Renata Simões E Shellen Matiazzi – Educação Infantil, Práticas Educativas

Educando o olhar em territórios periféricos

Jéferson Silveira Dantas*

O passado não reconhece seu lugar: está sempre presente.
(Mário Quintana)

A epígrafe acima do poeta gaúcho Mário Quintana estava impressa na camiseta de uma das servidoras da escola. Nunca tais palavras foram tão certeiras para os propósitos políticos e pedagógicos de nossa caminhada até o território do Morro da Queimada, área central de Florianópolis/SC. No dia 13 de março de 2004 professores, professoras e servidores da Escola de Educação Básica Jurema Cavallazzi subiram o morro para conhecerem a realidade social dos/as educandos/as, numa das localidades mais pauperizadas da Ilha de Santa Catarina. Guiados pelo professor de Geografia, Eduardo, iniciamos o nosso trajeto pela servidão Manoel Sibrino Coelho. Esta servidão encontra-se paralela à rua principal onde está situada a escola.

O professor Eduardo nos relatou que há poucos registros históricos sobre a localidade, enfatizando que há uma fronteira social bastante evidente naquele território, i.e., os moradores da “parte baixa” pertencem ao bairro José Mendes, e os moradores da “parte alta”, pertencem ao Morro da Queimada. Esta não é uma questão menor, tendo em vista que os preconceitos sociais dos quais os moradores do Morro da Queimada são vítimas, deve-se, sobretudo à violência sistemática promovida pelo narcotráfico. Além disso, as escassas evidências históricas dos dois territórios limítrofes revelam que os antigos moradores, como o ‘senhor’ Manoel Sibrino Coelho, eram proprietários de imensos lotes de terra naquele local, configurando práticas privatizantes tão comuns no Brasil Colonial e pós-independente. Estas permanências históricas estão arraigadas até os dias de hoje, pois mesmo num território tão pauperizado como é o caso do Morro da Queimada havia moradores que privatizavam determinados espaços sociais para a prática desportiva, cobrando taxas de uso.

Retomando a nossa travessia, o professor-guia nos relatou ainda que a servidão de acesso ao Morro só foi ‘lajotada’ na década de 1980. Eram comuns os desmoronamentos e acidentes em dias de intensa chuva envolvendo os moradores locais. O sistema de esgoto era precário e, por que não dizer, inexistente ou clandestino em grande parte do morro. Indaguei ao professor Eduardo o porquê do bairro se denominar “Queimada”. O professor respondeu que nos terrenos baldios do morro, onde se concentravam toda espécie de lixo e mato, os moradores queimavam o matagal para as crianças jogarem futebol. Daí, o apelido pegou. Quando diferentes grupos de crianças e adolescentes combinavam uma ‘pelada’, era comum se ouvir: “Vamos bater uma bola lá na Queimada?”.

As histórias contadas pelo professor-guia e os diferentes olhares que se lançavam em cada trecho de nossa caminhada, denotavam também os imensos contrastes sociais no território. Bem no início do morro era possível perceber casas de alvenaria, bem construídas, contrastando com casebres de madeira sobre estacas, ou ainda casas com reboco à vista. No que se refere aos aspectos culturais daquele território, eram e são comuns as tendas espíritas, os terreiros de candomblé e a presença de templos evangélicos e católicos, dando bem a medida de uma pluralidade religiosa no local (sincretismo religioso). O professor Eduardo chegou a mencionar que o território do Morro da Queimada, possivelmente, é o local onde se agrupa o maior número de terreiros por metro quadrado do Brasil. Algo que precisa, efetivamente, ser investigado com maior rigor epistemológico.

Os servidores da escola, que são ou foram moradores do território do Morro da Queimada, relataram ainda que a localidade sofreu profundas modificações estruturais nos últimos vinte anos. Um deles relatou-nos que antigamente havia um riacho que atravessava o início do morro, e até hoje é possível ouvir o som do rio sob uma horta construída no local. O riacho foi canalizado e desemboca no mar por meio de tubulação subterrânea. Até meados da década de 1980, segundo o servidor, era possível beber a água deste riacho. Porém, já a partir da década de 1990, o riacho estava completamente poluído por dejetos orgânicos, assim como o próprio mar que circunda o território José Mendes. Outra servidora da escola nos reportou que quando era menina, lavava roupa num tanque natural de água com familiares e outros moradores. Hoje, o local está aterrado é há uma residência em seu lugar.

Já na parte mais elevada do morro vislumbramos uma paisagem lindíssima da ilha de Santa Catarina, englobando os bairros da Costeira do Pirajubaé, Saco dos Limões e Pantanal. Perguntamos ao nosso professor-guia o que significava, conceitualmente, o termo Maciço do Morro da Cruz, área geográfica onde se encontrava o território da Queimada. O professor Eduardo nos disse que a denominação Maciço refere-se a uma formação rochosa ampla que já sofreu um longo processo de erosão com o passar do tempo. Recomendou-nos, portanto, a leitura de um dicionário de Geografia com conceitos pertinentes à geomorfologia.

Prosseguindo a nossa jornada pudemos perceber que não estávamos diante de um único território, mas de vários subterritórios. O local denominado Boca do Vento fica bem em frente a um dos templos da Igreja Assembleia de Deus. Naquela época (2004) estava completamente baldio, com muita sujeira e mau cheiro. Aliás, o lixo exposto a céu aberto era uma situação presente e permanente no território da Queimada. A Boca do Vento está circundada por muros – já que é uma propriedade privada – e deste local é possível enxergar as pontes que integram a ilha ao continente. O professor Eduardo fez uma importante comparação da situação urbana de Florianópolis nos dias de hoje com duas representações iconográficas de Debret no século 19. Os lugares de memória representados pelo pintor francês Debret na missão artística realizada na antiga Desterro estão, atualmente, quase que desfigurados. O aterro da Baía Sul na década de 1970 tornou a paisagem de Florianópolis mais verticalizada e sem os ares provincianos comuns até a década de 1960.

Próximo ao subterritório da Boca do Vento havia muitas crianças que estudavam em nossa escola. As crianças sentiram-se prestigiadas com a nossa visita. Antes de descermos o morro, fomos até a divisa do território da Queimada com o território do Mocotó, este último tristemente marcado pela presença do narcotráfico e pelo histórico de chacinas envolvendo o crime-negócio. O professor Eduardo comentou que para os técnicos do IPUF – Instituto de Planejamento e Urbanismo de Florianópolis – os territórios da Queimada e Mocotó são considerados bairros centrais da capital, corrompendo os dados oficiais sobre a qualidade de vida na cidade e elevando o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Na descida do morro entramos numa estradinha esburacada que dá acesso a um local denominado Jagatar, que foi invadido ilegalmente por migrantes de outras regiões do estado de Santa Catarina e também de outros estados brasileiros. No Jagatar não havia tratamento de esgoto e toda a rede elétrica era clandestina, ou seja, a prática das gambiarras era sistemática. Próximo do subterritório havia uma fabriqueta de massas, que chegou a funcionar por um tempo, absorvendo a força de trabalho local. Com o fechamento da microempresa, os trabalhadores locais ficaram sem ter para onde ir e passaram a ocupar ilegalmente o terreno das proximidades. Hoje, a antiga fabriqueta de massas abriga uma Igreja Católica. O poder público municipal durante anos não realizou qualquer iniciativa de urbanização no território da Queimada.

Ao retornarmos para a Escola registramos coletivamente as nossas impressões da caminhada, a partir de três segmentos: 1) Meio Ambiente; 2) Aspectos sociais e culturais; 3) Aspectos econômicos e renda. Os professores consideraram que a comunidade carece de uma coleta seletiva de lixo e o tratamento de água e esgoto. Ainda no segmento Meio Ambiente, os professores apontaram que as casas possuem uma construção frágil e que muitas estão em situação de risco (possibilidade de desmoronamento) e há muitos dejetos orgânicos de animais pelas ruas, mormente de cachorros.

Já no segmento Aspectos Sociais e Culturais, foi considerado que a maioria das crianças do território da Queimada é negra, mas há uma diversidade étnico-racial muito grande, principalmente de famílias originárias do meio-oeste do estado. Além disso, o sincretismo religioso é evidente. Convivem diariamente com a violência doméstica e o narcotráfico. As crianças têm pouquíssimas áreas de lazer e as famílias são bastante influenciadas pela mídia hegemônica tradicional.

No segmento Trabalho e Renda uma professora apontou que os moradores do território da Queimada são consumidores potenciais, pois querem ter os mesmos bens da classe média. Um professor comentou que pesquisas encomendadas por empresas e realizadas nos territórios dos morros da capital, objetivavam a identificação do perfil consumidor de seus moradores.

Ao retomarmos os planejamentos e o Projeto Político e Pedagógico (PPP), tivemos a convicção de que não estávamos executando uma tarefa burocrática ou protocolar, mas sim um projeto educativo interdisciplinar, envolvendo todos os sujeitos históricos da Escola. Por fim, parafraseando o mestre João Guimarães Rosa, o importante não é a chegada e nem a partida, mas o processo histórico de nossa travessia; ou ainda lembrando a epígrafe deste texto: o passado não reconhece o seu lugar. Está sempre presente. E é justamente na construção dialógica do passado com o presente e do presente com o passado, que teremos as ferramentas conceituais para ultrapassarmos as concepções terra-a-terra do senso comum.

* Jéferson Silveira Dantas (1973-), gaúcho de Bagé/RS, Bacharel Licenciado em História, Mestre e Doutor em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor no Departamento de Estudos Especializados em Educação do Centro de Ciências da Educação da UFSC (EED/CED) e Professor Colaborador no Programa de Pós-Graduação em Educação do Centro de Ciências da Educação da UFSC (PPGE/CED). Membro e pesquisador do Grupo de Estudos sobre Política Educacional e Trabalho (GEPETO) e, atualmente, participante do Observatório de Ética jornalística (objETHOS), vinculado ao Departamento de Jornalismo e ao Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (POSJOR) da UFSC. E-mail: jeferson.dantas@ufsc.br


Este texto integra a série Elogio à Docência. Reforçamos o convite para que escrevam à coluna Entrememórias e se juntem a nós nesse elogio à docência!

Imagem de destaque: Dmitry Ratushny /Unsplash

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