HELENA ANTIPOFF Com Crianças0 – Destaque

Educação no século XXI: muito além da sala de aula

Vagner Luciano de Andrade (*)

Quando se pensa em educação do Século XX, uma pessoa, em especial vem à mente. Helena Antipoff, educadora russa que plantou em solo mineiro uma contribuição importantíssima para e educação nacional. Dedicou-se às crianças que perderam seus pais na guerra, aos meninos do campo, às crianças de rua, aos meninos pobres, às crianças excepcionais, ao teatro infantil e ao escotismo. Tinha uma percepção ecológica e geográfica única: adorava pássaros e flores e segundo ela “se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los imóveis, em carteiras enfileiradas e salas sem ar, perdendo tempos em exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem.” Certamente já compreendia que a educação acontece “muito além da sala de aula” sendo algo libertador, ao invés de prender, e que o aluno livre poderia desenvolver plenamente. Educar é construir novas formas de ver e pensar realidades. O docente utilizando de inúmeros conceitos originários de outras áreas busca formar o cidadão do novo mundo.

Uma educação além da sala de aula vai além da inovação tecnológica e demais prodígios da filosofia da mente. Educar é um retrato pintado conjuntamente por educadores e discentes, no qual a importância do sentimento se consolida e se frutifica. Educar pressupõe desafios, dentre os quais o do amor na educação. Devemos orientar os alunos a amar a Terra, casa maior, que abriga e alimenta. Aí entra a Ecologia profunda, o contato com a natureza, berço acolhedor da vida, permitindo a comunhão e o cuidado. Como diria a música “Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida”’ (Caetano Veloso), esse contato permitirá a admiração, o respeito e o amor a todas as formas de vida, que partilham conosco este planeta encantador. Isso permitirá o despertar, o refletir e o agir libertando-nos de prisões interiores.

O Construtivismo fala indiretamente de Amor, um sentimento cada vez mais em desuso e esquecimento. O amor é o instrumento mais importante na prática educativa, devendo orientar os alunos para o acolhimento, a harmonia, a percepção e o cuidado. Emprestamo-nos de Rubem Alves quando ele alega que esta “força” é capaz de transformar o mundo, porque transforma o coração humano. Como ele mesmo diria “mundos melhores não são feitos, eles nascem. E nascem de onde? Do amor. O único poder de onde as coisas nascem. (…) Para isso sou educador. Desejo ensinar o amor.” Assim conclui-se que ser professor é, sobretudo amar e cativar, e como diria o Pequeno Príncipe: “Tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” (Antonie de Saint Exuphéry).

Fonte: Acervo Antipoff

Então o Construtivismo se lança na reformulação das práticas tradicionais e ultrapassadas. Para isso é indispensável uma educação integralmente voltada para a ética, os valores humanos, o meio ambiente, a cultura, o gênero e consumo, que contribua para formação do aluno em sua totalidade e incentive a paz, a criatividade, a sensibilidade, a responsabilidade e o respeito. As teorias construtivistas têm muito a ver com a proposta de Educação do Século XXI como aquela que “busca a formação e o desenvolvimento intelectual, físico, social, moral, emocional e espiritual do ser humano”, reafirmando a importância da participação dos pais como primeiros educadores. Os objetivos do Construtivismo expressam efetivamente, a essência cristalina da educação: contribuir para a formação plena do ser humano. A Educação para o Século XXI é integralmente voltada a capacitar o aluno para o comprometimento consigo mesmo, com o outro, com a comunidade, com a vida e com o planeta, formando assim novos cidadãos que derrubem os atuais padrões de egoísmo e competição estruturados na sociedade.

E nesta perspectiva de educação emancipadora, os professores de Artes, Biologia, Filosofia, Geografia, História, Religiosidade e Sociologia têm muito a contribuir neste sentido devido ao fato de serem educadores de ciências amplas e abrangentes, que procuram fazer uma análise completa da relação ser humano/meio ambiente e das inúmeras relações naturais e sociais que acontecem sobre o espaço. Ao compreendermos que este espaço mantém uma estreita relação com o homem, sendo ambos inseparáveis, devemos como professores contribuir para que o ser humano seja consciente, crítico e atuante na busca da qualidade de vida e justiça social, porém com harmonia e equilíbrio sem imprimir uma marca destrutiva neste planeta que acolheu com carinho, a dádiva da vida. A destruição da vida ecológica e demais atributos naturais do planeta tem sido chamados de Antropoceno e merecem atenção educativa, coletiva e, sobretudo civilizatória.

O construtivismo ao frisar a importância da autonomia dos alunos no processo de aprendizagem ressalta a importância da auto percepção no cotidiano e realidade, visando o desenvolvimento da unidade (reconhecimento e valorização sadia de si mesmo), que levará ao entrelaçamento (busca) e à totalidade do ser (percepção e comunhão com o outro, com o meio), preparando os alunos para a participação socioambiental coletiva, os valores socioculturais, e à ação responsável, destruindo assim sentimentos como o egoísmo, a individualidade, a indiferença, o desprezo, o não comprometimento.

Alunas do Curso Normal em atividade pedagógica na horta da FHA
Fonte: Fundação Helena Antipoff – Fha

No construtivismo haja constante necessidade da coerência, do comprometimento com atitudes, hábitos e valores verdadeiros. Quando o professor é coerente e pratica o que ensina, os alunos certamente se espelharão nele. Devemos dar um basta no “Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”, nos portando como exemplo, mesmo sendo seres suscetíveis ao erro. E o erro quando inevitável deverá nos conduzir ao aprendizado e amadurecimento. A análise e a crítica certamente levarão a reflexão e a ação necessárias à transformação deste mundo num lugar mais justo e harmônico, onde todos tenham acesso à vida em sua plenitude.

Uma das propostas do construtivismo que se refere à participação social como instrumento para se transpor os muros da escola, que deverá mobilizar a comunidade na busca da qualidade de vida e na superação da exclusão social. Destaca-se aqui a importância da consciência crítica na formação dos alunos para que eles analisem o ambiente natural e social que os cercam, bem como as relações estabelecidas em ambos. Assim o Século XXI traz questões emergenciais que não podem ser negligenciadas como a articulação entre saberes e fazeres. Reformular o ensino objetivando formar cidadãos requer o ensino integrado e sistêmicos de Artes, de Cidadania, de Cultura, de Ecologia, de Esportes, de Ética, de Geografia, de História, de Lazer, de Literatura, de Matemática, de Português, de Religiosidades, e de Saúde, em todas as etapas de formação numa concepção interdisciplinar, transdisciplinar e multidisciplinar. A escola contribuirá para o fortalecimento da comunidade ao escutar o desejo comunitário, ao valorizar a cultura popular, ao promover à percepção crítica da realidade local.

A parceria escola/comunidade poderá fazer daquele bairro cada vez melhor para se viver e os alunos poderão sair dos limites da sala de aula, participando ativamente na comunidade em que vivem. Alguma experiência construtivista de projetos concretos em educação voltados para a informação, conhecimento, comprometimento e mobilização da sociedade, através de parcerias entre a escola, associações de bairro e igrejas. O educador e geógrafo Aziz Ab’Saber, que reforça a necessidade de criar nos alunos uma intimidade e integração com o lugar onde vivem. O professor deve fazer de seu ato de educar uma constante oficina de talento que leve ao conhecimento local para entendimento e atuação. É dele uma fala inesquecível: educar é “’escolher a melhor maneira de incentivar os alunos e extrair o que eles têm de melhor”, mensagem com a qual gostaria de encerrar este trabalho. Um bom exemplo podem ser atividades específicas em Ecologia e Geografia sobre o estudo das causas e consequências da poluição ambiental, incluindo trabalho de campo para mapeamento e diagnóstico de locais de bota-fora do lixo e levantamento do histórico da degradação ambiental no bairro e município. Ambos os projetos permitem aos alunos saírem da sala de aula, para explorarem suas potencialidades através da investigação, do reconhecimento e da análise, transformando-os em cidadãos conscientes e atuantes na realidade onde vivem.

Aluno da Fazenda Rosário na oficina de cerâmica, 1960. Fonte: Acervo Antipoff

Construir novos cidadãos impõe o desafio de ir além de uma educação certificadora que se atem apenas aos processos tradicionais que serão repassados até a conclusão das etapas e consecutiva certificação. Educar é transformar a realidade. Na Europa existem organizações sociais voltadas a atender às necessidades básicas humanas e de melhoria na qualidade de vida, associadas à proteção ambiental, onde meditação, relaxamento, automassagem, contação de histórias fazem parte do cotidiano educacional. Os alunos saem a campo onde o imaginário e os cinco sentidos são usados na compreensão das complexas relações que acontecem na natureza e na sociedade. Neste contexto pode ser citado o exemplo educativo das ecovilas europeias, escolar que vão além da sala de aula tradicional e da mera certificação.

Por último, em tempos de desmantelamento da educação por políticos cegos e obstinados por puro poder, faz-se necessário que o país assuma a educação como sua meta principal. Também sendo necessários, investimentos no professor e eliminação da exclusão, a retenção e a evasão presentes no cotidiano da escola. Infelizmente as páginas internacionais ainda mostram a realidade da educação no país, onde a escola, espaço-referência na sociedade, encontra-se completamente desestruturada desconsiderando toda uma dinâmica construída pela sociedade: a necessidade de se harmonizar e equilibrar a relação homem/natureza, através do crescimento econômico aliado à preservação ambiental e justiça social. Que as palavras mágicas de Antonie de Saint Exuphéry, de Aziz Ab’Saber, de Caetano Veloso, de Helena Antipoff e de Rubens Alves sejam a bandeira dos brasileiros na construção de uma nova forma de ensinar e aprender. Educação para o Século XXI, bandeira mor o Brasil de todos, que cismam em fazer de poucos.

Para saber mais

Helena Antipoff, amor pela pedagogia. Documentário sobre a sua vida e obra – PGL.gal


Imagem de destaque: Acervo Helena Antipoff

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