentido não dito. Se outros apoiavam, faziam-no pela decência de chamar para si o que também lhes achegava: que vida?

Para o professor, a força do dizer deslizava para longe da motivação. Uma sala em adoecido sono repetia-se pandêmica.

_ Pândega? Ah! Isso, não! Cansei de ouvir essa coisa aí… ninguém aqui é pan…pan… ninguém, não! Todos trabalham.

E foi então que, mesmo sabendo, o ouvidor tomou-se de consciência completa acerca do que via e ouvia:

_ Todos trabalham? Quantos anos vocês têm?

_ Dez…

_ Nove…

_ Onze… trabalho desde os nove!

Operários deitavam a cabeça no colo da servidão. Estudar? Todos queriam. Acordar? “Isso” seria para poucos. Poucos tinham acesso ao despertar em um dia pré-adolescente, ainda infantil… não adulto.

_ O trabalho não mata.

_ …

_ Meu pai também começou cedo.

_ O meu… mais cedo ainda. Desde os seis, lá na roça.

_ Graças … eu tenho um trabalho.

_ O trabalho deixa a gente mais responsável.

_ Eu quero ficar rico… comprar uma casa para a minha mãe, entendeu?

O homem alto e bem formado que se colocava à frente dos alunos perdeu centímetros. Sua coluna desceu junto com as pálpebras. Os olhos voltaram-se para dentro e, então perguntou:

_ O que vocês gostariam de aprender?

Acordaram alguns, pois o vozerio tomou espaços: desceu as mesas, subiu as janelas, abriu as cartilhas de afogamento, fez nuvem de passarinho, esfregou tanto que virou aconchego.

_ Rapaiz! Eu nunca pensei que eu ia aprendê sobre as coisa da vida em uma aula de matemáticas.

_ Tem mais…

_ Mais?

Muitos não conseguiram acordar a tempo e perderam os cálculos sobre a razão quadrada da violência multiplicada ao ângulo obtuso da equação: infância e mão de obra. Muitos mantiveram o seu trabalho e testemunham dar conta das contas: somar e dividir? Ora! Isso é simples: eu + eu, dá nós; eles + eles, dá eles! Entendeu?

Na escola sem violência, aprender a somar equivale a compreender sonhos e vontades, espaços e necessidades. Aprender a dividir, implica perceber as sombras da cena, escondidas, camufladas sob o peso do sono de todos aqueles que estão demasiadamente… acordados!


Imagem de destaque: Tonny Tran / Unsplash

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