Educação, patrimônio geológico e mineração: um esboço interdisciplinar

Vagner Luciano de Andrade

Fernanda Aparecida Peixoto*

Serra do Coelho, área rural devastada pela mineração em dois anos, município de Desterro de Entre Rios – MG. Fotografia de Fernanda Aparecida Peixoto (2018)

Minas Gerais está tão imbuída na mineração, que a atividade faz parte do imaginário popular desde tempos pretéritos. São as minas de ouro que hoje se transformaram nas minas de ferro e outros minerais estratégicos. Mas repensar a atividade minerária e seus impactos e desdobramentos são propostas mais que educativas, sendo uma responsabilidade socioambiental para com o futuro. Neste contexto, educação, patrimônio geológico e mineração propiciam um diálogo interdisciplinar em classe com discussões relevantes. De um lado, aprender o contexto de formação do relevo e as dinâmicas que moldaram o planeta Terra e do outro, a questão de minerais estratégicos à economia capitalista. No meio disso, diversos impactos sobre ecossistemas, comunidades tradicionais e culturas locais.

Geograficamente, as serras são descritas como unidades variadas de relevo, que apresentam elevações acidentadas, picos altos e vales profundos, frutos de dinâmicas internas/externas diversas ao longo do tempo geológico. Um ciclo eterno se alternou na paisagem com materiais sendo carreados dos ambientes erosivos (mais altos) para os deposicionais (mais baixos). Assim, são altitudes que se destacam pelas alturas superiores às terras próximas, como o caso da Serra do Coelho, em Desterro de Entre Rios, a 160 km da capital mineira. Um conjugado de serras, extensas e altas, receberá a denominação de cordilheira como Andes, Espinhaço e Himalaia. Jurandiyr Ross no ano de 1985 propôs a atual definição do relevo brasileiro, composto por três grandes formatos: depressões, planaltos e planícies, subdivididos de forma a abarcar diversas outras unidades. No compartimento geológico dos planaltos, localizam-se as principais serras e chapadas brasileiras, de altitudes e origens diversas.

Existem autores que defendem que montanhas são dobramentos modernos, portanto, inexistentes no Brasil. No passado, há muitos milhões de anos, o território brasileiro já possuiu formações geomorfológicas com altitudes bem superiores às atuais. Porém, em função de longos processos erosivos, estas cadeias antigas com montanhas alinhadas foram desgastadas formando um relevo senil. Entretanto, mesmo com o desgaste geológico, as unidades de relevo ainda apresentam aspectos serranos em grandes extensões. As elevações brasileiras mais velhas têm geralmente formas maciças e cumes arredondados e é um patrimônio geológico de inigualável valor histórico e ecológico. Embora tenham alcançado grandes altitudes no passado, atualmente não ultrapassam os 3.000 metros, não significando, porém, que sejam pequenas. Ao contrário, são imponentes e se destacam como marcos na paisagem pela beleza paisagística.

Casa rural ao pé da serra do Coelho, onde a mineração afeta comunidades tradicionais, município de Desterro de Entre Rios – MG. Fotografia de Fernanda Aparecida Peixoto (2018)

Mas, mesmo sendo um patrimônio rico em informações sobre a história geológica e ecológica do planeta, as unidades de relevo em sua maioria disponibilizam minerais estratégicos ao desenvolvimento socioeconômico dos tempos presentes. A chegada de mineradoras a diferentes cidades é observada com curiosidade e expectativa por parte dos moradores locais, que pouco sabem a respeito da ocorrência e extração de minérios. Geralmente a destruição e descaracterização da paisagem e realocação de comunidades serão argumentos socialmente aceitos em troca do progresso que ela trará à região, gerando empregos, tributos e movimentando o comércio local.

Eis agora uma possibilidade única de abordar a questão junto aos alunos do ensino fundamental, conectando discussões sobre ciências biológicas, geografia e história. Professores destas áreas, aproveitando essa oportunidade educativa, poderão pedir aos estudantes pesquisas a respeito desse tema. Após resultados dessas pesquisas, propõem-se atividades em sala de aula invertida (em formato circular) para se debater o que foi aprendido sobre o tema. Os educandos se mostrarão motivados com a atividade e trarão pontos, que abordarão principalmente os aspectos positivos da extração do minério na região. As oportunidades de emprego trazidas pelas empresas certamente será o ponto mais levantado pelos discentes. Então o professor precisará intervir, apresentando uma nova pesquisa ecológica dimensionando o lado negativo da mineração. Os educandos repensarão os pontos de vista inicialmente apresentados ao perceber os múltiplos impactos ambientais trazidos pela extração irresponsável. Logo esses alunos se demonstrarão assustados com a deterioração do ambiente causada pelas mineradoras, e um novo debate discutirá temas como a contaminação da água, a destruição da vegetação e fauna, e a conclusão que a lucratividade fica apenas nas mãos das grandes corporações capitalistas, e à região apenas resta o passivo da devastação irreversível.

Serra do Coelho, área de cerrado e nascentes devastada pela mineração, município de Desterro de Entre Rios – MG. Fotografia de Fernanda Aparecida Peixoto (2018)

Mesmo que os critérios de mineração se respaldem em leis, observa-se e avalia-se que a ação da mineração é irresponsável e destrutiva para com ecossistemas e comunidades.  Esse debate precisa ser viabilizado entre os estudantes incentivando-os a realizarem pesquisas sobre este tema tão comum na cultura e na paisagem mineira. Essencialmente, nosso estado sempre foi minerador e sempre continuará sendo o mesmo, se mudanças não forem empreendidas pelos diferentes atores sociais. Assim a educação, deve articular e promover um diálogo interdisciplinar entre mineração e patrimônio geológico, destacando a distorção que se dá quando se viabiliza um projeto minerário.  Educar significará construir novas percepções, nos quais a mineração não seja a égide preponderante, mas no qual se descubram novos caminhos em busca de sustentabilidade, dignidade e preservação ecológica. Uma nova Minas, com sua cultura, ecologia e paisagem deve fomentar a prática docente na construção de um novo paradigma e de novos projetos sociais.

*Fernanda Aparecida Peixoto é Discente do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da UNIMES – Universidade Metropolitana de Santos

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