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Educar é ouvir a voz das crianças

Alexânia Campos

“Educar é simultaneamente proteger a criança das pressões do mundo e proteger o mundo contra as pressões e transformações que advêm da capacidade humana para a ação e para o discurso em comum, própria dos recém-chegados” (ARENDT, 1995, p. 190).

A minha primeira lembrança foi o meu primeiro dia de aula. O ano era 1994, quando minha mãe me levou para escola na educação infantil. Eu tinha quatro anos e minha mãe me disse depois de entrarmos: “Filha, eu venho te buscar mais tarde!” Mas pra mim o mais tarde não chegaria, me senti abandonada vendo minha mãe partir lentamente da escola.

Naquele dia eu conheci minha primeira professora, Soraia. Ela me colocou sentada ao lado de um mimeógrafo, me mostrou e pediu ajuda com o papel sulfite. Ainda posso sentir o cheiro de álcool nas folhas quentes que saiam daquele estranho instrumento. Ela deixou a sua turma para me dar atenção, esse cuidado e afeto por mim me marcaram profundamente. Minha professora foi me acalmando, aos poucos o choro embargado foi cessando. Tia Soraia tinha os cabelos ruivos e cacheados volumosos, chegava em uma motocicleta na escola e eu admirava, era um símbolo de mulher forte pra mim.

Ao fim de dois anos minha turma recebeu a notícia que nossa professora seria substituída. Então liderei minha primeira experiência de manifestação na vida: decidi mobilizar um grupo de amigos da classe e ir até a sala da diretora para mostrar nosso descontentamento. Se ela se atentou ou não para nossas demandas eu não sei, mas naquela época a impressão é que nossa tentativa foi em vão.

Em casa, relatei o ocorrido para os meus pais, aqueles em quem eu mais confiava. Para minha surpresa, eles não deram importância às minhas indagações. Senti a amargura de perder minha primeira professora, só conseguia chorar e me lamentar. Antes eu não sabia expressar em palavras aquilo que sentia, mas talvez hoje eu saiba o sofrimento que eu sentia. Simbolicamente, aprendi naquele dia que as crianças não têm voz ativa, que não podem se mobilizar em um mundo liderado por adultos. Afinal, a infância é muito difícil, nós (adultos) que nos esquecemos disso. Por isso é tão importante o exercício da reflexão de nossa própria história.

Referência Bibliográfica:

ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução Roberto Raposo. 7. ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.


Imagem de destaque: Pedro Cabral

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